Aposta no social: como o PicPay quer vencer a guerra dos superapps

Aposta no social: como o PicPay quer vencer a guerra dos superapps

Por Rui Maciel | 22 de Julho de 2021 às 16h15
PicPay / Rogério Cassimiro

Não dá para dizer que o mercado de superapps no Brasil é algo consolidado, principalmente, se nos compararmos à China. Lá, os representantes do gênero como WeChat (da Tencent) e o Alipay (da Alibaba) fazem parte da vida da população local de uma forma muito mais profunda, reunindo não apenas funções de comunicação, compras e pagamentos, mas também fazendo o papel de documento de identidade de um cidadão, dando acesso a serviços públicos e muito mais. Ambas as plataformas REALMENTE transformaram o smartphone no ponto central da vida de boa parte dos chineses.

Mas, claro, cada país tem suas particularidades, legislações e hábitos de uso de tecnologia. Por isso, o setor de superapps se desenvolve de formas diferentes de região para região. E no Brasil, ao invés de gigantes da Tecnologia, são os prestadores de serviços, varejistas e fintechs estão explorando esse nicho com mais força.

Entre os mais famosos, estão o superapp do Magazine Luiza, cujo ecossistema cresce a cada dia, incluindo não apenas produtos comercializados em suas lojas físicas e site, mas também serviços como entregas de compras, livros, itens de beleza, moda e até cursos online, entre outros.

Quer ficar por dentro das melhores notícias de tecnologia do dia? Acesse e se inscreva no nosso novo canal no youtube, o Canaltech News. Todos os dias um resumo das principais notícias do mundo tech para você!

O Rappi segue esse mesmo caminho, mas é mais focado em serviços, como delivery de refeições e compras de mercado, farmácia e até mesmo saques em dinheiro e pacotes de viagem, entre outras facilidades. E na mesma toada está o Banco Inter, mas com o diferencial de trazer ainda serviços bancários e até mesmo seguro de vida.

E junto a eles, também está o PicPay - a mais popular carteira digital do Brasil, com mais de 50 milhões de usuários cadastrados. Desde o começo do ano, a fintech começa a mostrar as suas armas para entrar no promissor nicho dos aplicativos "1001 utilidades". E com uma estratégia mais semelhante aos bem sucedidos superapps chineses. O que pode ser um diferencial nessa disputa.

Foco no social

Olhando mais uma vez para os superapps chineses, é possível ver que eles contam com quatro verticais essenciais de funcionalidades: oferta de produtos e serviços, infraestrutura de pagamentos (que possibilita as compras), publicidade e social (redes sociais e mensageiros). Nesse último quesito, os superapps brasileiros não são exatamente bem desenvolvidos.

Verticais no app do PicPay: superapp da fintech usa os modelos chineses como referência (Imagem: PicPay /Divulgação)


No WeChat, por exemplo, o social tem o mesmo nível de prioridade dos mini-apps de e-commerces ali integrados ou as soluções de pagamento. Com isso, o usuário consegue realizar compras compartilhadas com seus amigos, receber promoções personalizadas das lojas ou resolver problemas em SACs de estabelecimentos. Tudo sem precisar mudar de interface. E é nesse quesito que o Pic Pay quer ter o seu diferencial em relação à concorrência.

Um dos primeiros recursos do superapp da fintech nesse sentido é o direct message, mensageiro que integra todos os contatos do usuário dentro PicPay e permite uma comunicação constante dentro da plataforma. Lançado em março deste ano, a ideia da funcionalidade é permitir que seja possível, por exemplo, combinar um jantar, pagando e dividindo o valor no próprio chat, usando o saldo da sua carteira digital, via Pix ou cartão de crédito.

O PicPay afirma que o direct message dá o formato de uma conversa, simples e organizada às transações feitas no aplicativo. Além de interagir com amigos por mensagem privada, o usuário poderá acompanhar compras, solicitar uma troca ou devolução na própria conversa.

Direct Message: PicPay investe fortemente no social dentro seu superapp (Imagem: PicPay /Divulgação)


A fintech diz ainda que o chat também beneficia empresas parceiras, que oferecem produtos e serviços na plataforma. Utilizando a inteligência de dados para desenvolver um modelo próprio, o aplicativo vai permitir que os usuários encontrem com mais facilidade o que precisam e fará ofertas de forma mais assertiva, elevando a taxa de conversão.

A própria empresa afirma que o desenvolvimento dessas funcionalidades vai de encontro ao seu DNA de social, materializando relações que já existem no dia a dia. O feed, por exemplo, presente desde o lançamento do aplicativo, é utilizado por 95% dos usuários. Ainda segundo a companhia, a integração entre serviços financeiros e sociais cria um efeito de rede capaz de potencializar todas as frentes do negócio. Isso acontece à medida que os usuários socialmente ativos têm uma retenção mais alta. Entre 2019 e 2020, eles revelaram uma chance 2,4 vezes maior de continuar usando o PicPay e movimentaram 53% mais do que os outros.

Em entrevista para o Canaltech, Diogo Carneiro, CTO do PicPay, afirmou que os investimentos em social no aplicativo da fintech continuarão e novos recursos chegarão muito em breve:

"Vemos o social como a grande 'cola' que alavanca os negócios dentro do superapp, a cereja do bolo do nosso produto. E o processo de construção de novas funcionalidades nesse sentido envolve muita conversa, bechmarking e experimentação", declarou Carneiro. "Com isso, em breve, lançaremos recursos que já são sucesso, por exemplo, na China, como live shopping (também conhecido como live e-commerce: compras por meio de programas ao vivo transmitidos via internet), crowdfunding (financiamento coletivo) e outras práticas de social commerce".

Marketplace

Se o PicPay aposta no Social como diferencial e já conta com uma infraestrutura robusta para pagamentos (via carteira digital e outros meios), é no setor de produtos e serviços de consumo que a fintech fica atrás de seus concorrentes, principalmente o superapp do Magalu (o que é natural, dado o DNA de cada empresa). A plataforma tem parceria com a rede varejista Via (antiga Via Varejo) e o usuário tem acesso a produtos de lojas como Casas Bahia, Extra e Ponto (antigo Ponto Frio). Há ainda a presença de lojas de diversos segmentos como eletrônicos (Positivo, Vaio, Compaq, Multilaser e Webfones), pets, itens automotivos e para o lar, entre outros.

No entanto, a navegação por essas mini-lojas dentro do markeplace ainda é limitada, com um número de produtos mais restrito. Ou seja, caso o usuário queira algum item que não esteja na vitrine, ele não consegue buscar por ele dentro do próprio app, tendo de sair do PicPay para isso. Essa integração maior com o banco de dados dos parceiros é algo que ainda precisa ser implementado.

Marketplace do PicPay: aposta no social pode aumentar conversão de compra de produtos e serviços (Captura de imagem: Rui Maciel)


E para além de produtos, o superapp do PicPay oferece créditos para diversos serviços que funcionam bem em ambientes onde o social é privilegiado. Na plataforma, o usuário poderá comprar créditos para o Netflix, iFood, Uber, e-commerces como Centauro, Netshoes e Evino e ainda a compra de códigos e assinatura em serviços online de games (Steal, Lol, Playstation Plus e Xbox Game Pass) e música (Deezer e Spotify).

Mas, ainda para esse ano, Carneiro disse que o PicPay vai ampliar seus serviços de transações financeiras e expandir a operação como marketplace, criando uma plataforma aberta em que parceiros poderão customizar ainda mais a oferta de produtos e serviços a milhões de consumidores. "Essa possibilidade conecta empresas aos usuários de forma simples e escalável, facilitando tanto a vida de quem oferta quanto a de quem compra", declarou.

Reforço na parceria com a AWS

Carneiro disse também que o PicPay, para suportar o crescimento da plataforma como um superapp, reforçou sua parceria com a Amazon Web Services (AWS), divisão de serviços de cloud computing da Amazon. A fintech vem investindo em tecnologias na nuvem e em análise de dados para atender suas necessidades e expandir seus negócios no Brasil.

A fintech já tem toda a sua infraestrutura hospedada na AWS e agora vem investindo em um approach data-driven (direcionado a dados) para conseguir análises mais profundas sobre seus clientes e melhorar a tomada de decisão. A plataforma de dados da companhia roda na AWS usando soluções de analytics para gerar insights e prever ações baseados nos padrões de uso de cada cliente.

"Isso permite que várias áreas da PicPay tenham acesso a informações e liberdade para tomarem decisões estratégicas, como criar campanhas de engajamento, avaliar o esforço dedicado a certas tarefas e quais produtos precisam ser observados de perto”, explica Carneiro. "Durante as transmissões ao vivo do Big Brother Brasil, que promoveu a plataforma, o PicPay recebia até 50 vezes mais acessos do que o normal. Nesses momentos, era necessária alta escalabilidade para garantir que o app continue rodando e garantindo uma boa experiência para milhões de usuários".

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.