Ex-funcionária do Facebook revela como a rede tratava manipulações em eleições

Ex-funcionária do Facebook revela como a rede tratava manipulações em eleições

Por Felipe Gugelmin | Editado por Claudio Yuge | 23 de Agosto de 2021 às 15h10
Pixabay

Demitida do Facebook em setembro de 2020, Sophie Zhang se tornou conhecida pelo comunicado que acompanhou sua saída da empresa. Nele, a funcionária descrevia como a rede social não tomava medidas para prevenir a manipulação de eleições, permitindo que páginas falsas usadas por governos e candidatos se proliferassem.

No texto, ela afirmava que países como Índia, México, Afeganistão e Coreia do Sul usam táticas na rede social que permitem a manipulação de eleições e da opinião pública. Ela também afirmou que sentia que tinha “sangue em suas mãos”, por ter contribuído para um ambiente que pouco fazia para minimizar os impactos que isso trazia.

Após compartilhar sua história com veículos como o The Guardian, Zhang ficou mais de um ano em silêncio até ressurgir recentemente em uma entrevista com o Technology Review. Nela, ela afirma que, ao se juntar ao Facebook em 2018, disse não acreditar que a empresa estava contribuindo para um mundo melhor — algo que seu recrutador apontou como algo comum.

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Sem se juntar a um time específico, ela iniciou seus trabalhos na rede social combatendo táticas de engajamento falso, usadas para manipular conteúdos que recebem destaque e passam pela linha do tempo dos usuários. Após meio ano na função, ela investigou e descobriu que políticos no Brasil e na Índia usavam táticas semelhantes para aumentar seus engajamentos, algo que se intensificava perto da época de eleições.

Sophie Zhang. Imagem: Divulgação/Christie Hemm Klok/Technology Review

Ela também descobriu que o administrador da página do presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, havia criado centenas de páginas falsas com nomes e fotografias que imitavam usuários legítimos. Elas eram usadas para elogiar as publicações de Hernández com comentários, curtidas e compartilhamentos, inflando artificialmente seu alcance e a alterando a percepção pública em relação ao político.

Prioridade baixa

Zhang afirma que, ao reportar o que estava acontecendo a seus superiores, teve uma resposta pouco animadora. Apesar de o time responsável pela integridade da linha do tempo dos usuários concordar que a situação era indesejada, ninguém removeu as curtidas e comentários falsos. “Ninguém conseguia concordar sobre quem deveria ser responsável, ou mesmo o que deveria ser feito”, explicou a ex-funcionária.

Ela afirma que foi necessário um ano de pressão para que a rede de páginas fosse banida, o que também resultou na criação de uma nova “política de comportamento inautêntico”. O problema é que, na prática, não havia ninguém dentro da rede social encarregado de garantir que as novas regras estavam sendo seguidas.

Mark Zuckerberg, CEO do Facebook. Imagem: Divulgação/Facebook

Zhang assumiu a responsabilidade por isso sozinha, descobrindo que dezenas de países cometiam abusos — o caso mais notável era o Azerbaijão, cujo governo usava páginas para atacar opositores. Ela relata que o processo era difícil, já que era preciso insistir para que outras equipes do Facebook tomassem medidas, cuja velocidade dependência do impacto que a descoberta das páginas falsas poderia ter sobre a imagem pública da corporação.

A ex-funcionária afirma ter sentido uma onda de culpa em 2019, quando protestos começaram na Bolívia após a oposição contestar os resultados das últimas eleições. Segundo Zhang, semanas antes ela havia decidido tirar a prioridade sobre o país para lidar com casos que considerava mais importantes. “Foi aí que eu comecei a perder o sono”, afirmou.

Escorrendo pelas brechas

Após os eventos no país sul-americano, Zhang assumiu para si a responsabilidade de lidar com os problemas que encontrou na rede social. A ex-funcionária relata que esse período foi marcado por um agravamento de sua ansiedade e depressão, e que a pressão resultante do trabalho fez com que ela se distanciasse de amigos, familiares e terminasse seu relacionamento.

No memorando que marcou sua saída do Facebook, ela explicou que se sentia responsável pelo que acontecia porque não gostaria de ver mais casos importantes “escorrendo pelas frestas”, como havia acontecido em sua experiência universitária. Durante seu tempo na Universidade de Princeton, Zhang relata ter sido vítima de assédio e perseguições por um colega que, ao ser relatada, foi desacreditada pela instituição — que nega a situação e diz que oferece suporte a qualquer membro do campus que passou por situações traumáticas.

Imagem: Divulgação/Facebook

“O que essas experiências têm em comum é o fato de que eu experimentei várias vezes como é escorrer pelas rachaduras da responsabilidade”, afirmou a ex-funcionária no comunicado que acompanhou sua demissão. “Nunca recebi suporte das figuras de autoridade que precisei... em cada caso, eles seguiram seus deveres, mas falharam em espírito, e paguei o preço por suas decisões”.

Embora a decisão do Facebook de retirar as redes do presidente de Honduras do ar tenha animado Zhang, que viu benefícios na mudança de políticas da empresa, ela afirma que o progresso sempre era limitado. A responsabilidade sobre isso seria da liderança da empresa, que não dedicava recursos ao problema e não fornecia ferramentas que garantiam que as redes falsas não voltassem para o ar rapidamente. “Parecia cada vez mais que eu estava tentando esvaziar o oceano com um escorredor de macarrão”, afirmou.

Trabalho secreto

A ex-funcionária afirma que tudo mudou em janeiro de 2020, quando seu chefe a orientou a deixar de lado o que estava fazendo para se focar em seu trabalho original — caso ela não fizesse isso, seu emprego estava em risco. Mesmo diante da ameaça e sem uma equipe, a funcionária continuou trabalhando para derrubar as páginas em segredo.

Conforme sua saúde piorava, Zhang decidiu que era hora de sair do Facebook, mas preferiu esperar até o fim das eleições presidenciais de 2020 nos Estados Unidos para fazer isso. Em agosto do mesmo ano, ela foi demitida por exibir uma performance abaixo do esperado em seu trabalho — em seu último dia de trabalho, o memorando que se tornou famoso foi publicado nos espaços de comunicação internos da empresa e em seu blog pessoal.

Horas depois, ela foi contatada pelo departamento de Recursos Humanos da rede social com um pedido para que ela retirasse o documento de seu site pessoal. Zhang tentou negociar, dizendo que faria isso caso o Facebook restaurasse a versão original em seus sistemas. No próximo dia, o serviço de hospedagem usado por ela tirou sua página do ar após uma reclamação aberta pela corporação.

Assumindo a responsabilidade

A ex-funcionária negou um pacote de rescisão de contrato de US$ 64 mil (R$ 336 mil), por ele vir acompanhado da necessidade de assinar um documento que a proibia de divulgar detalhes sobre sua experiência na empresa. Pouco depois, ela relatou sua vivência em artigos publicados no The Guardian, mas sente que o impacto geral provocado pelas revelações foi abaixo do esperado.

Ferramentas criadas pelo Facebook para as eleições presidenciais de 2020. Imagem: Divulgação/Facebook

Para Zhang, o objetivo de convencer o Facebook da importância de seu trabalho não foi realizado. A rede social nega, afirmando que os esforços para derrubar páginas falsas continua. Ao Technology Review, a ex-funcionária disputa essa versão, afirmando que a rede de páginas falsas do Azerbaijão continua no ar. “É claro que eles não foram bem-sucedidos”, afirmou.

No entanto, ela não se arrepende de suas decisões, afirmando que alguém tinha que “tomar a responsabilidade e fazer o máximo para proteger as pessoas”. Apesar de não ter conseguido gerar a mobilização que esperava, Zhang diz que as consequências que precisa enfrentar atualmente são pequenas, especialmente quando comparado a jornalistas que foram mortos para investigar e revelar corrupções e manipulações governamentais — algo que o Facebook parece continuar ajudar a preservar em certo nível.

Facebook não vai se manifestar sobre o caso

O Canaltech entrou em contato com a assessoria nacional do Facebook, que nos respondeu o seguinte: "Sobre este caso, no momento, o Facebook não tem nenhuma informação adicional a compartilhar".

Fonte: Technology Review

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