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COVID-19 | A crise do setor aéreo em meio à pandemia do novo coronavírus

Por| 25 de Março de 2020 às 19h30

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Apesar das preocupações com a saúde das pessoas ao redor do mundo, a crise causada pela pandemia do novo coronavírus afeta, e muito, a economia global, causando estragos não apenas em grandes empresas, mas também na vida das pessoas, que se veem em meio a um caos sem precedentes na história moderna - e sem previsão de normalidade.

Um dos setores mais afetados pela crise do novo coronavírus é o setor aéreo, que compreende não apenas as companhias aéreas, mas também uma série de outros serviços, como agências de turismo, empresas de alimentação e catering, comissariado e, claro, as próprias fabricantes das aeronaves, que terão todas as encomendas suspensas até que o mercado volte a ter alguma liquidez e naturalidade. E, como bem sabemos, avião no chão é prejuízo.

Algumas autoridades e consultorias têm se posicionado acerca deste tema. A CAPA Centre for Aviation, por exemplo, prevê que, no atual ritmo, o setor aéreo sofrerá um colapso até maio, com muitas companhias e empresas satélites falindo. “Até o final de maio de 2020, a maioria das companhias aéreas do mundo estará falida. É necessária uma ação coordenada do governo e da indústria para evitar uma catástrofe”, disse a consultoria, em comunicado enviado na semana passada.

Já segundo estimativa da IATA (Associação Internacional de Transporte Aéreo, em tradução livre), as companhias aéreas podem perder até US$ 113 bilhões (R$ 523 bilhões) em receita este ano devido ao impacto do vírus.

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Diante deste cenário, os governos pelo mundo têm tomado medidas emergenciais, com pacotes de estímulo e, até, a possibilidade de estatização de algumas companhias, algo que, por enquanto, pode aliviar as empresas, mas que, a médio prazo, podem significar, sim, o colapso desse mercado.

E no Brasil?

Aqui no Brasil, o cenário não é muito diferente, porém, as opiniões e soluções divergem. O presidente do conselho de administração e cofundador da Azul, David Neeleman, adotou um tom mais positivo - levando em conta, claro, a saúde financeira da empresa. Em entrevista à CNN Brasil, Neeleman afirma:

Temos de preservar nosso caixa e nosso CEO (John Rodgerson) está fazendo um trabalho gigante para alcançar esse objetivo. A crise vai passar para nós. Nas atuais circunstâncias conseguiríamos seguir por muito tempo. Temos muito caixa e muitos sócios que estão ajudando.

Apesar do tom de Neeleman, os investidores ainda estão temerosos com o futuro da companhia. Somente no último mês, a empresa perdeu 82% do seu valor de mercado, chegando aos R$ 3,7 bilhões. As concorrentes LATAM e GOL, seguem no mesmo ritmo; as ações da primeira registram queda acumulada no ano de 47% e da GOL 65%.

Para tentar amenizar a crise, as companhias brasileiras estão garantindo reembolsos para alguns de seus voos que seriam direcionados aos países mais afetados pelo novo coronavírus, como Espanha e Itália. Mas, claro, isso não será suficiente. Por isso, na semana passada, o Governo Federal lançou um pacote de ajuda para o setor aéreo.

Foram três as iniciativas do governo editadas por meio de Medida Provisória (MP) e Decreto que afetam companhias, aeroportos e passageiros: postergação do recolhimento das tarifas de navegação aérea, adiamento do pagamento das outorgas aeroportuárias sem cobrança de multas e prorrogação das obrigações de reembolso das empresas aéreas. Os anúncios foram feitos pelo Ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas.

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Por mais que esse pacote tenha sido anunciado, não está clara como será a ajuda a outros segmentos que estão embutidos dentro do setor aéreo e se as companhias terão contrapartidas para empresas que também fazem parte do ciclo, que, segundo informações, emprega mais de 70 mil pessoas. Em entrevista ao Canaltech, o comandante Francisco Lyra, presidente do Instituto Brasileiro de Aviação afirmou:

O pacote tem que incluir toda a cadeia do setor de transporte aéreo. Pensamos rapidamente apenas nas companhias aéreas e aeroportos, mas temos que incluir, também, as empresas de serviços auxiliares, que são aquelas terceirizadas que prestam serviços às companhias. Assim como as empresas de comissaria de bordo e de catering, que também estão sem faturamento e com o ônus de responder por folhas de pagamentos e manutenção de suas atividades. O pacote precisa ser inclusivo.

Em relação às tarifas de navegação aérea, o decreto vai definir que os vencimentos de março, abril, maio e junho de 2020 ficam postergados para, respectivamente, setembro, outubro, novembro e dezembro do referido ano. Já a MP versa sobre reembolso de passagens aéreas para solicitações efetuadas até o dia 31 de dezembro de 2020. O prazo para reembolso será de 12 meses. Já os consumidores ficarão isentos das penalidades contratuais, mediante a aceitação de crédito para utilização futura.

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Também por Medida Provisória, será alterado o cronograma de pagamento previsto para o ano de 2020 das contribuições fixas e variáveis nos contratos de parceria no setor aeroportuário, com a possibilidade de quitação até o dia 18 de dezembro deste ano. Além das medidas, o governo também já disponibiliza linhas de financiamento de capital de giro para essas empresas a serem concedidas pelo Banco do Brasil, Caixa e BNDES.

A recuperação será longa

Para o comandante Lyra, a recuperação do setor aéreo será longa e a ajuda do Governo Federal não pode ser momentânea, pois enquanto a economia não voltar à normalidade, as empresas ainda estarão frágeis e o controle de gastos será fundamental.

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"Vai ser uma longa recuperação. Até as atividades voltarem, por um bom tempo as empresas estarão com seus orçamentos contingenciados, pois as viagens executivas (aviação geral) e de turismo ainda demorarão um bom tempo até voltar para os níveis anteriores. Por isso, essa ajuda não pode ser momentânea, e sim, algo mais perene", comentou Lyra.

Já David Neeleman usa do exemplo da Azul para mostrar como o mercado pode se adaptar e reagir. Ele disse que há a revisão de investimentos na empresa e que está conversando com os empregados sobre a redução de carga horária de trabalho e salários, para evitar demissões. Até que haja uma normalidade, a empresa optou por reduzir sua capacidade de 20% a 25% em março e entre 35% e 50% em abril e nos meses posteriores.

Na visão da CAPA Centre for Aviation, por exemplo, as empresas precisarão colaborar mais. De acordo com a entidade, se houver vontade, as atitudes por parte das empresas deve ser pensada de modo global, e não regional.

O governo federal ainda anunciará mais medidas econômicas, mas não se sabe se o setor aéreo terá mais alguma contemplação. Por enquanto, voos internacionais de países bem afetados pela COVID-19 seguem suspensos e a circulação doméstica de passageiros também caiu drasticamente. O estado de São Paulo, centro econômico do país e epicentro do novo coronavírus por aqui, está em quarentena pelos próximos 14 dias e novas medidas devem ser adotadas após este prazo.

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Fonte: ANAC, CNN Brasil, CAPA for aviation