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Câncer cerebral "hackeia" neurônios para alimentar o tumor

Por| Editado por Luciana Zaramela | 29 de Junho de 2023 às 13h55

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Pingingz/Envato
Pingingz/Envato

Cientistas estão desvendando os modos como tumores cerebrais afetam a cognição e funções físicas dos pacientes, e, recentemente, descobriram como a doença remodela os circuitos neurais — revelando que a atividade cerebral pode até ser usada para alimentar o crescimento de alguns tumores.

Isso acontece principalmente com gliomas, que costumam afetar bastante a cognição, e glioblastomas, o tipo de tumor cerebral mais fatal nos adultos e que causa as quedas mais drásticas na qualidade de vida. Acredita-se que eles afetem as funções cerebrais normais ao comprimir o tecido e causar inchaço, ou ao competir com o órgão pelo sangue fornecido à região.

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Uma equipe de neurocirurgiões da Universidade da Califórnia descobriu um sistema inédito pelo qual os tumores cerebrais sequestram e modificam os circuitos cerebrais para se alimentar, um método que acaba causando declínio cognitivo em pacientes com glioma.

Como os tumores “hackeiam” o cérebro

No início do estudo, foi descoberto um ciclo perpétuo de feedback positivo que alimenta os tumores cerebrais, que se inicia quando as células do câncer produzem substâncias que agem como neurotransmissores — proteínas que ajudam na comunicação dos neurônios. Esse excesso de neurotransmissores faz com que os neurônios fiquem hiperativos, secretando substâncias químicas que estimulam a proliferação e crescimento das células cancerosas.

Para descobrir se esse ciclo de feedback afeta o comportamento e a cognição de pacientes com câncer no cérebro, os pesquisadores gravaram a atividade cerebral de pessoas com glioma em tempo real enquanto observavam fotos de objetos comuns ou animais, ao mesmo tempo em que deviam descrever o que estavam vendo. Tudo isso acontecia enquanto eram submetidos a cirurgias para remover o tumor (você pode ver o procedimento no vídeo abaixo, com legendas traduzidas automaticamente para o português).

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Durante as tarefas, o cérebro dos pacientes mostrava atividade nas redes ligadas à linguagem como esperado, mas notou-se que as regiões infiltradas pelo tumor — bem distantes das relacionadas à linguagem — também eram ativadas em tempo real. Isso mostra o sequestro e reestruturação do tecido cerebral ao redor do tumor, um “hack” do órgão pelo câncer para aumentar a atividade e se alimentar de mais química cerebral.

Esse pode ser o motivo do declínio cognitivo ligado à progressão dos gliomas. Apesar de ficarem hiperativas, as regiões cerebrais afetadas pelo tumor mostram uma redução significativa da capacidade de computação, especialmente na hora de processar palavras mais complexas e incomuns. Isso quer dizer que as células próximas ao câncer ficam comprometidas e acabam tendo que “recrutar” mais células para fazer o mesmo trabalho anteriormente feito por menos neurônios.

Novos remédios contra o câncer cerebral

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Após descobrir os hacks cerebrais feitos pelos tumores, os cientistas estudaram como as conexões neurais se relacionam entre si e com os neurônios saudáveis, tudo em cérebros de camundongos e organoides (aglomerados de células simulando cérebros em laboratório). Isso demonstrou que as células tumorais secretam uma proteína chamada trombospondina-1, que tem um papel importante na hiperatividade das células cerebrais. Buscou-se saber, então, se bloquear essa proteína frearia o tumor.

Camundongos com glioblastomas foram tratados com um medicamento anti-convulsão chamado gabapentina, que bloqueia a trombospondina-1. Isso impediu a expansão dos tumores por meses, mostrando um enorme potencial da droga no controle do câncer cerebral.

Mirar na comunicação entre as células cerebrais saudáveis e as cancerosas pode ser uma nova maneira de tratar a doença, aliada a outros tratamentos e ajudando a mitigar o declínio cognitivo, melhorando as chances de sobrevivência dos pacientes. Para melhorar o entendimento desses processos, os pesquisadores planejam fazer testes clínicos em humanos.

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Fonte: Nature, Neuro-Oncology via The Conversation