Suspeito de atentado na Nova Zelândia tem carta publicada pelo 4Chan

Por Rafael Arbulu | 14 de Agosto de 2019 às 17h06

O terrorista e supremacista branco Brendon Tarrant, acusado de ser o responsável pelo atentado que matou 51 pessoas e feriu outras 40 em tiroteio realizado na cidade de Christchurch, Nova Zelândia, conseguiu publicar uma carta de ideologia de ódio diretamente da prisão, cortesia de usuários simpatizantes dentro do fórum 4Chan (e de um controle bem fraco de correspondências do sistema prisional do país).

O conteúdo é endereçado a um tal “Allan” e segue a dialética de ódio racial comumente vista em manifestações de supremacia branca. Na carta, Tarrant fala em “grande conflito no horizonte” e “mais derramamento de sangue”. Atualmente encarcerado, o suspeito declarou-se inocente de 51 acusações de assassinato, 40 acusações de tentativa de assassinato, e uma acusação de terrorismo.

Também na carta, que tem data de 4 de julho de 2019, Tarrant elogia a Rússia, dizendo que “Allan” deveria procurar suas fotos de uma viagem que fez ao país em 2015. Ele também comenta que, apesar de Facebook ter derrubado a sua conta da rede social, “arquivos dela ainda podem ser encontrados flutuando por aí”.

(Imagem: Reprodução/Gizmodo, via 4Chan)

Ele também entrou em citações políticas, mencionando obras como A República (Platão) e falou sobre “a ideia de Richard Dawkins de evolução cultural memética” e “as visões de Carl G. Jung sobre a consciência de heranças culturais”. Ainda citou Oswald Mosley, notória figura da extrema-direita britânica que fundou a União Britânica de Fascistas (uma variante dos Camisas Negras da Itália) e abertamente apoiava Adolf Hitler nas décadas de 1930 e 1940. Hoje, Mosley encontra apoio à sua figura em membros da extrema-direita e direita alternativa nos EUA e Reino Unido.

“Eu não posso entrar em detalhes relacionados a arrependimentos ou sentimentos, já que os guardas vão confiscar a minha carta se eu o fizer (para usar como evidência contra mim)”, Tarrant escreveu. “Mas posso dizer a você que não tenho nenhuma preocupação comigo mesmo, somente com o futuro da Europa”.

Esta última parte é uma provável referência ao manifesto que o próprio Tarrant teria escrito antes dos atentados. Intitulado “A Grande Substituição”, o texto faz referência a uma teoria conspiracionista da extrema-direita com o mesmo nome, e afirma que existe uma agenda de “elites” que encaminha a “troca” de cidadãos brancos nos EUA e outros países por imigrantes de nações mais pobres. Versões variadas da conspiração falam que quem comanda essa “agenda” são judeus poderosos e, como já é de se esperar, mencionam George Soros, o investidor bilionário que é constante alvo de críticas do público conservador por seu envolvimento em projetos de defesa dos direitos humanos. Soros nasceu em 1930, pouco antes das invasões nazistas, em Budapeste, na Hungria. Proponentes de versões variadas dessa teoria incluem o apresentador jornalístico da FOX News, Tucker Carlson; e o presidente dos EUA, Donald Trump — que a carta de Farrant menciona em caráter elogioso: “um símbolo da identidade branca”, ele disse.

Um meorial foi erguido em homenagem às vítimas em Christchurch, dias depois do ataque

Inicialmente, comentaristas do post no 4Chan duvidaram da autenticidade da carta, dizendo que ela “parecia ter sido escrita por alguém na pré-escola”. Oficiais da prisão onde Tarrant está encarcerado, porém, confirmaram que o material é real. “Eu sei que muitos neozelandeses ficarão surpresos em saber que este criminoso consegue enviar e receber correspondência – mas há direitos que todo prisioneiro possui sob a lei como ela é hoje”, disse o Ministro de Correções da Nova Zelândia, Kelvin Davis, ao site Stuff.

Uma vez confirmada, a carta passou a receber uma quantidade assustadora de elogios: “Gostaria de poder agradecer a ele pelo que ele fez”, dizia um dos posts respondentes, que também mencionava, com o apoio de outros membros, que buscaria responder a Farrant. A carta do terrorista, inclusive, é finalizada com as palavras “um dever para com o povo”. “Povo”, no caso, seria a população caucasiana.

Um oficial da prisão, que preferiu não ser nomeado, disse à imprensa local que a diretoria de correções está revisando quais tipos de correspondência Farrant pode enviar e receber, reconhecendo que essa carta, em particular, deveria ter sido impedida. “Fizemos mudanças no gerenciamento de correspondência deste prisioneiro para nos certificarmos de que os processos são robustos e eficazes da forma como precisamos que sejam”, disse.

Cinquenta e uma mortes

O atentado na cidade de Christchurch, na Nova Zelândia, assumiu popularidade global devido ao uso de ferramentas tecnológicas para a sua viralização: em março de 2019, Brendon Tarrant, de 28 anos, munido de fuzis e coquetéis molotov, abriu uma transmissão ao vivo por meio da ferramenta Facebook Live. Alguns minutos transmissão adentro, ele chegou em uma mesquita e abriu fogo contra os religiosos muçulmanos que faziam sua preces no local. Depois, Tarrant ainda dirigiu-se a uma segunda mesquita, repetindo a ação. Ambas as situações foram registradas pelo Facebook Live.

O resultado da ação terrorista: 51 mortos e 49 feridos, somando os dois ataques. Relatos da polícia local ainda mencionaram que foram encontrados dois carros-bomba, felizmente desarmados, mas ninguém atribuiu a posse dos veículos a Tarrant.

A situação adicionou problemas ainda maiores para plataformas sociais online: o Facebook, que já estava sob escrutínio global desde o escândalo Cambridge Analytica, novamente levou duras críticas de diversos governos devido à sua permissividade de publicação de conteúdo racial, religiosa ou sexualmente odioso. O YouTube, da Google, também correu contra o tempo para remover uploads terceiros dos vídeos da live terrorista, feitos por apoiadores.

A primeira-ministra neozelandesa, Jacinda Ardern, em entrevista sobre novas legislações de conteúdo online, promulgadas após os atentados de Christchurch (Imagem: Reprodução/Al-Jazeera)

A primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, chamou o caso de "um ato de violência extrema e sem precedentes" e disse que "este é um dos dias mais sombrios da Nova Zelândia". A Rainha Elizabeth II disse que estava "profundamente entristecida" com o ataque, enquanto muitos outros políticos e líderes mundiais os condenaram, com muitas chefias mundiais atribuindo o caso à crescente islamofobia. Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, tuitou "meus sentimentos".

Farrant foi preso junto de outras quatro pessoas que as autoridades não nomearam. Hoje, o autor principal dos ataques segue enfrentando a maior parte das acusações. Das quatro outras pessoas, uma foi liberada por falta de evidências que a ligassem aos ataques, enquanto os outros três estão presos por acusações menores, como veiculação de mídia extremista. Dias depois do incidente, Jacinda Ardern promulgou novas leis de controle de conteúdo online.

Fonte: Gizmodo

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