Cérebro rotaciona as memórias para não serem substituídas por novas informações

Por Natalie Rosa | Editado por Patrícia Gnipper | 17 de Maio de 2021 às 20h40
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Todas as vezes em que acordamos, não somente nós, humanos, como também os animais, o cérebro faz o trabalho de absorver novas informações, enquanto se apega às memórias de curto prazo. E para conseguir cumprir essa tarefa, o órgão precisa distinguir a percepção e a memória para que o fluxo de dados recebidos não interfira nos estímulos obtidos anteriormente, ou ainda interprete informações importantes de forma incorreta.

A tarefa fica ainda mais difícil, segundo pesquisas, pois o cérebro parece não conseguir dividir de forma nítida a função que trabalha com a memória de curto prazo de forma exclusiva nas áreas cognitivas superiores, como o córtex pré-frontal. Então, outras regiões sensoriais e centros corticais inferiores responsáveis por detectar e representar experiências acabam codificando e armazendo as memórias nelas mesmas. 

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Imagem: Reprodução/Ktsimage/Envato Elements

Ainda assim, essas memórias não podem interferir na nossa percepção do presente ou serem reescritas por novas experiências, pois o cérebro cria uma proteção para isso. Para tentar descobrir como acontece essa defesa, cientistas do Instituto de Neurociência da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, conduziram um estudo bastante interessante que foi publicado na revista científica Nature Neuroscience. 

Os resultados mostraram que o cérebro "rotaciona" as informações sensoriais para que a codificação seja feita como uma memória, sem que os novos dados sejam armazenados às memórias mais antigas. Os testes foram feitos em ratos, que precisaram ouvir a sequência de quatro cordas repetidamente, o que foi definido pelos cientistas como o "pior show da história".

Através da audição dessas sequências, os ratos conseguiram fazer associações entre determinados acordes, conseguindo identificar o som inicial de cada um deles, depois de muito treino, prevendo então quais sons viriam na sequência. Enquanto isso acontecia, os cientistas também treinavam classificadores de aprendizado de máquina para analisar as atividades neurais gravadas pelos animais no córtex auditivo. Então, foi possível identificar como os neurônios, de forma coletiva, representavam cada estímulo em sequência.

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De acordo com os pesquisadores, esses padrões eram alterados conforme os animais construíram suas associações e, com o tempo, as representações neurais começam a parecer umas com as outras. Além disso, novas entradas sensoriais apareciam na memória, como sequências desconhecidas de cordas, o que pode interferir na representação do animal sobre o que ele estava ouvindo, substituindo suas representações de entradas anteriores. Ou seja, os neurônios mudaram, de maneira retroativa, a codificação de um estímulo mais antigo para corresponder ao que o rato identificou como um estímulo posterior, ainda que fosse uma informação errada.

Basicamente, os dados sensoriais foram transformados em memória através de uma transformação do disparo de padrões neuronais, já que as informações mudam para que sejam protegidas, o que é chamado de codificação ortogonal. A próxima missão dos cientistas, agora, é obter mais clareza em como a atividade neural é alterada dessa forma.

Fonte: Wired

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