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Jorro de lava com dobro da área do Pará congelou a Terra há 717 milhões de anos

Por| Editado por Luciana Zaramela | 28 de Julho de 2023 às 10h16

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Ása Steinarsdóttir/Unsplash
Ása Steinarsdóttir/Unsplash

Geólogos estão estudando super erupções vulcânicas antigas que podem ter causado a “Terra Bola de Neve”, grande evento de glaciação que deixou o planeta gelado há 717 milhões de anos atrás. Uma erupção em específico, que está entre as maiores que já ocorreram, provavelmente causou uma série de reações químicas que sugaram gás carbônico (CO2) da atmosfera primitiva da Terra, iniciando uma reação em cadeia que possibilitou o resfriamento global.

Os enormes jorros de lava ocorreram onde hoje é o norte do Canadá, jogando cascatas que se solidificaram e se tornaram terras altas vulcânicas com 2,23 milhões de quilômetros quadrados (km²), quase duas vezes o tamanho do estado do Pará. Chuva ácida teria, então, caído sobre as rochas recém-formadas, criando uma reação química que teria envolvido o planeta em gelo por 57 milhões de anos.

Atividade vulcânica e glaciação

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A teoria de que erupções vulcânicas teriam causado a glaciação global já permeava a ciência, mas não havia certeza de como o evento teria ocorrido. O episódio é conhecido como Glaciação Sturtiana. Segundo o estudo do caso, publicado em junho no periódico científico Earth and Planetary Science Letters, há duas maneiras pelas quais vulcões podem resfriar o planeta.

Uma delas é pela liberação de gases ricos em partículas de enxofre, que ficam suspensas na atmosfera e bloqueiam a luz do sol. Outra forma é a reação química conhecida como intemperismo, particularmente comum em rochas feitas de lava.

O intemperismo acontece quando a água da chuva, levemente ácida por conta do dióxido de carbono dissolvido, reage com os minerais das rochas para formar argila e sais solúveis. Na formação desses minerais, o CO2 é sugado da atmosfera e fica preso em sedimentos que, eventualmente, chegam até o mar. Remover o gás carbônico, um dos que age no efeito estufa, também gera um resfriamento global.

Para descobrir como os eventos naturais teriam iniciado a Glaciação Sturtiana, a equipe foi atrás do local onde a erupção teria ocorrido. Partículas de enxofre ficam suspensas na atmosfera de meses a anos, enquanto rochas do intemperismo levam de 1 milhão a 2 milhões de anos para resfriar todo o planeta.

Foram analisados cristais das rochas cuspidas pelos vulcões do Canadá, na região conhecida como Grande Província Ígnea Franklin. As taxas de urânio e chumbo dos cristais foram calculadas, buscando descobrir sua idade. Rochas erodidas por glaciares durante o congelamento também foram datadas. Os achados sugerem que as expulsões de lava ocorreram de 1 milhão a 2 milhões de anos antes da glaciação, apontando para o intemperismo como a causa primária do congelamento planetário.

Outro estudo, de novembro de 2022, chegou à mesma conclusão. Segundo os pesquisadores, intemperismo em outros locais do planeta podem ter contribuído para a glaciação, ocorrendo em uma época em que os continentes formaram uma massa de terra única ao redor do equador, conhecida como Rodinia. O continente tropical era bombardeado com chuvas constantes, que causavam mais captura de carbono e intemperismo ainda.

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Discordâncias científicas

Nem todos os especialistas, no entanto, concordam com o achado da equipe. Paul Hoffman, geólogo e professor emérito da Universidade de Harvard que participou do estudo de 2022, diz que ainda é debatido o período em que a glaciação Sturtiana teria ocorrido — a data pode não bater com as erupções da Grande Província Ígnea Franklin.

Além disso, rochas erodidas pelos glaciares e que representam o início da Terra Bola de Neve podem ter se formado mais tarde do que se acredita, já que a erosão indica que o gelo espesso fluía ao nível do mar. Esse processo provavelmente ocorreu centenas de milhares de anos depois do congelamento dos mares, de acordo com Hoffman.

Fonte: Earth and Planetary Science Letters, Science Advances Geochemistry, Precambrian Research