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Alan Moore explica por que odeia o termo “graphic novel”

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DC Comics
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Alan Moore é tão famoso por suas declarações polêmicas e fortes convicções quanto obras seminais, a exemplo de Watchmen, V de Vingança, Do Inferno, Liga Extraordinária, apenas para ficarmos em alguns exemplos. Se você buscar por algumas coleções com estas exatas HQs, provavelmente as encontrará na seção de “graphic novels”, justamente em uma classificação que o escritor britânico odeia.

Em uma entrevista ao Film4 Frightfest 2014, Moore falou sobre quadrinhos e o termo “graphic novel”, observando que considera o termo impróprio e enganoso, pois, em sua concepção, induz intencionalmente o público consumidor a pensar que está obtendo algo diferente do que na realidade é.

Moore explicou seu desprezo pela noção de que os quadrinhos “cresceram”, algo frequentemente atribuído ao próprio escritor. Ele contesta essa percepção geral da indústria: “Não cresceram. Havia cerca de três ou quatro quadrinhos decentes [na época em que os quadrinhos ‘cresceram’, no final dos anos 1980]. E o resto ainda era o mesmo lixo juvenil produzido nos últimos quarenta ou cinquenta anos”, devolveu, com seu tradicional “bom humor”.

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Ao falar sobre o termo “graphic novel", Moore diz que é uma tentativa coordenada da indústria de quadrinhos de reformular a marca para um público mais adulto. Como uma grande geração de fãs de HQs passaram a se afastar dos gibis, a partir dos anos 1980, essa classificação, de acordo com o autor, “concedeu uma licença para muitas pessoas não precisarem realmente crescer.”

“[Graphic novels ou romances gráficos] era um termo que eu odiava porque não são particularmente gráficos; e certamente não são romances. Geralmente são doze edições de Mulher-Hulk grampeadas”, detona o autor.

Moore tem razão?

Há muito tempo o mercado sabe que Moore tem fortes opiniões contra o conceito de super-herói, a quem ele chama de “fetiches fascistas da burguesia”; e, embora seus argumentos sejam bastante razoáveis, em muitos casos ele também mistura alguns preconceitos e seu próprio desdém para gênero e a indústria que ele preferiu dar as costas.

Contudo, dá para entender realmente a postura do autor frente ao termo “graphic novel”. As publicações ou histórias que reúnem texto e arte em romances elaborados mudaram bastante desde as obras do suíco Rodolphe Töpffer, passando pela coleção de adaptações Classics Ilustrated nos anos 1940, até chegarmos aos quadrinhos de luxo com formato diferenciado e alvo adulto como Surfista Prateado e Um Contrato com Deus, de de Stan Lee e Jack Kirby e Will Eisner, respectivamente.

Nos anos 1990, em especial, o termo graphic novel foi banalizado pelas redes de livrarias que passaram a comercializar os quadrinhos antes encontrados somente em bancas e lojas especializadas. Assim, qualquer coleção que compilasse histórias em um volume repleto de páginas com capa e formato diferenciados passaram a se chamar “graphic novel”, mesmo quando eram apenas os chamados “trade paperbacks”.

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Essa compilações de histórias em quadrinhos só voltaram a ser chamadas de coleções e as graphic novels retornaram para o nicho de romances gráficos, com uma preocupação estética mais sofisticada e público adulto, a partir de 2010, quando o mercado amadureceu.

A internet e a educação da própria seara das HQs ajudaram nesse sentido, embora ainda vejamos bastante uma confusão entre os termos — ou seria mesmo uma forma de o mercado continuar nos dizendo "não precisa crescer", como Moore sempre nos alertou?

Então, até dá para entender que Moore, que deixou os quadrinhos de lado há bastante tempo, sequer saiba que essa moda passageira de chamar tudo de “graphic novel” se foi há anos. Ainda assim, nunca é demais guardar algumas palavras malucas do bruxo para mantermos parte de nossa sanidade em dia.