Ficção x realidade | O que Akira tem em comum com o momento em que vivemos?

Por Claudio Yuge | 29 de Julho de 2020 às 19h00
Katsuhiro Otomo

A cena abre e vemos uma perseguição de motos em meio às ruas iluminadas por luzes de neon na Neo-Tóquio, uma versão ciberpunk reconstruída sobre as ruínas da antiga metrópole. Em seguida vemos Shotaro Kaneda usando sua icônica jaqueta vermelha. Essa é uma das sequências de Akira, um dos mangás/animes mais influentes e conhecidos de todos os tempos. A obra de Katsuhiro Otomo, publicada originalmente entre 1982 e 1990, não somente conta com lindos traços e narrativa hipnotizante, como também reflete sobre vários temas, como o impacto de uma guerra nuclear em 1988 que deixou o planeta devastado em 2018 — quando a aventura acontece. E essa história tem muito mais a ver com o momento de pandemia do novo coronavírus (SARS-CoV-2) do que aparentemente lembramos.

Em Akira, logo depois que Kaneda e seus aliados são presos, o amigo de infância, Tetsuo, é levado a um suposto hospital por agentes governamentais misteriosos. Em uma placa na frente em um canteiro de obras, a trama mostra que há bastante preocupação em relação aos Jogos Olímpicos de 2020, que, a exemplo da vida real, estava programada para 2020. E, assim como vemos atualmente, a promoção do evento convoca os cidadãos a “fazer disso um sucesso com o apoio de todos” — a publicidade tem logo abaixo um grafite dizendo “apenas cancele”.

Esses dois trechos acontecem em meio a uma tensão crescente entre os ricos e os pobres, em uma clara amostra de que a divisão de renda é muito desigual. No noticiário de Akira, vemos o aumento de gangues de motociclistas e duelos recorrentes entre grupos estudantis e policiais. A divulgação desses eventos é confusa, pois os próprios jornalistas não sabem direito qual lado estaria certo ou não. Os protestos oscilam entre manifestações pacíficas e encontros extremamente violentos.

Basta olhar para as notícias do mundo real nos últimos meses para encontrarmos vários elementos que conectam nosso cotidiano com o de Akira. Nos quadrinhos de Katsuhiro Otomo, a bronca é sobre as reformas tributárias, uma sugestão de que as três décadas de guerra foram apenas boa para os milionários de Neo-Tóquio. Já a “nossa briga” marcha contra o racismo sistêmico e a violência policial em 2020, além do quanto os mais abastados têm lucrado bilhões de doláres em um cenário em que a camada mais frágil da população sucumbe com a crise econômica gerada pela COVID-19.

Vidas x dinheiro

A realização dos Jogos Olímpicos na Neo-Tóquio de Akira tem um interessante ponto de contato com nossa realidade. Fica claro na trama que o evento se tornou para governos e autoridades uma forma de mascarar a realidade, para que todos voltem a um “novo normal”. “Vamos parar de protestar, vamos nos unir para apoiar algo totalmente normal como as Olimpíadas, e também vamos reabrir a economia!" — essa frase não é do anime, e sim do mundo real, do Japão atual.

A falta de leis ou medidas para ajudar os comerciantes e a reabertura precoce de estabelecimentos em meio a uma pandemia que coleciona milhares de mortos diariamente parecem refletir o cenário de caos das páginas de Akira. A destruição de uma rede varejista em Mineápolis, nos Estados Unidos, durante protestos do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), mostram como a opinião pública da realidade se parece com a dos quadrinhos: a queda de tijolos, de uma propriedade, do dinheiro, tornou-se mais importante do que as vidas de pessoas que perderam a batalha contra o racismo ou a COVID-19.

Anúncio dos Jogos Olímpicos de Neo-Tóquio (Reprodução/Katsuhiro Otomo)

O estádio olímpico de Akira é uma representação dessa ideia. A obra foi construída sobre uma instalação secreta contendo os restos mortais do personagem que dá nome ao título, um garoto que sofreu experimentos militares japoneses nos anos 80 e desenvolveu habilidades psíquicas — a real causa da explosão da velha Tóquio. Esses testes humanos continuaram com Tetsuo, que perde sua estabilidade mental e física. O local onde os jogos aconteceriam nas revistas literalmente encobria o próprio mal que destruiu a cidade.

Um final diferente

Em Akira, Tetsuo perde o controle de seus poderes e se expande na forma de uma repugnante bolha de carne. A guerra civil se torna cada vez mais violenta, especialmente com a chegada de estranhas facções formadas por extremistas religiosos. Os militares usam armas de alta tecnologia para tentar destruir Tetsuo — um plano que sai pela culatra. Milhões de pessoas morrem, a cidade é quase totalmente destruída novamente. A única coisa que consegue parar a ameaça é o lembrete de sua amizade com Kaneda: uma solução humana para um problema que vinha sendo “resolvido” com violência e ganância.

Reprodução/Katsuhiro Otomo

Na nossa realidade, não temos nenhum adolescente psíquico capaz de desencadear um evento de extinção. Entretanto, a lição que podemos tirar de Akira é que um dos caminhos para superar a destruição é lidar com as injustiças sociais. A troca de vidas por dinheiro, o racismo estrutural e a ausência de políticas que diminuam o impacto econômico durante uma crise global não são novidades, não nasceram com a pandemia do novo coronavírus. 

Mas a COVID-19 deixou evidente um cenário que antes era mais facilmente ignorado por todos. Trouxe de forma incômoda uma lembrança diária de que todos precisamos mudar e enfrentarmos os perigos reais, em vez de jogá-los para debaixo do tapete. A esperança é de que o presente mostrado nas páginas de Akira não seja reproduzido com tanta verossimilhança — e que, no final, tenhamos um final bem diferente em nossas vidas quando a epidemia passar.

Fonte: AV Club

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