Oito perguntas sobre: Inteligência Artificial na América Latina

Por Rui Maciel | 21 de Junho de 2020 às 14h00

Se o Softbank - por meio do seu braço de investimentos, o Vision Fund - não andou apresentando os melhores resultados ao investir em empresas como WeWork e Uber, isso não quer dizer que o conglomerado deixará de apostar em companhias de Tecnologia em seu portfólio. E uma das estratégias do grupo é focar não apenas em startups, mas também em profissionais que se destacam em tecnologias bastante demandas pelo mercado. E isso inclui a América Latina.

Prova disso é que o grupo multinacional japonês concluiu no começo de junho a primeira edição do programa de “Ciência de Dados para Todos” (Data Science for All, ou DS4A), cujo objetivo é desenvolver e recrutar talentos em inteligência artificial (AI) e ciência de dados na América Latina.

No total, 205 estudantes de mais de 30 cidades, incluindo Bogotá, Buenos Aires, Cidade do México e São Paulo, completaram o programa de 10 semanas de qualificação em Ciência de Dados e IA. Dessa forma, eles ganharam o necessário conhecimento teórico e prático que está em alta demanda por empresas de tecnologia em toda a região.

Os alunos foram selecionados entre 2.350 candidatos com base nos resultados de uma avaliação de habilidades on-line que mede seus conhecimentos técnicos existentes e participaram de aulas lideradas por educadores de Harvard, MIT e Stanford. Para completar o programa, eles foram divididos em 48 equipes, que precisavam trabalhar em diversas iniciativas de dados levantadas pelas empresas do portfólio da SoftBank na região.

Os projetos foram desenhados especificamente para descobrir formas pelas quais a IA pode melhorar significativamente os resultados do negócio em operações como comércio eletrônico (para recomendações mais assertivas de produtos), empréstimos (para aumentar a efetividade da avaliação de crédito), logística (para aprimoramento de rotas), marketing (para alavancar vendas cruzadas), entre muitas outras.

E, como cereja do bolo, uma equipe brasileira foi a grande vencedora do programa. Formada por formada por Diego Katz, Gabriela Surita, Gilberto Cymbaum e Juan Galindo, eles desenvolveram um projeto de otimização de rotas paea uma startup de logística.

E nesta quarta edição do "Oito perguntas sobre", o Canaltech conversou com Laura Gaviria Halaby, diretora de Parcerias e Iniciativas Estratégicas do SoftBank Group International. Ela falou sobre como o grupo analisa o potencial da América Latina para o mercado de Tecnologia, com destaque para o uso da Inteligência Artificial. Confira como foi o papo.

Laura Gaviria, do Softbank: grupo atento às oportunidades em AI na América Latina

1 - Como o Softbank analisa o potencial de mercado para a implementação de serviços envolvendo Inteligência Artificial na América Latina? Que áreas hoje têm maior potencial para usar essa tecnologia?

A Inteligência Artificial (IA) é uma ferramenta poderosa que, acreditamos, irá provocar uma disrupção não somente para as empresas, mas também para os governos em setores como a saúde (por exemplo, diagnóstico automatizado de doenças), infraestrutura (por exemplo, o deslocamento otimizado de forças policiais) e políticas (por exemplo, otimização do ROI sobre o dinheiro gasto). Os cidadãos precisam de treinamento em dados e habilidades digitais modernas para poderem alavancar o poder da IA nessas áreas. Só o Brasil pode aumentar o PIB em US$ 430 bilhões até 2035 se conseguir aproveitar a IA. A América Latina como um todo poderá ganhar mais de US$1 trilhão em PIB.

Devemos também considerar que a América Latina é cada vez mais um centro de RPA (automação de processos robóticos) e de realocação de trabalho tecnológico. Se ela pode oferecer uma experiência mais barata em análise de dados, pode se tornar o destino da realocação analítica, assim como a Índia se tornou o destino da realocação de TI. Em nosso próprio portfólio de empresas, em todas as indústrias, observamos problemas práticos que a IA pode resolver: desde estratégias de preços automatizadas, até roteamento algorítmico e logística, passando pela construção de melhores modelos de crédito para estender empréstimos mais baratos a empresas e indivíduos.

A razão pela qual a IA é tão incrivelmente poderosa para a América Latina tem três explicações:

1. A quantidade de dados que a região está gerando está crescendo exponencialmente devido à maior conexão entre dispositivos, clientes e infraestrutura.

2. O poder computacional continua a ficar cada vez mais barato, sendo que cada vez mais pessoas têm telefones celulares.

3.Empresas que estão coletando dados de clientes constroem sistemas que se tornam mais inteligentes com o tempo, posicionando-se para serem vencedoras regionais, e não apenas operadoras em um único país. Isso cria um enorme potencial de investimento.

2 - Quais países da América Latina atualmente têm o uso mais avançado da IA?

Segundo estudo de Oxford Insights e IDRC, que calculou a prontidão para a IA de cada país, a América Latina está atrasada. Não há nenhum país latino-americano entre os 20 melhores e a principal razão é a baixa pontuação em habilidades técnicas, tais como matemática e estatística. Segundo esse mesmo estudo, México, Uruguai, Chile e Brasil têm o uso mais avançado de IA na região e, com base em nossa experiência atual com o programa Data Science for All, vemos também resultados muito positivos na Colômbia.

3 - Como qualificar profissionais para atender à demanda de empresas que promovem a transformação digital? Como fazer essa alfabetização de dados com eficiência?

IA é o presente e o futuro dos negócios, não apenas na América Latina, mas no mundo inteiro. Embora a IA esteja automatizando algumas tarefas, ela também está criando um enorme conjunto de novos empregos em torno do trabalho, com algoritmos, análise de dados e muito mais. A quantidade de empregos envolvendo a IA está evoluindo e crescendo rapidamente de forma animadora, e é difícil de prever.

Neste contexto, a alfabetização em dados torna-se uma das habilidades mais importantes para o futuro do trabalho. Para que as empresas implementem com sucesso iniciativas de transformação digital, elas devem capacitar seus funcionários em todos os níveis da organização, para melhorar seu conhecimento analítico. As empresas precisam aprender a se tornar organizações centradas em dados.

A fim de preencher a lacuna de talentos em termos de alfabetização em dados e capacitação em IA, o SoftBank lançou o Data Science for All (DS4A) em parceria com a Correlation One, que é especializada em treinamento de ciência de dados. Este foi um programa avançado para treinamento e contratação de talentos seniores em inteligência artificial e ciência de dados na América Latina. O talento é um dos fatores-chave para o crescimento de startups e iniciativas como o DS4A ajudarão a promover a sustentabilidade do ecossistema de inovação da região.

Um aspecto importante a ser considerado ao se observar as lacunas de habilidades das pessoas é que as empresas precisam complementar os cursos tradicionais de educação técnica, que normalmente são mais teóricos, com aulas práticas de IA e habilidades de dados que podem ser imediatamente aplicadas às necessidades dos negócios. Nosso programa focou exatamente isso; tivemos instrutores de instituições de ponta como a Universidade de Harvard ensinando IA usando casos reais de negócios, com uma grande quantidade de contribuições das principais empresas latino-americanas.

4 - O Softbank faz uso adicional dos projetos vencedores do DS4A? Você pode nos dar um exemplo?

Para finalizar o programa, os participantes do DS4A foram divididos em 48 equipes que trabalharam em diversas iniciativas de dados trazidas pelas empresas do portfólio do SoftBank na região, entre outras. Os projetos foram desenvolvidos especificamente para descobrir formas pelas quais a IA pode melhorar significativamente os resultados finais em operações como comércio eletrônico (para recomendações mais inteligentes de produtos), empréstimos (para melhor pontuação de crédito), logística (para melhor roteamento), marketing (para condução de vendas cruzadas), entre muitas outras. Muitos desses projetos foram realmente excelentes e, naturalmente, foram compartilhados com as empresas que os sugeriram.

DS4A: participantes precisam criar projetos baseados em IA para resolver problemas de startups

Tomemos como exemplo o projeto da equipe vencedora, que foi desenvolvido em parceria com a empresa de logística e entregas Loggi, em uma equipe formada por funcionários da Loggi e estudantes externos. A equipe redesenhou o algoritmo de roteamento que planeja as rotas de entrega, conseguindo assim reduzi-las em 27%. Com isso, o tempo de espera dos clientes será menor, o tempo em trânsito para os entregadores será menor e a emissão de carbono para a atmosfera será menor. A economia de custos estimada para a empresa também totaliza quase US$ 17 milhões anuais somente em São Paulo, um benefício significativo para a empresa. A Loggi já está estudando a implementação da solução dentro da empresa. Este é apenas um exemplo dos muitos modelos que foram construídos durante o curso.

5 - Os membros das equipes que se destacaram no DS4A serão utilizados profissionalmente pelo Softbank após a competição?

Uma parte importante do programa DS4A envolveu conectar os participantes a oportunidades de carreira exclusivas oferecidas por empresas do portfólio do SofBank e outras grandes organizações de tecnologia, como Google e Microsoft. Nossos alunos estão participando de dezenas de entrevistas, dada a grande demanda por talentos de ponta com expertise funcional que a região está procurando.

6 - Além de promover concursos como o DS4A, o Softbank também busca empresas especializadas em IA e Data Science na América Latina para investir?

No SoftBank acreditamos que a IA é a mais revolucionária e importante área de desenvolvimento tecnológico da atualidade. O SoftBank Latin America Fund é um dos principais investidores em tecnologia da região e nossa tese de investimento inclui a busca por empresas que estejam alavancando dados e IA para a disrupção dos modelos de negócio. Ao analisar os candidatos a investimento, estamos procurando empresas excepcionais que estão mudando a forma como trabalhamos e fazemos negócios.

Participantes do DS4A: o Softbak quer apostar também em talentos de IA e não apenas em startups

7 - Quais empresas ou casos chamaram a atenção do Softbank no uso de IA e ciência de dados na América Latina?

Se você olhar mais de perto as empresas do nosso portfólio, verá que elas têm algo em comum, que é o uso de IA, Machine Learning e ciência de dados para potencializar seus negócios. Por exemplo, acabamos de anunciar um investimento na Cortex, uma empresa brasileira líder em soluções de inteligência de dados para Marketing e Vendas. Através de sua plataforma SaaS de Big Data Analytics, a Cortex fornece soluções de inteligência que capturam informações de mercado estruturadas e não estruturadas de diversas fontes e as integram com dados internos de desempenho para gerar previsões, recomendações e conduzir uma melhor tomada de decisões.

8 - Muito se tem dito que a pandemia do COVID-19 pode ser uma oportunidade de transformação digital para muitas empresas. Como podemos promover esse ecossistema de inovação em um período como esse?

A crise da COVID-19 acelerou a digitalização em todos os setores. Por exemplo, estimulou um aumento no uso da tecnologia de telemedicina para prestar atendimento à distância, o que ajuda a atender as necessidades médicas das pessoas e reduz a supercapacidade dos hospitais. Embora as escolas estejam fechadas, as plataformas digitais de aprendizagem e teleconferência estão ajudando os alunos a continuar seus estudos. Temos plataformas de entrega que estão trazendo alimentos, medicamentos e bens essenciais para as nossas portas, como Loggi e Rappi. As pessoas estão ficando mais confortáveis fazendo qualquer tipo de transação online, desde alugar uma casa até comprar um carro ou móveis em plataformas como Volanty, MadeiraMadeira e QuintoAndar.

Além disso, mais empresários precisam ser capazes de vender online e Olist e Vtex estão potencializando a sua experiência. E os serviços financeiros digitais nunca foram tão importantes como hoje, proporcionados por fintechs como Creditas e Banco Inter. A tecnologia está nos permitindo ficar seguros e saudáveis em casa durante a pandemia. Então, como você pode ver, enquanto as pessoas na América Latina passaram a contar com a tecnologia para viabilizar a forma como vivem e trabalham durante esta crise, muitas empresas estão aproveitando as oportunidades para aprofundar seu envolvimento com os clientes.

Estamos em meio a uma mudança transformadora na sociedade, acelerada pela COVID-19, onde ferramentas de IA e Ciência de Dados serão cruciais para impulsionar a eficiência e a inovação. Um ecossistema com profissionais treinados em IA é mais sustentável ao longo do tempo, e oferece mais oportunidades para empresas novas e em crescimento.

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.