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O que o MCU tem a ver com a HQ mais odiada da Marvel?

Por| 25 de Outubro de 2023 às 14h06

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A Marvel Comics está prestes a dar a largada para uma nova versão do Universo Ultimate, uma Terra alternativa em que vemos versões mais extremas, às vezes realistas, e muito inusitadas de ícones da Casa das Ideias. Desta vez, ela está situada na Terra-6160, enquanto a anterior estava na Terra-1610 — lembrando que a da continuidade principal é a da Terra-616.

E, embora a fuga do Criador, o Reed Richards maligno da Terra-1610, tenha sido para lá de interessante, ainda há muito o que saber sobre a nova formação dos Supremos (os Vingadores do Universo Ultimate); e também sobre o Homem de Ferro dessa realidade, que nasceu já bastante atrelado a uma das variantes do Kang.

Antes de começarmos o novo Universo Ultimate, vale lembrar como acabou o anterior, até porque a saga que decretou isso, Ultimatum, é, até hoje, considerada a saga da Marvel mais odiada pelos fãs e pela crítica.

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Universo Ultimate original?

Para dizer exatamente o que é a saga Ultimatum, é necessário entender como chegamos até ela. Bem, no começo dos anos 2000, a Marvel Comics estava em processo de recuperação de pedido de falência, reconstruindo algumas franquias enquanto procurava uma maneira de atrair novos leitores, com um ponto de entrada mais fácil — sem que os leitores precisassem entender décadas de continuidade.

Nessa época, o executivo Ike Perlmutter (já falamos bastante sobre ele, e citaremos novamente ao longo dessa matéria) comprou parte dos ativos da Marvel Entertainment, e posicionou Bill Jemas como vice-presidente da Marvel Comics em 2000. Nessa época, o artista Joe Quesada assumiu como editor-chefe.

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Enquanto Quesada recuperava os Vingadores como franquia número um da Marvel, Jemas, então, teve a ideia de criar o Universo Ultimate, que foi moldado, basicamente, por dois escritores: Brian Michael Bendis, responsável pelo Homem-Aranha Ultimate; e Mark Millar, que criou os Supremos (os Vingadores Ultimate), os X-Men Ultimate e o Quarteto Fantástico Ultimate.

Inicialmente, as vendas de todos esses títulos marcaram o sucesso absoluto da nova linha. Homem-Aranha Ultimate se deu tão bem que até mesmo foi o título de onde veio Miles Morales; e Supremos influenciaram os próprios Vingadores da continuidade principal e se tornaram referências para a criação da equipe na Marvel Studios, no final da mesma década.

Mas, então, o que deu errado?

Do que se trata Ultimatum?

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Nessa época, a Marvel Comics passou a viver uma polarização interna entre os criadores, por conta da intervenção de Ike Perlmutter, por meio de Bill Jemas. Ike tinha um posicionamento inflexível com algumas questões sobre diversidade e representatividade, que escalaram ao longo do tempo, devido a rusgas com a Fox Films, então detentora dos direitos de adaptação dos X-Men e do Quarteto Fantástico.

É importante citar isso para compreender as diferentes linhas que os títulos da linha Ultimate seguiram. Enquanto Bendis atualizava e reconstruía vários dos conceitos básicos do Homem-Aranha para uma nova geração, as revistas de Millar eram muito mais cínicas e violentas, baseadas na desconstrução dos super-heróis.

Inicialmente, isso até deu certo. Mas depois que Jemas e Millar deixaram a Marvel, os títulos dos Supremos, dos X-Men Ultimate e do Quarteto Fantástico Ultimate começaram a “navegar sem rumo”, seguindo uma linha até sombria e violenta demais. Enquanto isso, Bendis ainda continuava a se dedicar a um Miles Morales, que já tinha substituído Peter Parker, de forma mais ensolarada.

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Com isso, Homem-Aranha Ultimate continuava vendendo bem, enquanto os outros títulos caíram muito. A decisão da diretoria foi, então, acabar com esse universo alternativo, que, na visão dos executivos, até mesmo começava a canibalizar as próprias revistas dos mesmos personagens na continuidade principal.

Foi aí que Ike escalou Jeph Loeb para essa missão, já que o roteirista e produtor, que tinha participado de Heroes e Lost na TV, vinha cuidando de algumas propriedades da Marvel Entertainment nas telinhas. Assim, o veterano consagrado em HQs como Demolidor: Amarelo, Superman: As Quatro Estações e Batman: O Longo Dia das Bruxas, ficou responsável pela saga que decretava o fim do Universo Ultimate.

Por que Ultimatum é tão ruim?

A trama, lançada em 2009, é simples, e esse não é o problema; mas sim as motivações, as escolhas preguiçosas e o desenvolvimento desnecessariamente ultraviolento, que não fizeram sentido algum. A história começa quando ambos os filhos de Magneto, Mercúrio e Feiticeira Escarlate, morrem em um ataque de Ultron, que, nos bastidores, vinha sendo manipulado pelo Doutor Destino. O Mestre do Magnetismo passar a nutrir um ódio ainda maior da humanidade.

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Magneto manipula os pólos magnéticos da Terra e causa catástrofes climáticas em todo o planeta, matando milhares de pessoas, inclusive heróis e vilões. Depois de Doutor Destino admitir para Reed Richards que vinha manipulando Erik Lensherr, ambos conseguem resgatar Nick Fury de outra dimensão, somente para ele revelar que os mutantes no Universo Ultimate não são um passo adiante da evolução humana, e sim um erro na recriação do Soro do Supersoldado do Capitão América.

Aí começa o show de gore desnecessário: Magneto desiste de lutar e Ciclope arranca sua cabeça com uma rajada óptica, o Coisa esmaga o crânio do Doutor Destino, Scott Summers é assassinado por um Mercúrio ainda vivo, o Blob come as entranhas da Vespa; Hank Pym, na forma gigante, mastiga o torso do Blob, enquanto o Dentes-de-Sabre canibaliza o Anjo e o Doutor Estranho morre roxo e esturricado nas mãos de Dormammu. Tudo isso sem propósito de narrativa, com a qualidade dos desenhos bem abaixo da média que David Fincher costumava apresentar.

A coisa toda termina por aí, mas já dá para notar que nada faz muito sentido ou vai para algum lugar que preste; e nada traz uma mensagem principal ou subtextos que fazem parte da tradição da Marvel, tudo leva a um nada gratuito e depressivo. As coisas só foram “corrigidas” de verdade com as Guerras Secretas de 2015, que deram uma despedida digna ao Universo Ultimate, na colisão entre as Terras-616 e 1610.

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O que o MCU tem a ver com isso?

Fica mais fácil de compreender quando você leva em consideração tudo o que foi contextualizado nos bastidores. Desde a saída de Mark Millar e Bill Jemas da linha, Brian Bendis ficou cuidado do Homem-Aranha Ultimate, mas os outros títulos ficaram “à deriva”. Depois de 2008, quando Kevin Feige passou a aumentar a polarização interna, dessa vez batendo de frente com Ike, as coisas esquentaram ainda mais.

Como Feige tinha boa comunicação com os criadores e já vinha acenando com a criação do Universo Cinematográfico Marvel (MCU, na sigla em inglês), Quesada e outros “arquitetos” (com a Casa das Ideias chama seus roteiristas-pilares do período) criavam uma estrada para as Guerras Secretas de 2015 que serviria como uma luva para os planos transmídia da Marvel Studios, ainda em seus primeiros dias.

Assim, o Universo Ultimate era visto como uma “criação de Ike”, na verdade, pois quem tinha dado início a isso foi Jemas, justamente quem a pessoa nomeada para ser vice-presidente da Marvel Entertainment — a mesma a qual Ike era presidente. E a Marvel Entertainment também cuidava de todo o merchandising e adaptações para outras mídias.

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Como era Loeb quem estava cuidando das séries ligadas aos X-Men na Fox (como Legion e Gifted), ele também foi o escolhido para encerrar o Universo Ultimate. Não há uma confirmação oficial se a determinação veio direto de Ike, mas há pistas nos bastidores indicando que todo mundo na Marvel Comics meio que “deixou de lado” essa frente, justamente para que isso acontecesse.

Para completar, Loeb vinha de alguns anos irregulares como escritor e produtor, e sofreu uma trágica perda pessoal, que, possivelmente, pode ter abalado seu trabalho como roteirista. O resultado foi a história depressiva de Ultimatum, até hoje considerada a saga mais odiada por todos na Marvel.

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E, apenas para registro do que aconteceu depois: assim que a Disney comprou a Fox e promoveu Kevin Feige a CEO da Marvel Entertainment, todas os “tentáculos” que Ike ainda tinha nas séries de TV, adaptação para filmes e na própria Marvel Comics foram, aos poucos, sendo decepados pela nova direção. Então, pode-se dizer que Ultimatum também foi o fim da “Era Ike” dentro da Casa das Ideias.