YouTube libera novo sistema de avaliação de vídeos no Brasil; entenda

Por Felipe Demartini | 18 de Agosto de 2017 às 13h03

O YouTube começou a aplicar, nesta quinta-feira (17), seu novo sistema de avaliação de monetização aos canais brasileiros. A partir de agora, vídeos que trazem conteúdos considerados impróprios ou inadequados para anunciantes podem ter sua receita reduzida, restrita ou desativada completamente, de acordo com os resultados da avaliação feita pela empresa.

Esse juízo, inicialmente, é feito de maneira automática por um algoritmo que realiza buscas por imagens, títulos, descrição e tags dos vídeos. Junto com seu funcionamento, entrou em vigor um novo sistema de ícones no painel de controle para os criadores de conteúdo, que indica exatamente o status de cada um dos uploads realizados pela plataforma.

A nova mecânica é uma evolução da que já existia para indicar se um vídeo pode ser monetizado ou não, mas por questões de direitos autorais. Agora, entra em vigor um novo tipo de ícone, que indica a aplicação de anúncios restritos ou desativados por questões de adequação. Entenda cada símbolo:

Novos ícones indicam status da monetização de vídeos.
  • Verde: o vídeo está com monetização completa e não tem nenhum tipo de problema de copyright ou adequação a anunciantes;
  • Laranja: o conteúdo possui algum tipo de inadequação com relação aos anúncios e pode ter sua receita cortada parcial ou totalmente;
  • Preto cortado: o upload não pode ser monetizado devido ao uso de imagens, áudio ou outros elementos protegidos por direitos autorais. O ícone não é usado para avisos do sistema de restrição por conteúdo inadequado.

A mudança, mais especificamente, está na opção intermediária. Entretanto, desde já o YouTube vem recebendo críticas de criadores por não entrar em detalhes sobre a maneira como a monetização está acontecendo. O responsável por um canal, por exemplo, não tem como saber se o conteúdo em questão está ou não sendo monetizado, nem que tipo de restrição está sendo aplicada.

Isso provavelmente se deve ao fato de a parcela de anunciantes do YouTube variar bastante. Não dá para saber, o tempo todo e de forma assertiva, que tipo de conteúdo eles acharão adequado ou não, de forma a dar uma informação assertiva para os criadores. Sendo assim, o site acabou optando pela vagueza, informando aquilo que pode, mas sem especificidade.

Apesar disso, o YouTube deixa claro que receitas oriundas de doações do Superchat, em transmissões ao vivo, ou do acesso por assinantes da plataforma paga Red, continuarão a ser pagas normalmente mesmo em vídeos considerados inadequados. Além disso, não há nenhum tipo de restrição quando as propagandas realizadas pelos próprios criadores em seus vídeos, posicionamento de produtos, campanhas de publicidade e outros acordos desse tipo realizados entre produtores de conteúdo e anunciantes.

O que é considerado impróprio?

Conteúdos de todo tipo estão sujeitos às mesmas regras no YouTube

Aqui, mais uma vez, vale a vagueza, uma vez que, como já dito, o que é adequado ou não deve depender de cada anunciante. Mas, em linhas gerais, o YouTube já vem divulgando há algum tempo o tipo de conteúdo que deve receber esse tipo de restrição - algo que, inclusive, vinha sendo aplicado há algumas semanas, mas só agora se torna claro para os criadores.

São exemplos que aparecem, inclusive, nos próprios textos explicativos dos vídeos que foram marcados para monetização restrita. Conotação sexual, palavrões ou conteúdos controversos são os exemplos citados pela empresa, mas a aplicação prática vai além disso, com materiais violentos ou discursos inflamatórios também sendo considerados como impróprios para anunciantes.

Vamos falar de forma mais específica, então, citando alguns tipos de conteúdos que, em nossa apuração, vêm sendo marcados como inadequados, de acordo com o tipo de canal:

  • Games: jogos violentos ou que tenham conteúdo pesado, como Resident Evil, Dead Space, Grand Theft Auto, Saints Row, Outlast, Tekken, Dark Souls, Battlefield, Call of Duty, Uncharted, Mortal Kombat, Far Cry, entre outros;
  • Política: vídeos inflamados ou que tenham como objetivo causar comoção popular, que contenham discursos considerados controversos ou tragam visões extremistas;
  • Música: canções com mensagens sexistas, pesadas ou que contenham palavrões, além de clipes com imagens que se encaixem em tais quesitos;
  • Ciência: experimentos perigosos, principalmente para crianças, ou que utilizem materiais controlados – aqui, a identificação acontece em menor quantidade;
  • Estilo de vida: Pegadinhas violentas ou vexatórias estariam sendo marcadas como impróprias. O mesmo vale, em menor grau, para vídeos que tragam desperdício de comida.

Além disso, de maneira geral o YouTube estaria restringindo a monetização de vídeos de qualquer categoria cujos criadores falem com tom inflamado ou em alto tom de voz. Palavrões e gestos de baixo calão, como dito, também contam para o sistema que reduz pagamento, independentemente da categoria do vídeo.

Sistema de recurso

Todas as identificações estão sendo feitas pelo algoritmo do YouTube, assim como no sistema que acusa violações de direitos autorais. Da mesma maneira, o site também disponibiliza uma ferramenta de recurso para aqueles que acreditam que seus vídeos tenham sido erroneamente marcados, mas com uma condição: eles precisam ter tido mais de mil visualizações nos sete dias anteriores ao pedido.

YouTube disponibilizou sistema de recurso para vídeos considerados impróprios

Isso se deve ao fato de que a análise, nesse caso, é feita manualmente, pelo pessoal do próprio YouTube. Levando em conta a quantidade de conteúdo transferido para a plataforma todos os dias, a quantidade de recursos na fila pode se tornar gigantesca muito rapidamente, sem que a plataforma consiga dar um suporte adequado.

Além disso, a medida faz certo sentido quando se leva em conta que vídeos com poucas visualizações também geram receita baixa. Assim, o YouTube prefere focar nos canais maiores e também no bom senso dos criadores, para que eles somente realizem apelações em conteúdos que realmente tenham sido identificados de forma equivocada.

É uma dinâmica que já vem sendo criticada por criadores menores. Ao mesmo tempo em que eles não movimentam tanto dinheiro assim, o que faz com que suas perdas com a nova dinâmica também sejam reduzidas, cada mísero centavo pode ser considerado de importância para eles. O temor, além disso, é que a identificação de um conteúdo como impróprio para anunciantes também possa interferir na divulgação dos vídeos, um problema, principalmente, quando isso acontece de maneira errônea.

Apelação ao YouTube pode ser usada apenas para vídeos e canais com mais tração

O algoritmo automático estaria cometendo seus enganos, com a inteligência artificial levando em conta apenas as imagens e estilo do conteúdo, sem considerar seu teor. Vídeos analíticos que tragam cenas de jogos considerados impróprios, mesmo que as imagens mostradas não se encaixem nesse quesito, assim como o vídeo em si.

Caso desejem, criadores menores podem deixar as avaliações manuais “em espera”. O próprio sistema as enviará automaticamente para análise caso o conteúdo atinja o mínimo de mil visualizações em sete dias, com o responsável pelo canal sendo avisado quando o resultado estiver disponível.

E quanto a outros aspectos?

O YouTube não é específico sobre o assunto, mas já disse que o novo sistema de avaliação se aplica, única e especificamente, à monetização e relação de criadores com anunciantes. As avaliações feitas pelo algoritmo são independentes, ou seja, não afetam sistemas de ranqueamento ou relevância.

Inadequação para anúncios não interfere em outros aspectos do YouTube

Além disso, de acordo com a companhia, outros critérios também não são levados em conta. O total de “descurtidas”, por exemplo, não serve como indicativo de inadequação, assim como uma esmagadora quantidade de visualizações não tornará um vídeo alvo de escrutínio maior do que imagens hospedadas por um canal pequeno.

Da mesma forma, denúncias realizadas pelos usuários com relação a conteúdos impróprios não são um fator, já que, na teoria, o próprio sistema seria capaz de identificar esses fatores automaticamente. Basicamente, os sistemas relacionados à monetização são independentes daqueles ligados à relevância e descoberta de vídeos, com um não interferindo no outro.

Entretanto, o YouTube é conhecido por mudar temos de uso e o funcionamento de seus sistemas de tempos em tempos. Sendo assim, não existem garantias de que tais quesitos não serão levados em conta no futuro ou compartilhados entre os sistemas diferentes, já que a visão, muitas vezes, é que um aspecto pode facilitar na identificação de outro. Quanto a isso, entretanto, nada de informações ou declarações.

O novo sistema de avaliação de monetização está sendo ativado para todos os canais que sejam parceiros do YouTube ou filiados a networks de conteúdo – basicamente, todos aqueles elegíveis a ganhar dinheiro com a plataforma passarão pela identificação. A ideia é aplicar os novos quesitos globalmente, com as mudanças que chegaram nesta semana ao Brasil tendo começado nos Estados Unidos.