A música eletrônica, desde os primórdios até hoje em dia - Parte 2

Por Patrícia Gnipper | 21.08.2016 às 14:35

Na primeira parte deste especial, fizemos um apanhado sobre a origem da música eletrônica e os primeiros instrumentos usados para produzir ou alterar músicas eletronicamente. Agora, esta segunda parte trará informações sobre os primeiros e também sobre os principais gêneros e sub-gêneros da e-music a partir da década de 1970 até a consolidação da e-music como estilo musical e também como estilo de vida nos anos 1990.

Alguns anos antes…

Mas, alguns anos antes do surgimento dos primeiros gêneros bem definidos na música eletrônica, músicos e produtores já vinham trabalhando com instrumentos eletrônicos para compor trilhas sonoras de desenhos animados, séries e filmes desde os anos 1950. Na verdade, experimentos com elementos musicais eletrônicos já vinham sendo feitos desde o final da década de 1940, e na década seguinte começaram a surgir os primeiros discos de vinil com músicas criadas usando instrumentos eletrônicos.

Pioneiro do gênero, o músico francês Jean-Jacques Perrey decidiu viajar pela Europa demonstrando como funcionava um teclado antecessor ao sintetizador moderno e, aos 30 anos, mudou-se para Nova Iorque onde construiu um estúdio de gravação musical. Ali, inventou “um novo processo para gerar ritmos com sequências e ondas”, e juntamente de seu amigo Robert Moog (inventor do sintetizador Moog), criou o então chamado “entretenimento eletrônico” ao usar esse instrumento. Em 1965, Perrey conheceu o músico Gershon Kingsley, com quem produziu dois álbuns de música eletrônica - e a dupla também produziu a sonorização de mensagens de rádio e televisão. Ao retornar para a França, Perrey continuou compondo músicas (incluindo as eletrônicas) para programas de televisão e também trabalhou em sons terapêuticos para ajudar pacientes de insônia.

Uma curiosidade aqui é que músicas de Perrey foram usadas como parte da trilha sonora de programas de Roberto Gómez Bolaños, o “Chespirito”, que será eternamente conhecido pelos seus personagens de maior relevância - Chaves e Chapolin. Por exemplo, o tema “The Elephant Never Forgets”, que faz parte do álbum “Moog Indigo”, de 1970, foi usado como música de abertura da série “El Chavo del Ocho”, que aqui no Brasil chamamos apenas de “Chaves”.

Além de Perrey, outros músicos, produtores e compositores que também ficaram marcados como pioneiros da produção de música eletrônica nessa época foram Dick Mills, Dick Hyman, Les Baxter, Martin Denny, Desmond Leslie e Stockhausen. E com a evolução do cinema e também dos roteiros de ficção científica, a novidade chamada “música eletrônica”, produzida com sintetizadores pitorescos, caiu como uma luva para compor a trilha sonora de produções desse gênero. Além disso, tornava-se mais prático (e mais moderno) encomendar músicas eletrônicas de um produtor do que contar com a criação de uma banda, ou ainda de uma orquestra, como costumava ser feito até então.

Um exemplo é a trilha sonora do filme “O Planeta Proibido” (“Forbidden Planet”), composta pelo casal Louis e Bebe Barron. O roteiro de ficção científica foi combinado a efeitos especiais excelentes para a época, em um filme que ficou marcado por ter servido de inspiração para que Gene Roddenberry criasse a série “Star Trek” – que permanece um verdadeiro clássico até os dias de hoje. Apesar do filme ter sido lançado nos Estados Unidos em 1956, sua trilha sonora somente foi divulgada em 1976 e, mesmo que a essa altura da história já existissem diversas produções de música eletrônica rolando por aí, a trilha de Forbidden Planet é considerada a primeira trilha de filme comercial produzida totalmente por instrumentos eletrônicos – no caso, usando um teremim.

Os anos 1970

Nesta década, o estilo eletrônico foi revolucionado pelo Kraftwerk, que foi a banda responsável por popularizar a e-music mundialmente. Mas muito além dos precursores de quase todos os gêneros de música eletrônica que surgiram posteriormente, nos anos 1970 a produção eletrônica também foi bastante usada na música popular, no rock, na disco music e no jazz. Alguns pianistas de jazz, como Herbie Hancock, Chick Corea, Joe Zawinul e Jan Hammer, por exemplo, foram os primeiros a usar sintetizadores em gravações de jazz fusion (estilo que consiste na mistura do jazz tradicional com outros gêneros como rock, funk e R&B). Herbie Hancock se deu tão bem na produção de e-music que, em 1983, lançou “Rockit” – música que é uma das mais caracerísticas da década de 1980.

Em “Rockit” vemos alguns elementos também usados no hip hop como o “scratch” de discos, o que não é exatamente uma coincidência, já que a música eletrônica foi essencial para o nascimento do hip hop nos anos 1970. Neste estilo (que vai além do gênero musical, sendo, na verdade, um estilo de vida), o “disc-jockey” (DJ) era um dos seis pilares que sustentavam a cultura de rua.

Surgido nas áreas centrais de comunidades jamaicanas, latinas e afro-americanas de Nova Iorque no início desta década, o hip hop nasceu pelas mãos de Afrika Bambaataa, DJ estadunidense e líder da Zulu Nation que foi o primeiro a utilizar o termo “hip hop” para definir suas produções. A nova cultura rapidamente se expandiu pelos bairros negros e latinos da cidade, e foi um movimento criativo que fez nascer não somente a cultura e a profissão de DJ, como também foi berço para os MCs, grafiteiros e dançarinos de break music. Bambaata, decidido a sair da vida de crimes com as perigosas gangues que dominavam a região do Bronx nessa época, usou diferentes gravações para criar “raps”, experimentando sons que iam desde o funk de James Brown até os sons eletrônicos de Kraftwerk, misturando-os com o vocal falado do DJ jamaicano Kool Herc. “Planet Rock” é, até hoje, um clássico do hip hop e também do electro. Graças ao pioneirismo e criatividade de Bambaata, foram criadas as bases para o surgimento do freestyle e do miami bass, nos anos 1980, que influenciaram diversos gêneros musicais pelo mundo e serviram de inspiração até mesmo para o surgimento do funk carioca na década de 1990.

A música teve (e ainda tem) papel primordial no movimento hip hop. Além dos DJs, dos MCs, das mixagens e do rap, a bateria eletrônica e os sintetizadores se tornaram queridinhos das discotecas e também das festas de rua dos guetos. E certamente a popularização da música eletrônica por meio da cultura de rua foi essencial para que esse novo jeito de fazer música tomasse a proporção que tem hoje, já que rapidamente a e-music saiu da cena hip hop e, a partir daí, ganhou o mundo. Isso significou que a disco music começou a perder terreno com o crescimento dos ritmos dos guetos e, para não fracassar, os produtores da discoteca começaram a usar equipamentos de música eletrônica para produzir novos lançamentos comerciais.

A partir daí, surgiram estilos que serviram como base para a criação de praticamente tudo o que surgiu depois, como o house e o techno music. E, como música eletrônica é algo multicultural, naturalmente as primeiras fusões começaram a acontecer, como pode-se observar em estilos como breakbeat, drum’n’bass e dubstep, que mesclam os primeiros gêneros de música eletrônica com as batidas envolventes do hip hop.

O DJ

Na cultura hip-hop, “disc-jokey”, ou apenas DJ, era o operador de discos que fazia bases e colagens rítmicas sobre as quais se articulam os outros elementos do som. O DJ então foi considerado músico, o que aconteceu após a introdução dos scratches e demais elementos que representam um incremento da composição, e não somente um efeito aplicado nela. Rapidamente, a atividade “DJ” expandiu-se pela cultura musical e é chamado de DJ tanto o locutor de rádio que toca sua seleção escolhida a dedo, quanto o profissional que anima uma festa com mixagens ao vivo, ou ainda aquele que somente reproduz músicas gravadas eletronicamente em estúdio.

DJ de hip hop anos 70

DJs e MCs se reuniam em estacionamentos, terrenos baldios, praças e demais lugares públicos para organizar festas recheadas de música, dança e grafite (Reprodução: Divulgação)

A figura do DJ era uma das mais respeitadas na época do hip-hop, e ainda mantém seu prestígio em um mundo em que a música eletrônica é mundialmente difundida e faz girar milhares de dólares com festas de grande porte, raves e turnês de DJs que se tornaram celebridades.

Os icônicos anos 1980

Entre o finalzinho da década de 1970 e o início dos anos 1980, o mundo ocidental se viu imensamente interessado em inovações tecnológicas e, consequentemente, nos instrumentos de música eletrônica, em especial após o surgimento dos sintetizadores digitais, além dos primeiros samplers. E um dos responsáveis pelo boom da música eletrônica pelo mundo foram os primeiros computadores pessoais no início desta década pra lá de icônica.

A partir dos primeiros PCs, foi possível emular as funcionalidades de instrumentos musicais (como os sintetizadores), e os músicos e DJs acabaram percebendo que os diferentes equipamentos que permitiam a produção de e-music não “conversavam” entre si, devido às diferenças em suas tecnologias. Foi então que surgiu o MIDI, um protocolo de comunicação destinado à comunicação, controle e sincronização de informações de áudio entre dispositivos como teclados, sintetizadores e processadores de som. Introduzido no mercado em 1983, o MIDI acabou virando o padrão para a indústria da informática e é, até hoje, aceito na maioria dos equipamentos de áudio e instrumentos musicais eletrônicos. Graças a essa tecnologia, a música eletrônica pôde subir a um novo e inédito patamar.

A popularização dos meios de produzir músicas eletrônicas fez surgir os estilos que serviram como base para tudo o que curtimos atualmente. Um deles é o synthpop, exemplificado com maestria por bandas como Depeche Mode, Pet Shop Boys, Human League ou New Order desde os anos 1980 até os dias atuais. Esse estilo usava sintetizadores eletrônicos e tendências da então chamada de “dance music”, com influência nítida nos conceitos criados pelo Kraftwerk, mas mesclados a elementos do rock e da new wave. No synthpop, o teclado e o sintetizador são os instrumentos musicais predominantes, e esse é considerado por muitos como sendo a junção máxima da música eletrônica com o rock e o pop. Diferentemente de outros estilos predominantemente eletrônicos (como a dance music, que crescia na mesma época), os compositores de synthpop seguiam o mesmo ritmo e atuação de uma banda de rock ou de pop, e participavam de bandas que contavam com guitarra, baixo e bateria, além de baterias eletrônicas e sintetizadores com sequenciador para linhas de baixo.

A partir do synthpop, surgiram os primeiros artistas que produziam música industrial, como, por exemplo, Cabaret Voltaire, Nine Inch Nails e KMFDM. Quer dizer, o industrial não é necessariamente eletrônico e já vinha sendo produzido desde os anos 1970 como o som experimental de Throbbing Gristle e Einstürzende Neubauten, mas foi somente após a mescla com o eletrônico nos anos 1980 que esse gênero musical tomou forma indo além das cenas underground.

Saindo um pouco da esfera mais obscura ou melancólica da música eletrônica, as vertentes mais dançantes já estavam “pipocando” mundo afora. Após o sucesso da música disco, cujo auge foi atingido entre 1977 e 1979 muito graças ao sucesso de “Os Embalos de Sábado à Noite”, a e-music acabou se ampliando em ramificações como o techno, o house e o trance. Mas foi o desenvolvimento do techno, em Detroit (Estados Unidos), e do house, em Chicago (também nos EUA), além do acid house no Reino Unido, que fez com que o termo “música eletrônica” se tornasse praticamente sinônimo de “raves”, já que foram esses gêneros que levaram a e-music de uma vez por todas para as casas noturnas.

A música eletrônica dançante foi recebida de braços abertos também pela indústria fonográfica, e artistas pop de sucesso passaram a compor em peso usando a música eletrônica a partir desta década, como Cher, Madonna e outras divas pop da época - que se mantêm fiéis à e-music até os dias atuais. Na mesma época, surge também o electro, uma mistura de hip hop com o timbre dos sintetizadores analógicos, e o estilo foi resgatado posteriormente, nos anos 2000, quando competiu frente a frente com os sub-gêneros da house music.

O surgimento das raves

Em meio ao fim da Guerra Fria, à queda do socialismo, o desmantelamento da URSS e à reunificação da Alemanha, surgiu o acid house - movimento contracultural europeu que pregava a amistosidade e a tolerância em contraponto ao pessimismo “dark” que dominou a década de 1980. O ano era 1988 e, nessa “vibe” nova e positiva, o consumo de drogas como o MDMA (que constitui o ecstasy) e o LSD se difundiu na cultura da música eletrônica dançante, cujos usuários se viam envolvidos em um misto de euforia com pacifismo. O acid house também jogou as sementes para o nascimento da estética cyberpunk dos anos 1990, que resultou na estética e na cultura geek dos anos 2000.

Mesmo que o termo “acid house” tenha sido deixado de lado a partir do final da década de 1990, quando os gêneros eletrônicos já vinham resultando em sub-gêneros graças à mistura de diferentes elementos para a criação de novos sons, esse estilo musical foi o grande responsável pela cultura da música eletrônica ficar estigmatizada pelas festas (muitas vezes ilegais) aparentemente intermináveis e, obviamente, recheadas de drogas para que a curtição se estendesse até a exaustão.

Contudo, um elemento extremamente importante para o desenvolvimento da música eletrônica nas décadas mais recentes foram justamente as raves – festas que inicialmente aconteciam em locais afastados dos centros urbanos, ou em galpões e terrenos abandonados, regadas a músicas eletrônicas dançantes que dificilmente terminavam antes de completarem 12 horas de duração. Fomentadas inicialmente no Reino Unido e na Alemanha, as raves rapidamente se expandiram para todo o mundo e se tornaram eventos onde DJs e artistas diversos (plásticos, visuais e performáticos) apresentavam seus trabalhos ao público jovem e contestador. Depois da acid house, outros estilos de música eletrônica que também se tornaram os queridinhos das raves foram o house, o electro, a trance e o techno, e sub-gêneros como minimal, psy trance e drum’n’bass,

Além das raves “open air”, realizadas em locais abertos e normalmente em contato com a natureza, também se tornaram abundantes das festas “indoor”, realizadas em clubes fechados onde somente convidados VIP podiam entrar. Enquanto nas festinhas indoor as músicas preferidas ficavam nas vertentes do house (como o tech house, progressive house, deep house e electro house), nas open air os estilos mais populares eram as vertentes do trance (como psy trance, progressive trance e full on).

A dance music e os sucessos comerciais dos anos 1990

Estilo que ganhou muita força nos anos 1990, a dance music (conhecida como eurodance na Europa) ficou conhecida no Brasil como “poperô” graças ao imenso sucesso de “Pump Up The Jam”, do Technotronic, que foi lançado em 1989 e em 1990 já era sucesso internacional.

Na dance music predominavam os sintetizadores com vocais femininos épicos dignos das divas da disco music, muitas vezes mesclados a elementos do rap e do hip hop com letras sobre superação, aceitação e diversão. Derivada do italo disco (gênero de e-music da década anterior que era, basicamente, um dance italiano), a dance music era um tanto mais acelerada e fez muito sucesso no Brasil, país que até hoje recebe artistas da dance music nos têm como um reduto saudosista garantido. E um dos grandes sucessos da dance music de 1993, “Rhythm Of The Night”, foi cantado por Corona – brasileira cujo nome verdadeiro é Olga Maria de Souza.

Além de Technotronic e Corona, outros ícones da dance music que explodiram nas paradas de sucesso foram Double You, DJ Bobo, Snap! Ace of Base, Haddaway, Culture Beat e Alexia, mas nada disso teria sido possível se não fosse o trabalho pioneiro de Giorgio Moroder, que produziu o single “I Feel Love”, de Donna Summer, de 1977. É isso mesmo, não erramos a data: a dance music foi bastante inspirada nos hits setentistas da disco music que já mandavam ver em elementos eletrônicos. Moroder, inclusive, é uma das figuras mais importantes para a evolução da música eletrônica desde a década de 1970 até os dias atuais.

Na terceira e última parte deste especial que conta a história da música eletrônica desde os primórdios, até hoje em dia, abordaremos o status da e-music no cenário atual desde os anos 2000 até então, tendo a EDM como estilo mais difundido do momento. E também falaremos sobre a música eletrônica no Brasil e o quanto esse tipo de som influenciou as produções tupiniquins.