Destaques: Google lança oficialmente iniciativa de apoio ao Jornalismo no Brasil

Por Rui Maciel | 01 de Outubro de 2020 às 16h10
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O Google anunciou nesta quinta-feira (1º), o lançamento oficial do "Destaques" - lá fora batizado de Google News Showcase. Trata-se, segundo a empresa, da maior iniciativa de apoio ao futuro do jornalismo até o momento. Segundo a companhia, o "Destaques" vai oferecer aos leitores mais contexto e diferentes perspectivas sobre temas importantes do noticiário, com o objetivo de atrair maior tráfego para os sites das publicações.

Segundo post divulgado em seu blog oficial, o Google investirá US$ 1 bilhão globalmente nos primeiros três anos do projeto, criando parcerias com veículos jornalísticos responsáveis por criar e selecionar conteúdo de alta qualidade para o novo produto. Brasil e Alemanha são os dois primeiros países a estrear o programa, com o mesmo entrando em funcionamento já nesta quinta-feira. Outros países virão na sequência.

A companhia afirmou que o "Destaques" funcionará como um novo programa de licenciamento de conteúdo que se soma a outros já criados pela Big Tech, remunerando os veículos por conteúdo jornalístico de alta qualidade. A iniciativa se junta a outras como o "Assine com o Google", "Web Stories" e notícias em formato de áudio.

O lançamento de hoje não se resume ao apoio financeiro: ele marca também o surgimento de uma experiência jornalística diferente na internet. O projeto vai contar com a curadoria editorial de diversas redações reconhecidas no mundo, vai também oferecer aos leitores mais informações e sacadas sobre os assuntos que importam e permitir que os veículos aprofundem a relação com seu público.

O que é e como funciona o "Destaques"

O "Destaques" (ou News Showcase ) é composto de painéis de notícias que vão aparecer, inicialmente, no Google Notícias para Android. Em breve o produto estará disponível também no Google Notícias para iOS, e mais adiante chegará ao Google Discover e à Busca. Nesses painéis, os veículos participantes poderão agrupar conteúdos que aparecem nos feeds de notícias dos leitores, oferecendo narrativas mais aprofundadas e mais contexto por meio de recursos como linha do tempo, bullets e artigos relacionados. Outros elementos como vídeos, áudios e resumos diários chegarão gradualmente.

Os painéis vão aparecer em feeds personalizados, ao lado de outros conteúdos classificados por relevância. O público poderá navegar por conteúdos dos veículos parceiros e seguir publicações específicas para que suas reportagens apareçam sempre em evidência. Além disso, o "Destaques" dará acesso a conteúdos normalmente fechados por paywall para que os usuários degustem do melhor conteúdo de cada publicação em seus próprios sites.

Funcionamento do "Destaques": Brasil já tem acesso ao programa (Foto: Divulgação / Google)

O Google afirma que o "Destaques" é diferente dos outros produtos de notícias criados pela empresa, porque parte das escolhas editoriais de veículos específicos sobre quais conteúdos apresentar aos leitores e como exibi-los. As publicações também podem dar mais detalhes e contexto, cada uma no seu estilo, por exemplo, resumindo um tema complexo, incluindo uma explicação ou inserindo uma entrevista central sobre um assunto do momento.

Quase 200 veículos de seis países


Nesta primeira fase do programa, aproximadamente 200 veículos do Brasil, Argentina, Canadá, Alemanha, Reino Unido e Austrália assinaram parcerias com o "Destaques". A lista inclui publicações Der Spiegel, Stern, Die Zeit e Infobae, bem como El Litoral, WAZ e SooToday. O número de veículos vai crescer à medida que a ação chegar a outros países, entre eles Índia, Bélgica e Holanda.

No Brasil, mais de 20 nomes compõem o grupo de publicações parceiras até o momento. Parte delas são de alcance nacional, como Band, Estadão, Folha de S.Paulo, Jovem Pan, Revista Piauí, SBT News, UOL e Veja. Outras são importantes redações atuantes nas diferentes regiões do país, como A Gazeta, Correio Braziliense, Estado de Minas, Folha de Boa Vista, Folha de Pernambuco, Gazeta do Povo, GZH, Jornal Correio (BA), Jornal do Comércio (RS), NSC Total, O Dia, O Tempo, e Portal Correio.

Ainda de acordo com o Google, o objetivo dos painéis é representar a marca individual de cada veículo dentro dos produtos da empresa. Dessa forma, o leitor poderá reconhecer mais facilmente o valor e o ponto de vista de cada publicação sobre os principais acontecimentos da atualidade, bastando um clique para o usuário ser direcionado ao site do veículo.

Compromisso de longo prazo

Com o lançamento do "Destaques", o Google afirmou que assume um compromisso de investir em conteúdo jornalístico de qualidade, contribuindo para a sustentabilidade do setor de diversas maneiras. Uma delas é o redirecionamento de tráfego – cerca de 24 bilhões de acessos mensais – para sites de notícias de todo o mundo por meio do seu mecanismo de Busca, ou mantendo os projetos da Iniciativa Google de Notícias (GNI).

Outro exemplo citado pela companhia é o fundo emergencial que ajudou mais de 5.600 pequenos e médios veículos no mundo duramente afetados durante a pandemia – só no Brasil, foram R$ 17 milhões investidos em quase 400 redações por todo o país. Ou mesmo o recém-anunciado Programa de Crescimento Digital, também voltado a fortalecer pequenos e médios no meio digital.

Embate com entidades do setor e baixo lucro com notícias

As ações anunciadas pelo Google vêm na esteira de um embate entre a empresa e uma coalizão que reúne 27 entidades representativas do setor de comunicação no Brasil. Em agosto, o grupo protocolou na Câmara uma carta ao presidente da casa, deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), defendendo a remuneração de conteúdos jornalísticos, bem como mais transparência da publicidade na internet. Também foi pedido a inclusão das ferramentas de busca no projeto de lei 2.630/20, também conhecido como "Lei de Combate as Fake News", já aprovada pelo Senado e em discussão na Câmara.

Em resposta, Fábio Coelho, presidente do Google no Brasil, enviou uma carta à Maia, criticando as medidas, principalmente a inclusão de seu mecanismo de busca na PL das Fake News. Segundo ele, "incluir os mecanismos de busca no escopo da legislação proposta não atenderá a sua proposta inicial de coibir a conduta de pessoas mal intencionadas que distribuem informações falsas pela internet. Ao contrário, isso poderia ser prejudicial ao combate à desinformação ao limitar acesso a uma variedade de fontes de informação".

Coelho afirma ainda que "que simplesmente incluir as ferramentas de busca no projeto de lei, sem a devida consideração do conjunto de ações concretas que temos realizado para combater a desinformação em todas as nossas plataformas, poderia fazer com que a futura lei já nascesse obsoleta".

Relação dos veículos brasileiros que participarão inicialmente do "Destaques" (Foto: Divulgação / Google)

Para sustentar sua argumentação, o Google apresentou números é baixa receita proporcionada a partir da publicidade em conteúdos jornalísticos. Segundo a companhia, o valor gerado a partir dos AdWords nas buscas por notícias foi de apenas US$ 4 milhões (R$ 20,9 milhões), quantia que representa uma parcela pequena da receita gerada com anúncios no Google Busca no país. Isso porque, de acordo com a empresa, a maior parte do seu faturamento vem de pesquisas com intenções de compra – "por exemplo, quando você quer comprar um 'tênis de corrida', digita essas palavras na Busca e depois clica em um anúncio", explicou o Google a partir de um post em seu blog oficial.

Além disso, ainda de acordo a companhia, buscas relacionadas a notícias representaram somente 1,5% do total de pesquisas feitas através do Google no Brasil em 2019. Logo, a empresa afirma não ser correto afirmar que a maior parte de sua receita vem da exibição de anúncios em resultados de notícias na Busca.

Para completar, a empresa afirma que para manter a confiança dos usuários na busca por informações, os resultados da Busca são determinados pela relevância – não por parcerias comerciais. "É por isso que não aceitamos que ninguém pague para ser incluído nos resultados orgânicos de busca", declarou a empresa em carta enviada ao Congresso Nacional, em meados de setembro último. "Vendemos anúncios ligados aos termos pesquisados pelos usuários, não resultados da Busca, e toda a publicidade exibida em nossas plataformas é claramente identificada".

Briga também em outros países

Entre os mercados onde o "Destaques" estreará já nos próximos dias, está a Austrália, um dos países que também se mostra engajado para fazer com que os veículos locais sejam melhor remunerados pelo Google. No final de julho deste ano, o país foi o primeiro a a exigir que Facebook e Google paguem pelo conteúdo de notícias produzidos pelas empresas de mídia. Para isso, a remuneração será feita a partir de um sistema de royalties que se tornará lei ainda este ano. O objetivo, segundo o governo local, é proteger o Jornalismo independente praticado mundo afora.

Após uma investigação sobre o estado do mercado de mídia e o poder das plataformas dos EUA, o governo australiano, no final do ano passado, disse ao Facebook e ao Google para negociar um acordo voluntário com as empresas de mídia para usar seu conteúdo. Essas negociações não chegaram a lugar algum e as autoridades locais agora dizem que, se um acordo não puder ser alcançado através de arbitragem dentro de 45 dias, a Autoridade Australiana de Comunicações e Mídia estabeleceria termos juridicamente vinculativos em nome do governo.

Outros países tentaram e falharam na tentativa de fazê-las abrir o bolso. Setores de mídia na Alemanha, França e Espanha pressionaram a aprovação de leis nacionais de direitos autorais que obrigam o Google a pagar taxas de licenciamento quando publica trechos de seus artigos de notícias. No entanto, em 2019, a gigante de buscas parou de mostrar trechos de notícias de editores europeus nos resultados de pesquisa para seus usuários franceses. Já o maior editor de notícias da Alemanha, Axel Springer, permitiu que o mecanismo de busca executasse trechos de seus artigos após queda de tráfego nos sites.

Fonte: Google Blog  

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