A música eletrônica, desde os primórdios até hoje em dia - Parte 4

Por Patrícia Gnipper | 31 de Agosto de 2016 às 23h00

E chega ao fim este especial que conta a história da música eletrônica, desde os primórdios, até hoje em dia. Na primeira parte, abordamos os primórdios da criação de sons eletrônicos, passando pelos primeiros e principais gêneros deste estilo. O "boom" dos anos 1990 foi retratado na segunda parte do especial, enquanto a terceira trouxe mais informações sobre o período mais recente dessa história.

Essa quarta e última parte foi dedicada exclusivamente à música eletrônica no Brasil: quando e como ela chegou por aqui, as cenas noturnas que abraçaram a e-music, os principais artistas que se destacaram produzindo música eletrônica tupiniquim e, por fim, a música eletrônica popular brasileira tendo como principais representantes o funk carioca e o tecnobrega.

E o Brasil nisso tudo?

Falamos bastante sobre a história e o status da música eletrônica ao redor do mundo, mas e o Brasil, como fica? Engana-se quem pensa quem por aqui é só samba, bossa nova e MPB: a e-music tem presença garantida desde que ela surgiu, praticamente.

Um nome não exatamente famoso, mas extremamente relevante para a chegada da música eletrônica por aqui foi Carlos Machado, o DJ Nazz – um vendedor de discos que comprava LPs “na gringa” e revendia por aqui tirando algum lucro. E foi ele quem começou a trazer os “bolachões” de música eletrônica lá nos anos 1970. Em suas sacolas foram trazidos milhares de discos de vinil de estilos variados ao Brasil – desde a black music, passando pela disco music e chegando à música eletrônica. Machado tornou-se o revendedor oficial dos principais DJs brasileiros e também das maiores casas noturnas do país, mesmo que nunca tivesse aberto uma loja física. E como ele sabia exatamente o que faria sucesso por aqui? A resposta é: feeling. Também DJ, Machado devorava revistas de música eletrônica internacionais, como a Cash Box e a Billboard Dance Music Report. Assim, ficava sabendo dos últimos lançamentos e também podia acompanhar o que estava “pegando” na Europa e nos Estados Unidos para trazer à sua terra natal em primeira-mão.

Carlos Machado DJ

Carlos Machado, ou DJ Nazz, garimpando discos de vinil para trazer ao Brasil (Reprodução: Music Non Stop)

Graças ao trabalho de Machado, somado às rádios alternativas, às coletâneas em vinil e fitas cassete e aos nightclubs, a cena eletrônica brasileira foi tomando forma. Nos anos 1990, a cultura clubber tomou conta da noite paulistana e, à medida que a e-music saía do underground e passava a tocar nas casas mais, digamos, “normais” ao longo daquela década, artistas como DJ Marky e DJ Patife, que tocavam drum'n'bass, conquistaram seu lugar ao sol, fazendo sucesso internacional e mostrando que no Brasil há muitos talentos que produzem sons além do sambinha tradicional.

Atualmente, os brasileiros que estão se dando bem na e-music internacional estão pegando carona na onda da EDM. Nomes como Felguk, Renato Ratier, Mau Mau, Renato Cohen e Gui Boratto já se tornaram familiares no exterior, tocando com frequência pra multidões de até 200 mil pessoas. Cohen, inclusive, chegou a ser listado pelo jornal britânico The Financial Times como um dos 25 brasileiros mais influentes do mundo, ao lado de Neymar e Gisele Bündchen. E produções feitas por esses e outros brasileiros também fazem sucesso pelas mãos de outros DJs, como Hardwell, por exemplo, que é um dos mais celebrados do mundo atual e que constantemente dá o “play” em sucessos brasileiros para suas multidões.

O Brasil vem sendo apontado por críticos estrangeiros como a nova “meca” da música eletrônica, de acordo com a revista Forbes, enquanto a The Economist chegou a publicar que, somente em 2015, mais de 27 milhões de pessoas participaram de eventos ligados à música eletrônica no nosso país. Por isso, quando os DJs celebridades vêm ao Brasil, eles não se contentam em apenas fazer o seu trabalho e curtir uma praia: esses artistas estão, cada vez mais, consumindo o estilo brasileiro, incorporando músicas criadas por DJs e produtores locais e criando batidas inspiradas no que temos oferecido por aqui. Um exemplo disso é o produtor norteamericano Diplo (um dos grandes nomes da cena eletrônica atual), que é fã declarado do funk carioca, enquanto o britânico Fatboy Slim é frequentemente visto em camarotes no Carnaval.

Música (eletrônica) popular brasileira

E por falar em funk carioca, esse estilo controverso é, sem dúvida, um grandessíssemo exemplar da música eletrôncia popular brasileira. E sua origem tem um “dedo” do Machado, aquele DJ e revendedor de discos que forneceu material para os principais DJs e casas noturnas do Brasil entre as décadas de 1970 e 1990. Quando Machado descobriu o single “808 Volt Mix”, do DJ Battery Brain, lançado pela Techno Hop Records em 1988, ele simplesmente soube que o hit faria sucesso na terra brasilis. E como ele era o único a possuir esse disco, quem quisesse ouvir e dançar essa música precisaria ir a seu baile, que organizava no Rio de Janeiro. A inspiração do funk carioca no electro e no miami bass é inegável, mas antes disso os primeiros produtores de funk carioca já haviam usado loops de “Planet Rock”, do Afrika Bambaataa, e depois do gênero popular de e-music na capital fluminense começar a tomar forma, samplers de músicas de outros estilos também renderam funks de sucesso.

É o caso de “Cerol na Mão”, do Bonde do Tigrão, lançada no ano 2000, que começa praticamente igual à música “Headhunter”, do grupo de EBM (Electronic Body Music) Front 242. Somente quando começa a batida típica do funk carioca que o ouvinte sabe que está escutando a obra nacional, e não a música do grupo belga que é o maior expoente da variante dançante da música industrial dos anos 1980.

Estilo musical oriundo das favelas do Rio de Janeiro, o funk carioca é bastante diferente do funk dos Estados Unidos. O fenômeno brasileiro plantou as primeiras sementinhas na década de 1970, quando começaram a ser realizados bailes black, soul e funk no estado. Aos poucos, os DJs buscaram outros ritmos de música negra para agregar ao novo estilo que ali surgia, juntamente com influências diretas do miami bass e do freestyle. Com o surgimento da disco music, os bailes funk setentistas perderam um tanto de sua popularidade, mas nessa época um adolescente virou fã de um programa de rádio chamado “Cidade Disco Club”, que tocava os ritmos cariocas e, anos mais tarde, esse garoto se tornou o DJ Marlboro – responsável pela explosão do funk carioca como o conhecemos hoje em dia.

Mas, voltando aos anos 1980, os bailes funk do Rio de Janeiro começaram a mesclar cada vez mais o miami bass a suas batidas. Nessa mesma época começaram a surgir também os bailes charme, que tocavam canções românticas fazendo um contraste com o funk, que se tornava cada vez mais sexual e menos político. Quem não se lembra do “Rap da Diferença”, sucesso de 1994 de Markinhos e Dollores, em que o refrão pegajoso questionava: “qual a diferença entre o charme e o funk? um anda bonito; o outro elegante”.

Entre o final da década de 1980 e o começo dos anos 1990, as rádios locais passaram a dar espaço em sua grade para produções de funk carioca, e a partir daí o estilo atingiu a população e conquistou seu lugar ao sol. O próximo passou foi conquistar o território nacional, quando os bailes – até então exclusivos dos morros cariocas – começaram a ser realizados a céu aberto em outros locais da cidade, partindo para outros estados. Foi nessa época que o DJ Marlboro se tornou famoso, protagonista do novíssimo movimento funk. O produtor foi o responsável pelo lançamento de diversos artistas por meio de coletâneas como o “Funk Brasil 1989”, abrindo espaço para, anos mais tarde, o surgimento do fenômeno “Furacão 2000”.

Com a nacionalização do funk, ao mesmo tempo em que o ritmo ficava cada vez mais popular, os ataques relacionados a preconceitos também aumentavam. Um dos motivos pelo estilo ser visto com maus olhos é seu conteúdo sexual bastante explícito, tido como vulgar e censurável por muitos, mas certamente a violência comumente presenciada nos bailes frequentados por gangues colaborou para com a má imagem do funk carioca no restante do Brasil, que ficou estigmatizado como “música de bandido”. Na tentativa de mudar essa imagem, produtores e DJs passaram a focar suas criações em temas variados, como diversão, luta social e consciência negra. E, nessa época, DJ Marlboro produziu o sucesso “Som de Preto”, de Amilcka e Chocolate, que gritava aos sete ventos que o funk carioca “é som de preto, de favelado, mas quando toca ninguém fica parado”.

A partir daí surgiu uma nova vertente chamada funk melody, que nada mais é do que o ritmo do funk carioca com músicas mais melódicas e temas mais amenos. E foi graças ao funk melody que o estilo caiu nas graças do “povão” brasileiro. Talvez o nome mais representativo dessa vertente do funk carioca seja Latino, cujo sucesso “Me Leva” tocou em praticamente todas as rádios nos anos 1990, abrindo caminho para a dupla Claudinho & Buchecha e outros que se tornaram referência nessa fase áurea do gênero de e-music brasileira popular.

Nos anos 2000, o funk carioca abraçou o “proibidão”, cujos temas normalmente eram vinculados ao tráfigo de drogas e a atividades sexuais explícitas. Nessa época, mesmo com letras e apresentações pra lá de controversas, o estilo chegou a movimentar cerca de 10 milhões de reais somente no estado do Rio de Janeiro, entre os anos de 2007 e 2008. E o tamanho sucesso inspirou artistas de outros estilos musicais, como a banda gaúcha de rock DeFalla, que experimentou o funk carioca com o hit “Popozuda Rock’n’Roll”, lançado pela gravadora Som Livre. Já na década mais recente, o funk carioca abriu espaço para o “passinho” - um tipo de dança criado nos bailes e inspirado em passos de outros estilos musicais, como o jazz, o hip hop e até mesmo o ballet clássico.

Brega sim, e eletrônico também

Outro estilo que é um autêntico representante da música eletrônica popular brasileira é o que ficou conhecido como tecnobrega. Apesar de muitos intelectuais “torcerem o nariz” na hora de reconhecer gêneros como o funk carioca e o tecnobrega como e-music, o gênero que também pode ser chamado de tecnomelody surgiu em Belém, capital do Pará, nos anos 2000. Influenciado pelo brega tradicional, o estilo mescla calypso, forró, bolero, merengue, carimbó, samba e música eletrônica.

Gaby Amarantos, antes do sucesso “Ex Mai Love” que foi trilha de novela, liderou a Banda Tecno Show – o maior precursor do tecnobrega brasileiro. O grupo mesclava riffs acelerados de guitarra da música brega com batidas eletrônicas e arranjos criados por softwares de produção musical, e isso certamente foi uma ruptura no cenário musical paraense da época. Atualmente, o tecnobrega deixou e fazer sucesso somente na região norte do Brasil, ganhando amplitude nacional ao mesmo tempo em que outros estilos eletrônicos genuinamente brasileiros também despontavam nas paradas de sucesso, como o forró eletrônico, por exemplo, representado com maestria por Wesley Safadão

E a EDM mencionada na terceira parte deste especial? O estilo difundido em todo o mundo que faz girar milhares e milhares de dólares não está muito longe dos gêneros eletrônicos populares brasileiros. A proximidade já é tão grande, que nomes como Dennis DJ vêm ganhando destaque nas produções nacionais. Dennis, por exemplo, já foi apontado como sendo o “David Guetta do funk carioca”, de tanto que vem incorporando a EDM em suas criações. Nem um pouco bobo, Dennis DJ se uniu a Wesley Safadão para lançar um EDM tipicamente brasileiro, com direito a um videoclipe digno das sátiras de Hermes e Renato. No entanto, a mensagem que a música passa é de pura diversão - e tudo o que o brasileiro típico gosta é de se divertir.

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