Batman RIP: a história mais bizarra e lisérgica do Cavaleiro das Trevas

Batman RIP: a história mais bizarra e lisérgica do Cavaleiro das Trevas

Por Claudio Yuge | 22 de Maio de 2022 às 11h30
DC Comics

Quem conhece o escritor britânico Grant Morrison, sabe que suas tramas costumam sair do lugar-comum, sejam por conta do estilo da narrativa, de perspectivas incomuns em estudos de personagens, de propostas que vão além das próprias limitações da linguagem dos quadrinhos ou devido à própria pegada diferentona nos enredos. E um de seus arcos na revista mensal do Homem-Morcego teve quase tudo isso: Batman RIP é, até hoje, uma das mais macabras fases do Cavaleiro das Trevas.

Só para contextualizar, Morrison assumiu o título mensal Batman em 2006, quando também foi designado pela direção da DC Comics para reformular o Multiverso com as 52 Terras da editora na época. E o cantinho do Cavaleiro das Trevas foi todo revisado pelo autor, que é meticuloso e costuma fazer uma enorme pesquisa ao assumir personagens famosos.

O resultado foi uma fase com histórias provocativas, que brincavam com o passado e o próprio conceito do Batman. Sua série de suspense psicológico evocou os principais momentos de toda a trajetória de Bruce Wayne, incluindo algumas passagens obscuras e coadjuvantes esquecidos, que acabaram ganhando força em uma narrativa bastante densa e complexa.

Até hoje tem muita gente encucada com o que aconteceu em Batman RIP (Imagem: Reprodução/DC Comics)

Batman RIP acontece depois que o filho de Bruce Wayne, Damian Wayne, assume como Robin; e pouco antes da saga Crise Final, em que Bruce é dado como morto. Em Crise Final, vemos Bruce se sacrificando na luta contra Darkseid, enquanto em Batman RIP vemos tudo o que cerca o herói, incluindo sua própria mente, sendo destruído — ambas as tramas faziam parte de um reboot do Cavaleiro das Trevas, já que a linha editorial do Homem-Morcego estava prestes a iniciar um novo capítulo na DC Comics.

O arco foi lançado em seis partes, com desenhos de Tony Daniel, entre as edições 676 e 681 de Batman. Veja abaixo um resumo de uma das mais enigmáticas e insanas histórias do Homem-Morcego.

O caminho para Batman RIP

Em 2006, após a saga Crise Infinita, um Batman impostor atirou na cabeça do Coringa, que, mesmo ferido mortalmente, sobreviveu ao incidente. Contudo, sua sanidade ficou ainda mais abalada, levando o Palhaço do Crime a se tornar ainda mais violento. Enquanto isso, Bruce Wayne tinha que lidar com a descoberta de que Damian, seu filho com Talia al Ghul, havia sido treinado pela Liga dos Assassinos para se tornar um guerreiro tão formidável quanto o pai, mesmo ainda muito jovem.

Vale destacar aqui que Damian somente havia sido citado anteriormente na edição especial Batman — O Filho do Demônio, em uma trama lançada em 1987 e que, até então, era considerada de uma realidade alternativa. Assim, com a introdução do menino no título mensal de Batman em 2006, Morrison trouxe o personagem para a continuidade oficial da DC Comics.

A cafona e divertida Corporação Batman (Imagem: Reprodução/DC Comics)

Durante as edições dessa época, Morrison trouxe de volta vários elementos e personagens que fizeram parte de décadas de publicação da revista mensal Batman. Muitos deles se reuniram na Corporação Batman, uma espécie de superequipe com versões “localizadas” do Homem-Morcego de diferentes partes do mundo.

Pois bem, esse grupo cafona é atacado por outra equipe sombria de supervilões chamada de Luva Negra, sob o comando de um tal de Doutor Simon Hurt. O médico, que teria conduzido um experimento com Batman no início de sua carreira no combate ao crime, mais tarde afirma ser Thomas Wayne, seu próprio pai — o que não era verdade.

E as coisas ficam ainda mais esquisitas, acompanhe.

O que aconteceu em Batman RIP?

A Luva Negra ataca toda a BatFamília, incluindo a nova namorada de Bruce Wayne, Jezebel Jet, que é sequestrada. Damian Wayne quase morre, Asa Noturna é lobotomizado e, em meio a tudo isso, os vilões invadem a BatCaverna e injetam poderosos alucinógenos em Bruce, que só não morre de insanidade pelas ruas de Gotham City porque o herói usa uma “persona backup”, chamada de Batman Zur-En-Arrh. Essa versão de sua personalidade foi preparada pelo próprio Homem-Morcego para o caso de um dia ele se desligasse de sua mente — calma que fica mais bizarro.

Vale destacar que a presença de Zur-En-Arrh é uma brincadeira de Morrison com a própria mitologia do Batman, pois esse personagem apareceu em Batman #113, de 1958. Ele era um alienígena do planeta Zur-En-Arrh que, ao observar o herói da Terra por meio de um potente telescópio, virou seu fã e decidiu imitar o Homem-Morcego, combatendo o crime com uma versão brega do uniforme do Cavaleiro das Trevas — tudo isso com o Batman Mirim (ou Bat-Mite) “conversando” com Wayne em suas viagens lisérgicas.

O estranho Batman de Zur-En-Arrh ao lado do Bat-Mite (Imagem: Reprodução/DC Comics)

Pois bem, o Batman de Zur-En-Arrh é uma versão muito mais doida e violenta do Homem-Morcego, que, aos trancos e barrancos, consegue sobreviver e chegar até o Coringa e Jezebel Jet. Bruce é traído por Jezebel, que recita a misteriosa frase Zur-En-Arrh e faz com que o herói desmaie. Ficamos sabendo, então, que essas palavras são gatilhos mentais inseridos há anos pelo Dr. Hurt, justamente para que Bruce ficasse incapacitado ao ouvi-las. Em seguida, o Coringa entrega Batman à Luva Negra.

Dr. Hurt revela que há anos conhece a família Wayne e nutre um ódio pessoal profundo por Bruce. Ele chega a sugerir que, na verdade, Alfred seria o pai de Bruce, pois o casal Wayne, de tanto se afundar em festinhas hedonistas com álcool e drogas, teria perdido o controle e a noção de quem seria a pessoa com quem Martha se relacionou para conceber Bruce — como dá para notar, essa é realmente uma das histórias mais bizarras e macabras do Batman.

Batman RIP chega a chamar os pais de Bruce de adúlteros e drogados (Imagem: Reprodução/DC Comics)

Para completar o Dr. Hurt enterra Bruce vivo, com o objetivo de deixá-lo à beira da morte, o suficiente para que seu cérebro parasse de receber oxigênio e ele vivesse eternamente como um vegetal. Eis que a Corporação Batman aparece, assim como a BatFamília, e Batman consegue escapar. No final, Bruce some com o Dr. Hurt na queda de um helicóptero.

O que aconteceu depois de Batman RIP

Assim que Batman desaparece, Asa Noturna reclama para si o traje do Batman e se torna o novo Cavaleiro das Trevas de Gotham City, ao lado do Robin Damian Wayne — o que rendeu uma dinâmica bastante diferente e interessante à tradicional dupla, já que Dick Grayson nunca se dava muito bem com o temperamental Menino Prodígio da vez.

Posteriormente, foi revelado que Bruce sobreviveu ao acidente de helicóptero, contudo, os eventos da saga Crise Final o deixaram tão ocupado que não houve tempo para a BatFamília saber disso — na verdade, vamos colocar esse desencontro na conta de problemas editoriais da agenda de lançamentos da DC.

O Batman Dick Grayson tinha uma interação, digamos, peculiar, com o Robin Damian Wayne
(Imagem: Reprodução/DC Comics)

Em Crise Final, Bruce acaba sendo levado ao passado, após se atingido pelos Raios Ômega de Darkseid. Em sua ausência, a DC aproveita para mostrar, mais uma vez, como o Batman faz falta em Gotham City e na Liga da Justiça. Claro que ele voltou algum tempo depois.

E, assim, a DC também aproveitou para atualizar o personagem, bem como seus coadjuvantes e vilões, antes da chegada da saga Ponto de Ignição e dos Novos 52, que mudaram a editora durante algumas temporadas durante o início dos anos 2010. E, bem, até hoje tem gente que não entendeu direito ou tem calafrios de lembrar de Batman RIP.

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