Vazamento revela detalhes sobre o sistema de desmonetização do YouTube

Por Felipe Demartini | 13 de Dezembro de 2017 às 09h33
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Já há algumas semanas, a palavra "desmonetização" vem sendo o grande terror de muitos dos criadores de conteúdo para o YouTube. As regras pouco claras sobre o que, exatamente, pode levar um vídeo a perder a capacidade de gerar renda para seu criador vêm gerando críticas e comentários inflamados sobre a plataforma, um mistério que, agora, pode ser parcialmente solucionado pelo vazamento de uma série de informações sobre essa dinâmica. O sistema foi aplicado aos canais brasileiros em agosto.

Os dados não-oficiais surgiram no último final de semana em uma conta no Twitter criada especialmente para esse fim. Entretanto, só ganharam força na noite desta segunda-feira (11), quando youtubers reconhecidos, como Rob Dyke, responsável por um dos principais canais com temática de terror da plataforma, deram validade às informações. Ele, por exemplo, disse ter sido capaz de confirmar boa parte do que foi vazado junto às suas próprias fontes, o que, para ele, dá credibilidade ao que foi publicado.

O vazamento relata a contratação de uma empresa terceirizada para avaliação dos conteúdos publicados na plataforma, com direito a um conjunto de regras claras sobre o que pode ou não ser monetizado. Esse pessoal também seria o responsável pelas avaliações manuais solicitadas pelos criadores, uma opção para criadores que acreditam que a desmonetização de seus vídeos foi realizada por engano.

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Políticas pouco claras de desmonetização estão dando dor de cabeça para criadores no YouTube

E é justamente aí que está o grande ponto que motivou o vazamento, com o YouTube orientando seus funcionários terceirizados a aplicarem uma política de baixíssima tolerância. Caso eles ficassem em dúvidas sobre a desmonetização ou não, a ordem é de bloquear a exibição de anúncios nos vídeos, na política de “atire primeiro, pergunte depois” já aplicada pela plataforma, por exemplo, em seu sistema de detecção de direitos autorais. Caso exista suspeita, é melhor agir do que correr riscos junto a anunciantes e detentores de copyright, com o ônus, normalmente, caindo sobre os criadores.

Além disso, a aplicação de critérios estritamente pessoais também faria parte das diretrizes entregues pelo YouTube à empresa terceirizada, que não foi identificada. Mesmo que um vídeo não se encaixe em nenhuma das diretrizes abertas para desmonetização, mas o avaliador ainda assim acredite que o conteúdo é inadequado, ele pode marcar o conteúdo para corte de anúncios sem a necessidade de mais explicações.

O que pode e o que não pode

Entre os critérios claros que geram a desmonetização de um vídeo – muitos deles já citados anteriormente e de forma oficial pelo YouTube –, estão:

  • Linguagem explícita, gírias ofensivas ou palavrões;
  • Racismo e todo tipo de discurso de ódio;
  • Conteúdo violento ou extremamente gráfico, que possa chocar os espectadores;
  • Crueldade contra animais;
  • Ataques de animais selvagens que causem ferimentos graves a humanos;
  • Conteúdo que relate terrorismo ou ferimentos a bala ou explosões, mesmo jornalístico;
  • Cenas que mostrem mortes reais ou dramatizadas de maneira realista;
  • Publicidade ou venda de remédios e outros produtos farmacêuticos;
  • Uso de drogas ou apologia (vídeos de campanhas antinarcóticos, entretanto, estão liberados);
  • Nudez parcial ou total (mesmo que para fins acadêmicos ou de demonstração);
  • Danças, falas ou atos considerados sensuais;
  • Todo tipo de exploração infantil, principalmente de cunho sexual ou violento;
  • Estupro e todas as formas de abuso sexual;
  • Demonstrações de brinquedos adultos ou uso de artigos comuns de maneira sexual;
  • Cruzamento entre animais.
Conteúdo violento, inflamatório ou explícito está na mira do YouTube

Além disso, e é justamente aqui que está o problema para muitos criadores de conteúdo, estão diretrizes bem mais subjetivas. Os analistas, por exemplo, foram instruídos a desmonetizar todo vídeo que causasse desconforto a eles caso fossem reproduzidos em público. Outros critérios desse tipo também seriam aplicados da mesma maneira:

  • Conteúdo criado ou promovido por grupos extremistas políticos ou religiosos;
  • Vídeos com temas sensíveis como aborto, suicídio, depressão, doenças mentais e outros;
  • Cenas que sejam assustadoras ou desagradáveis de maneira geral.

Por fim, no quesito que motivou um novo levante de criadores revoltados contra o YouTube, estão indicações de conteúdos que não devem ser desmonetizados. Nos documentos vazados, o YouTube pede que os avaliadores não utilizem posições pessoais durante o trabalho – algo que contradiz com as orientações dadas anteriormente, nas mesmas diretrizes –, mas indica o caráter de produções que devem ser aprovadas diretamente:

  • Vídeos que relatem situações de abuso contra grupos minoritários ou crianças de maneira informativa;
  • Conteúdos que discutam temas como igualdade de gênero, orientação sexual, pobreza, justiça social ou questões relacionadas a transgêneros, bissexualidade ou grupos de minorias;
  • Discussões sobre saúde mental, prevenção de suicídio ou abuso apresentadas de forma “respeitosa”.

Duas empresas estariam envolvidas na análise, a Appen e a ZeroChaos. Ambas trabalham com análise de altos fluxos de dados, mas com focos diferentes: enquanto a primeira parece ser mais focada em machine learning (o que faz sentido quando se considera que a mão-de-obra humana alimentaria um algoritmo automatizado de avaliação), a segunda é focada na otimização de fluxos internos de trabalho.

A participação de pelo menos uma dessas empresas, a Appen, foi confirmada pelo Canaltech. Em declarações ao site, o usuário responsável pela liberação das informações disse as ter obtido a partir da companhia, com um contato que estaria na linha de frente da análise e desmotização dos vídeos. A empresa seria a responsável pelo trabalho de aplicação das diretrizes impostas pelo site de vídeos.

O vazamento levantou, novamente, acusações de que o YouTube estaria assumindo um viés político na desmonetização de vídeos, como forma de minar canais com opiniões discordantes. As alegações aparecem, principalmente, em canais alinhados à direita, que já vinham, desde a implementação das regras, afirmando que o YouTube estaria realizando uma seleção desse tipo na hora de liberar ou não os anúncios.

Reunião exclusiva e excludente

Vista do campus da Google em Los Angeles, onde uma reunião com criadores teria acontecido para definir políticas

A segunda parte do vazamento inclui detalhes sobre uma reunião que teria sido realizada em meados de 2016, nos escritórios da Google em Los Angeles. Na época, a empresa teria convidado criadores de conteúdo com renome e influência para discutir políticas de contenção a conteúdos inadequados para os anunciantes. As políticas de desmonetização teriam nascido no encontro.

Além disso, outro grande tema seria a maneira de lidar com criadores “indesejados”, que produzem conteúdo que o YouTube não consideraria adequado devido, novamente, a critérios de posicionamento político. Os envolvidos nessa reunião não foram identificados, com todos assinando um acordo de confidencialidade para que os resultados da conversão não fossem revelados. Executivos de alto escalão da plataforma também estariam presentes, mas a CEO do serviço, Susan Wojcicki, não se sentou à mesa.

O vazamento, entretanto, cita alguns nomes negativamente na reunião: Scarce, DramaAlert e LeafyIsHere, canais de fofoca sobre youtubers ou críticas ácidas a outros criadores; Onision, que faz paródias e vlogs fictícios, muitas vezes plagiando a cultura emo e tocando em assuntos de saúde mental e automutilação; e GradeUnderA, com animações de cunho político ou ácido.

A reunião, entretanto, não chegou a grandes conclusões. Todos os presentes teriam concordado que não deveria existir censura ou o bloqueio arbitrário de canais considerados tóxicos, mas que algo deveria ser feito. Meses depois, entraram em vigor os critérios que reduziram o faturamento de canais com conteúdo considerado impróprio, cuja aplicação também estaria reduzindo o alcance dos criadores, minimizando sua aparição em sugestões ou na página inicial do YouTube, por exemplo.

Algoritmo em melhoramento

No passado, o YouTube já afirmou estar trabalhando continuamente no algoritmo de desmonetização e adequação de conteúdo, de forma a melhorar a detecção e restringi-la somente aos vídeos efetivamente impróprios. Isso estaria sendo feito por melhorias na tecnologia, bem como a análise e o feedback dado pela comunidade por meio de uma função para criadores, que permite indicar quando se acredita que um vídeo foi erroneamente marcado como tal.

YouTube usaria algoritmo e ajuda humana para avaliar vídeos publicados

A ideia de que um grupo de analistas humanos realizar esse trabalho faz sentido e, provavelmente, é o grande motor que faz com que o algoritmo funcione – e seja tão instável. Criadores mais assíduos, por exemplo, devem perceber que suas produções entram e saem de forma, aparentemente, aleatória do status de inadequados, sem que exista um critério aparente e claro para as mudanças que estão sendo realizadas.

Ao Canaltech, Tower Dog afirmou não estar sabendo de nenhum tipo de reação interna da Google sobre os vazamentos e nem mesmo espera que algo assim aconteça. Sua expectativa, afirma, é que a empresa simplesmente ignore a divulgação das informações ou tente acobertá-las, o que motivou ainda mais o vazamento, já que, no mínimo, os criadores de conteúdo ficam conhecendo o básico sobre a maneira pela qual seus vídeos são avaliados e categorizados na plataforma. Além disso, vem a intenção de denunciar uma ação considerada injusta por parte do YouTube, que teria a disposição de minar diretamente alguns dos produtores de conteúdo para o site.

Por meio de porta-voz, a Google disse não ter informações sobre o vazamento para compartilhar no momento. O Canaltech também tentou contato com Rob Dyke e outros criadores citados na reportagem, mas nenhum deles respondeu aos pedidos por declarações.

Fonte: Tower Dog

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