iPhone pode ganhar mecanismo que identifica fotos e vídeos de abuso infantil

iPhone pode ganhar mecanismo que identifica fotos e vídeos de abuso infantil

Por Igor Almenara | Editado por Douglas Ciriaco | 05 de Agosto de 2021 às 12h36
Imagem: cottonbro/Pexels

Parece loucura ter uma fabricante de smartphones monitorando seus arquivos pessoais, mas é exatamente isso que a Apple estaria prestes a fazer. A companhia supostamente desenvolve um sistema de varredura automática para encontrar indícios de material envolvendo abuso de crianças nas mídias armazenadas em cada aparelho.

Se um grande volume de material for encontrado, o usuário em questão seria denunciado aos servidores da Apple, relata um professor Matthew Daniel Green, do Instituto de Segurança da Informação da Universidade Johns Hopkins, dos EUA. Múltiplas fontes teriam alcançado o profissional para comentar sobre a construção da ferramenta e informar que ela estaria bem perto de ser anunciada ao público.

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De primeira, o propósito parece ser coerente. Com sistemas de criptografia de ponta a ponta avançados na grande maioria dos mensageiros, em que ninguém mais que o remetente e o destinatário dos envios é capaz de conferir o conteúdo, crimes como o compartilhamento de material relacionado a abuso sexual infantil podem acontecer com bastante liberdade.

A contramedida da Apple ataca exatamente no ponto após o recebimento do material. Se a varredura acontece no conteúdo armazenado no celular (já descriptografado), é possível avaliar a natureza do arquivo e, se identificado algum crime, denunciar às autoridades. É uma solução interessante, mas pode ter desdobramentos seríssimos por várias razões.

Um monitoramento totalmente local "protegeria a privacidade" dos usuários (Imagem: Robin Worrall/Unsplash)

Uma delas é a avaliação errada de material contido no smartphone. Imagine que o sistema possa não funcionar bem (o que tem chance de acontecer, já que não depende de avaliação humana contextualizada), usuários poderiam ser reportados aos servidores da Apple por falsos positivos — e se isso chega às autoridades, já dá para supor o nível do problema.

Outro cenário grave também é o mau uso desse mecanismo por envolvimento de mais entidades. Em países sob governos autoritários, por exemplo, é possível que sejam implementadas leis para impor o uso dessa ferramenta de modo a encontrar opositores ou mesmo que elas sejam usadas de maneira secreta e indiscriminada contra dissidentes.

Desconfiança

De acordo com Green, a Apple pretende chegar devagar com a novidade. Primeiro, o monitoramento chegaria em sistemas não criptografados, como o armazenamento em nuvem. “Assim, ela não ‘violaria’ a privacidade de ninguém”, pontua o professor.

“Mesmo se você acredita que a Apple não permita que essas ferramentas sejam usadas de forma errada, ainda há muito para se preocupar. Esses sistemas se baseiam em um banco de dados de 'hashes de mídia problemáticos' que você, como consumidor, não pode revisar”, alerta Green.

Se essa ferramenta será realmente implementada aos consumidores, só o tempo dirá. Green diz que o anúncio poderia acontecer esta semana, mas não está claro como aconteceria. De toda forma, é um grande sinal vermelho para uma empresa que sempre se vangloriou quanto a proteção da privacidade de seus próprios usuários.

Fonte: Matthew Green

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