COVID-19 | A crise do setor aéreo em meio à pandemia do novo coronavírus

Por Felipe Ribeiro | 25 de Março de 2020 às 19h30
Azul

Apesar das preocupações com a saúde das pessoas ao redor do mundo, a crise causada pela pandemia do novo coronavírus afeta, e muito, a economia global, causando estragos não apenas em grandes empresas, mas também na vida das pessoas, que se veem em meio a um caos sem precedentes na história moderna - e sem previsão de normalidade.

Um dos setores mais afetados pela crise do novo coronavírus é o setor aéreo, que compreende não apenas as companhias aéreas, mas também uma série de outros serviços, como agências de turismo, empresas de alimentação e catering, comissariado e, claro, as próprias fabricantes das aeronaves, que terão todas as encomendas suspensas até que o mercado volte a ter alguma liquidez e naturalidade. E, como bem sabemos, avião no chão é prejuízo.

Algumas autoridades e consultorias têm se posicionado acerca deste tema. A CAPA Centre for Aviation, por exemplo, prevê que, no atual ritmo, o setor aéreo sofrerá um colapso até maio, com muitas companhias e empresas satélites falindo. “Até o final de maio de 2020, a maioria das companhias aéreas do mundo estará falida. É necessária uma ação coordenada do governo e da indústria para evitar uma catástrofe”, disse a consultoria, em comunicado enviado na semana passada.

Já segundo estimativa da IATA (Associação Internacional de Transporte Aéreo, em tradução livre), as companhias aéreas podem perder até US$ 113 bilhões (R$ 523 bilhões) em receita este ano devido ao impacto do vírus.

Diante deste cenário, os governos pelo mundo têm tomado medidas emergenciais, com pacotes de estímulo e, até, a possibilidade de estatização de algumas companhias, algo que, por enquanto, pode aliviar as empresas, mas que, a médio prazo, podem significar, sim, o colapso desse mercado.

E no Brasil?

Aqui no Brasil, o cenário não é muito diferente, porém, as opiniões e soluções divergem. O presidente do conselho de administração e cofundador da Azul, David Neeleman, adotou um tom mais positivo - levando em conta, claro, a saúde financeira da empresa. Em entrevista à CNN Brasil, Neeleman afirma:

Temos de preservar nosso caixa e nosso CEO (John Rodgerson) está fazendo um trabalho gigante para alcançar esse objetivo. A crise vai passar para nós. Nas atuais circunstâncias conseguiríamos seguir por muito tempo. Temos muito caixa e muitos sócios que estão ajudando.

Apesar do tom de Neeleman, os investidores ainda estão temerosos com o futuro da companhia. Somente no último mês, a empresa perdeu 82% do seu valor de mercado, chegando aos R$ 3,7 bilhões. As concorrentes LATAM e GOL, seguem no mesmo ritmo; as ações da primeira registram queda acumulada no ano de 47% e da GOL 65%.

Para tentar amenizar a crise, as companhias brasileiras estão garantindo reembolsos para alguns de seus voos que seriam direcionados aos países mais afetados pelo novo coronavírus, como Espanha e Itália. Mas, claro, isso não será suficiente. Por isso, na semana passada, o Governo Federal lançou um pacote de ajuda para o setor aéreo.

Foram três as iniciativas do governo editadas por meio de Medida Provisória (MP) e Decreto que afetam companhias, aeroportos e passageiros: postergação do recolhimento das tarifas de navegação aérea, adiamento do pagamento das outorgas aeroportuárias sem cobrança de multas e prorrogação das obrigações de reembolso das empresas aéreas. Os anúncios foram feitos pelo Ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas.

Por mais que esse pacote tenha sido anunciado, não está clara como será a ajuda a outros segmentos que estão embutidos dentro do setor aéreo e se as companhias terão contrapartidas para empresas que também fazem parte do ciclo, que, segundo informações, emprega mais de 70 mil pessoas. Em entrevista ao Canaltech, o comandante Francisco Lyra, presidente do Instituto Brasileiro de Aviação afirmou:

O pacote tem que incluir toda a cadeia do setor de transporte aéreo. Pensamos rapidamente apenas nas companhias aéreas e aeroportos, mas temos que incluir, também, as empresas de serviços auxiliares, que são aquelas terceirizadas que prestam serviços às companhias. Assim como as empresas de comissaria de bordo e de catering, que também estão sem faturamento e com o ônus de responder por folhas de pagamentos e manutenção de suas atividades. O pacote precisa ser inclusivo.

Em relação às tarifas de navegação aérea, o decreto vai definir que os vencimentos de março, abril, maio e junho de 2020 ficam postergados para, respectivamente, setembro, outubro, novembro e dezembro do referido ano. Já a MP versa sobre reembolso de passagens aéreas para solicitações efetuadas até o dia 31 de dezembro de 2020. O prazo para reembolso será de 12 meses. Já os consumidores ficarão isentos das penalidades contratuais, mediante a aceitação de crédito para utilização futura.

 Tarcísio Gomes de Freitas, Ministro da Infraestrutura/ Imagem: Agência Brasil

Também por Medida Provisória, será alterado o cronograma de pagamento previsto para o ano de 2020 das contribuições fixas e variáveis nos contratos de parceria no setor aeroportuário, com a possibilidade de quitação até o dia 18 de dezembro deste ano. Além das medidas, o governo também já disponibiliza linhas de financiamento de capital de giro para essas empresas a serem concedidas pelo Banco do Brasil, Caixa e BNDES.

A recuperação será longa

Para o comandante Lyra, a recuperação do setor aéreo será longa e a ajuda do Governo Federal não pode ser momentânea, pois enquanto a economia não voltar à normalidade, as empresas ainda estarão frágeis e o controle de gastos será fundamental.

"Vai ser uma longa recuperação. Até as atividades voltarem, por um bom tempo as empresas estarão com seus orçamentos contingenciados, pois as viagens executivas (aviação geral) e de turismo ainda demorarão um bom tempo até voltar para os níveis anteriores. Por isso, essa ajuda não pode ser momentânea, e sim, algo mais perene", comentou Lyra.

Já David Neeleman usa do exemplo da Azul para mostrar como o mercado pode se adaptar e reagir. Ele disse que há a revisão de investimentos na empresa e que está conversando com os empregados sobre a redução de carga horária de trabalho e salários, para evitar demissões. Até que haja uma normalidade, a empresa optou por reduzir sua capacidade de 20% a 25% em março e entre 35% e 50% em abril e nos meses posteriores.

Na visão da CAPA Centre for Aviation, por exemplo, as empresas precisarão colaborar mais. De acordo com a entidade, se houver vontade, as atitudes por parte das empresas deve ser pensada de modo global, e não regional.

O governo federal ainda anunciará mais medidas econômicas, mas não se sabe se o setor aéreo terá mais alguma contemplação. Por enquanto, voos internacionais de países bem afetados pela COVID-19 seguem suspensos e a circulação doméstica de passageiros também caiu drasticamente. O estado de São Paulo, centro econômico do país e epicentro do novo coronavírus por aqui, está em quarentena pelos próximos 14 dias e novas medidas devem ser adotadas após este prazo.

Fonte: ANAC, CNN Brasil, CAPA for aviation

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