A música eletrônica, desde os primórdios até hoje em dia - Parte 1

Por Patrícia Gnipper | 09 de Agosto de 2016 às 23h05

Por definição, música eletrônica é toda e qualquer música criada ou modificada por meio de equipamentos e instrumentos eletrônicos, como gravadores digitais, computadores, softwares e sintetizadores. E apesar de alguns gêneros da e-music terem feito tanto sucesso a ponto de se tornarem sinônimo de “música eletrônica” – como é o caso do techno, por exemplo –, são inúmeros os diferentes estilos musicais criados utilizando instrumentos eletrônicos, fazendo com que esse tipo de música não reúna uma só “tribo”, já que com tanta variedade é possível agradar a gregos e troianos.

E engana-se quem acredita que a música eletrônica surgiu nas décadas mais recentes da nossa história. Na verdade, a partir dos anos 1970 a e-music teve uma evolução incrivelmente rápida, mas há registros de que o ser humano já criava músicas eletronicamente desde o século retrasado. Muito antes da música eletrônica se tornar o símbolo das baladas e da vida noturna, ela chegou a ser algo rústico e até mesmo erudito, também sendo presente na música popular.

Atualmente, a e-music é um dos pilares mais relevantes da indústria fonográfica e faz a economia girar com a realização de gigantescos festivais musicais em todo o mundo, indo muito além das raves que ficaram caracterizadas na mídia como um reduto de jovens interessados em sexo e drogas. Então neste especial dividido em três partes vamos fazer um apanhado da história da música eletrônica, desde os primórdios até hoje em dia.

Muito antes das raves

O começo da história da música eletrônica vem de décadas e mais décadas (e mais algumas décadas) antes das pessoas sequer imaginarem a possibilidade de curtir músicas com batidas repetitivas em salas escuras repletas de luzes coloridas. Os primórdios desse tipo de música têm conexão até mesmo com Thomas Edison, o renomado inventor estadunidense que, entre diversas criações, inventou o fonógrafo – primeiro aparelho capaz de gravar e reproduzir sons.

fonógrafo de Thomas Edison

O fonógrafo inventado por Thomas Edison em 1877 (Reprodução: Divulgação)

Inventado em 1877, o fonógrafo acabou mudando a relação do homem com a música de maneira sem precedentes. Sua popularização fez surgir a indústria fonográfica e, a partir desse ponto da história, iniciou-se a reprodução e disseminação de incontáveis obras musicais artísticas em todo o mundo - realidade que só está sendo transformada nos tempos atuais com a revolução causada pelo MP3 e, posteriormente, pelos serviços de streaming.

Contudo, historiadores remontam os primeiros passos da música eletrônica moderna a uma época muito mais distante: credita-se ao Denis D'or, também conhecido como “Golden Dionysus” – um instrumento de teclado capaz de imitar os sons de instrumentos de sopros e de cordas – o marco da invenção do primeiro instrumento que permitiu a criação da e-music. Construído pelo teólogo e pioneiro da pesquisa elétrica Václav Prokop Diviš (1698-1765), o instrumento reproduzia sons por meio da vibração de suas cordas, que, por sua vez, vibraram graças à ação de eletro-ímãs. O Denis D’or tinha 5 metros de comprimento, 3 metros de largura e 790 cordas metálicas, e seu mecanismo engenhoso foi criado com exatidão matemática e muita meticulosidade. Para reproduzir sons de diversos instrumentos, Diviš eletrificava temporariamente essas cordas para que, de alguma forma, o aparelho purificasse e melhorasse a qualidade do som emitido. Por isso, o equipamento é considerado o primeiro instrumento musical eletrônico já desenvolvido.

Denis D'or

Ilustração mostrando como era o Denis D'or, criado em meados de 1730 (Reprodução: Divulgação)

Voltando à época do fonógrafo, lá pelo ano de 1897 Thaddeus Cahill inventou um instrumento chamado de dinamofone, ou telarmônio. Essa máquina consistia em um dínamo elétrico capaz de produzir diferentes frequências sonoras, e esses sinais eram comandados por um teclado e um painel de controles, sendo difundidos por uma linha telefônica cujos terminais eram equipados com amplificadores acústicos. Porém, pelo fato de utilizar a rede telefônica em seu funcionamento, quando ativo o instrumento interferia com as ligações que estivessem sendo feitas naquele momento. Ainda assim, o dinamofone era capaz de sintetizar sons com os timbres desejados por meio de sobreposições de parciais harmônicos, e sua tecnologia foi posteriormente útil para o desenvolvimento do órgão Hammond – um órgão eletro-mecânico construído em 1934 e usado tanto em igrejas como uma alternativa mais acessível para o órgão de tubos (que era caríssimo), bem como caindo nas graças dos músicos de jazz e de blues, chegando ao rock e ao reggae nas décadas de 1960 e 1970.

órgão Hammond

Órgão Hammond de 1973 (Reprodução: Divulgação)

Os primeiros passos

A história da música eletrônica como a conhecemos tem seu marco inicial em 1948 com a difusão do Concert de Bruits pela Radiodiffusion-Télévision Française, em que Pierre Schaeffer unia diferentes instrumentos e gravações de toca-discos em uma só música – o que, posteriormente, fez nascer as mixagens sonoras. Schaeffer também manipulava os sons por meio da variação da velocidade de reprodução, ou alterando o sentido de leitura das gravações, e esse recurso ainda é utilizado por DJs até os dias de hoje.

Nessa mesma época (mais precisamente em 1951), a música eletrônica começava a tomar alguma forma também na Alemanha, onde Werner Meyer-Eppler, Herbert Eimert e Robert Beyer se uniram para criar o primeiro estúdio totalmente dedicado à produção de sons eletrônicos. Mas enquanto na França os experimentos musicais eram feitos com objetos sonoros e instrumentos tradicionais, as técnicas dos alemães eram aplicadas a sons gerados por osciladores elétricos.

primeiro estúdio de música eletrônica

O primeiro estúdio de música eletrônica criado por Werner Meyer-Eppler, Herbert Eimert e Robert Beyer (Reprodução: Divulgação)

Depois disso, começaram a “pipocar” grupos desenvolvendo a música eletrônica em várias partes do mundo, como Estados Unidos, Suíça, Japão e Portugal. Essa variedade de mentes pesquisando e trabalhando na construção de instrumentos resultou na criação de um sintetizador controlado por uma fita de papel perfurado – e esse foi o começo da era dos sintetizadores, que se tornaram a base para a criação de músicas eletrônicas.

A revolução do sintetizador pessoal

O primeiro sintetizador pessoal nasceu em 1963 e então começaram a surgir diversos modelos aperfeiçoados desse novíssimo instrumento. Nessa mesma década, foi criado o sequenciador – um acessório dos sintetizadores que mudou a forma de se fazer música nos anos subsequentes. Graças à combinação do sintetizador com o sequenciador, os músicos puderam programar ritmos e frases pré-definidas para serem tocados e gravados sem precisar de execuções manuais adicionais.

sintetizador Buchla

Foto de um modelo do Buchla, o primeiro sintetizador pessoal lançado em 1963 (Reprodução: Divulgação)

Ao final dessa década, a compositora norteamericana Wendy Carlos tornou-se uma das primeiras artistas de música eletrônica a usar sintetizadores, popularizando a e-music com dois álbuns de sucesso que reproduziram peças de J. S. Bach usando um equipamento monofônico, ou seja, que gerava somente uma nota por vez. Para gerar as composições, Wendy sobrepôs as gravações uma a uma em um amplo e talentoso trabalho de estúdio.

A partir daí, os sintetizadores começaram a ficar cada vez mais acessíveis e baratos, e começaram a ser usados para produzir sons em outros estilos musicais. Keith Emerson, do grupo Emerson Lake and Palmer, começou a usar esses equipamentos em turnês, e o teremim também passou a ser usado na música popular juntamente com o sintetizador. Enquanto os Beatles usaram elementos eletrônicos em “Strawberry Fields Forever”, os Beach Boys, por exemplo, usaram o teremim elétrico no disco “Good Vibrations” – e podemos ver o instrumento sendo usado na seguinte apresentação ao vivo do grupo:

E por falar no teremim, ele é um instrumento musical completamente eletrônico que é controlado pelo músico sem nenhum contato físico, como acontece com os demais instrumentos. Inventado e patenteado em 1928, o teremim é controlado através de duas antenas metálicas que recebem a posição das mãos do músico: uma mão controla a oscilação da frequência (pitch), e a outra a amplitude (volume) do som. Para criar sons, basta o músico se posicionar em frente ao teremim e mover suas mãos perto das antenas de metal.

Com a chegada da música psicodélica na década de 1970, o sintetizador foi adotado até mesmo pelas bandas de rock – que, tradicionalmente, se mantinham fiéis ao conjunto baixo, bateria, guitarra e voz. Nessa década os sintetizadores explodiram nas lojas de instrumentos musicais, especialmente após o lançamento do revolucionário Minimoog – sintetizador monofônico analógico criado em 1970 pela Moog Music, sendo produzido em grande escala até 1981. Projetado para ser usado no rock e no pop, o Minimoog era compacto, portátil, e não exigia cabos para conectar os elementos sonoros, como acontecia com os sintetizadores mais antigos.

Minimoog

Esse é o Minimoog, cuja portabilidade permitiu usar o sintetizador em apresentações ao vivo (Reprodução: Divulgação)

Ainda nos anos 1970, o grupo alemão Kraftwerk causou uma nova revolução no que dizia respeito à produção eletrônica de música, ao criar sons eletrônicos como nunca se havia visto antes com músicas cantadas através de um vocoder ou geradas sinteticamente. E é para essa banda que vão os créditos de “primeiro grupo de música eletrônica do mundo”, mesmo que outros conjuntos já viessem trabalhando nesse estilo anteriormente. O Kraftwerk – que está na ativa até hoje – foi o precursor do estilo “música eletrônica” que hoje abrange gêneros e sub-gêneros variados como o synthpop, a dance music, o techno, o house e o electro.

Na segunda parte deste especial retomaremos a produção de e-music do final da década de 1970, passando pelo “boom” ocorrido nos anos 1980 e 1990. Também esmiuçaremos os principais gêneros da música eletrônica, bem como seus sub-gêneros de maior sucesso.