Sistema de reconhecimento facial do Facebook é melhor que o do FBI

Por Felipe Demartini | 09 de Julho de 2014 às 13h40

O setor privado, mais uma vez, está à frente do governo. No que pode ser uma perspectiva inusitada e, ao mesmo tempo, perigosa, uma reportagem do site The Verge aponta que o sistema de reconhecimento facial anunciado no início do mês pelo Facebook promete ser melhor que o NGI, plataforma semelhante que vem sendo testada pelo FBI e promete ser implementada nos próximos meses para auxiliar no combate ao crime.

O problema é que o sistema “oficial”, que será utilizado pelas agências de segurança para encontrar suspeitos desde crimes comuns até terrorismo, não é lá muito certeiro. Diante de uma imagem, o NGI (sigla para Next Generation Identification) apresenta uma lista de nomes possíveis, e existe uma chance de 87% que o responsável pelo crime realmente esteja na relação apresentada.

Enquanto isso, o sistema DeepFace, do Facebook, apresenta uma taxa de sucesso de 97%, que de acordo com a rede social, é semelhante à de uma pessoa comum. Mais do que isso, a rede é capaz de apontar os usuários do sistema para o perfil e, nesse sentido, apresentar uma série de outras informações sobre o identificado.

Existem, porém, diferenças essenciais nos métodos usados pelas organizações para testar seus sistemas, bem como sua utilização final deve ser bem variada. Enquanto a plataforma de Mark Zuckerberg trabalha com a comparação de duas ou mais imagens, localizando a mesma pessoa em várias delas, o FBI deve utilizar imagens de câmeras de segurança, normalmente de baixa qualidade, para localizar suspeitos.

Vale a pena levar em conta também o tamanho dos bancos de dados disponíveis. Enquanto o do Facebook contém apenas seus usuários e, no caso de uma foto, pode analisar a proximidade entre o fotografado e o pesquisador, a plataforma das autoridades americanas analisa uma lista infindável de nomes, que contém todos os cidadãos americanos. É muita coisa.

Ainda assim, é difícil negar que uma tecnologia está claramente mais avançada que a outra. E o problema, segundo aponta a reportagem, está justamente no método que está sendo utilizado pelo FBI no desenvolvimento de seu sistema, levando em conta apenas aspectos faciais sem considerar outros elementos como altura, localização ou traços gerais, por exemplo.

Reconhecer faces é uma tarefa bem mais complexa do que se imagina, e nem de longe tão simples quanto o que é mostrado num filme, por exemplo. Por isso, utilizar elementos externos é bastante importante na hora de apresentar resultados melhores. A intenção original do FBI é combater o crime e identificar suspeitos, então, a agência não vai exatamente trabalhar com fotos claras, bem tiradas e posicionadas. Assim, a eficácia do sistema proposto está em cheque, enquanto os gastos envolvidos em seu desenvolvimento só aumentam.

A ideia do FBI, de acordo com especialista, é de que os rostos funcionam como impressões digitais. Assim como a mente humana consegue diferenciar uma pessoa de outra, um computador também seria capaz de fazer isso. A organização desconsidera a existência de traços semelhantes entre duas pessoas, bem como trejeitos e outros atributos, que são considerados de forma implícita por nós. O mesmo não vale para uma máquina, e ninguém precisa explicar que a diferença entre o raciocínio de um indivíduo e de um sistema automatizado é bastante diferente.

Ajuda oficial

E é aí que está um gargalo encontrado pelos defensores da privacidade. O Facebook já se encontra em uma batalha legal, no estado de Nova York, em relação ao uso de informações da rede social em investigações policiais. Caso a empresa perca na justiça, tribunais de outros estados e países poderiam ver aí um precedente legal para uso de dados desse tipo, entregues de livre e espontânea vontade, em esforços como o de reconhecimento facial.

E aí sim se vê um progresso, não no sentido das liberdades individuais, mas da tecnologia. De forma a compensar as imagens de baixa qualidade e em ângulos esquisitos produzidas por câmeras de segurança, as autoridades teriam acesso a uma extensa biblioteca de fotos das mais diferentes formas, que mostrariam os suspeitos claramente e poderiam dar mais subsídio ao processo automatizado de identificação.

Bastaria uma autorização judicial para que tudo isso acontecesse. E quem tem acompanhado os recentes casos de espionagem governamental sabe que nem mesmo isso pode ser necessário, já que a NSA tem agido – e provavelmente continua atuando – de forma ostensiva e irregular em nome da “segurança nacional”.

Além disso, os engenheiros de software do governo poderiam utilizar a engenharia reversa para analisar a solução apresentada pelo Facebook e criar sua própria, mais aprimorada. Aqui, mais uma vez, um procedimento legal seria necessário para que o FBI, ou qualquer outra agência, tivesse acesso à tecnologia. E esse é um desenvolvimento judicial que também parece totalmente possível.

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