Regras inusitadas e apoio de fãs tornam Fórmula E mais do que corrida limpa

Por Felipe Demartini | 18 de Janeiro de 2020 às 14h30

As competições de automobilismo estão marcadas na história esportiva do Brasil. Seja com os triunfos inesquecíveis de Ayrton Senna, as polêmicas e habilidades incríveis de Nelson Piquet ou o caminho pavimentado por Emerson Fittipaldi, é impossível encontrar um conterrâneo que não tenha tido pelo menos algum contato com a Fórmula 1. Mas essa, entretanto, é apenas a categoria principal de um mundo do automobilismo que, em suas diferentes vertentes, reúne tecnicismo, alta performance, audácia e precisão.

Essas são palavras que definiriam muito bem a Fórmula E, competição de carros elétricos que está atualmente na sexta temporada e se prepara para sua terceira etapa, que acontece neste sábado (18) em Santiago, no Chile. Na pista de rua do Parque O’Higgins, em uma área nobre da capital, desfilará em alta velocidade a vanguarda da tecnologia elétrica, reunindo em um único pacote a proteção ao meio ambiente com o desempenho altíssimo de monopostos de grandes marcas.

A ideia de uma competição de veículos verdes, para quem não acompanha o esporte de perto, pode soar quase tão distante quanto a própria popularização dos carros elétricos. Em um mundo que ainda cheia a gasolina e poluição, a Fórmula E chega para não apenas mostrar o potencial de pilotos novatos e que veteranos ainda têm muito para dar à modalidade, mas também para exibir o que essas máquinas são capazes de fazer.

Lucas Di Grassi, brasileiro que faz parte da categoria desde seus primeiros anos e foi campeão em 2017, e também age como um dos embaixadores da categoria e seus benefícios para o meio-ambiente, além de encabeçar iniciativas ligadas à robótica. Nelson Piquet Jr. foi o coroado no primeiro ano da categoria enquanto Felipe Massa, um dos principais pilotos da história recente do Brasil no automobilismo, estreou na temporada passa da Fórmula E em uma equipe que, pasmem, foi cofundada pelo ator Leonardo Di Caprio.

E já que iniciamos o texto falando da Fórmula 1, é importante indicar os diversos nomes da modalidade que são parte integrante, agora, das corridas de carros elétricos. O atual campeão, e único a vencer duas temporadas seguidas da Fórmula E, é o francês Jean-Éric Vergne, ex-Toro Rosso e ativo entre 2012 e 2014. Outros veteranos do grid deste ano incluem Sébastien Buemi, Pascal Wehrlein, Stoffel Vandoorne e Brendon Hartley.

Mais do que com a presença de célebres pilotos (com direito a Jarno Trulli e Michael Andretti, que são donos de duas das equipes que compõem o grid), a Fórmula E quer brilhar pela competitividade. É, como diretores de times e pilotos fazem questão de afirmar, uma das únicas categorias do automobilismo em que os carros são parelhos em termos de potência, com a diferença entre vitória e derrota ficando quase que completamente ligada ao fator humano.

“A competência do piloto e do engenheiro faz toda a diferença em uma prova da Fórmula E”, explica Oliver Rowland, piloto da Nissan e.dams, equipe com dois anos de história na competição e que já conta com resultados expressivos como seis pole positions e uma vitória na temporada passada. “Tudo pode mudar muito rapidamente e você nunca sabe quem vai vencer. Nem sempre quem larga na frente domina a corrida”, completa.

Interferências e jogos

Os carros e os pilotos da temporada 2019/2020 da Fórmula E (Imagem: Divulgação/Fórmula E)

As diferentes regras que compõem a modalidade ajudam a ampliar a competividade e, mais do que isso, dar um caráter especial ao show. Olhadas rapidamente, algumas destas possibilidades chegam a fazer com que a Fórmula E se assemelhe um pouco com um vídeo game, e isso não se aplica apenas ao fato de estarmos falando de veículos com cara de futuristas e que emitem um peculiar assovio que poderia muito bem ser o de uma nave espacial.

Como explicou Rowland, estamos falando de carros que trabalham com eletricidade e sistemas de recuperação de energia. Ela é gasta nos momentos de maior pressão e recuperada nas frenagens, devendo ser administrada por pilotos que, com a ajuda dos engenheiros e outros membros da equipe, estão fazendo contas literalmente o tempo todo. “Estamos sempre pensando em estratégias e cenários. E por mais que a gente passe centenas de horas no simulador, não dá para prever tudo”, conta.

O caráter frenético da Fórmula E já começa pelo seu formato. Todas as suas etapas, desde o treino livre até a classificação e, claro, a corrida, acontecem ao longo de um único dia. Quem consegue a pole position já ganha pontos e a prova, em si, tem 45 minutos mais uma volta, com o responsável pela volta mais rápida também recebendo bônus.

Quando chegamos às normas exclusivas é que as coisas começam a ficar mais divertidas. Para incentivar a participação do público e também a interação de equipes e pilotos com os espectadores existe o Fanboost, um sistema no qual os fãs votam em seus cinco preferidos por meio das redes sociais. O resultado sai na marca dos 15 minutos de corrida, com os eleitos recebendo cinco segundos de poder adicional para realizar uma ultrapassagem, defender uma posição ou ampliar a vantagem.

Outra característica que parece ter sido importada de F-Zero ou Top Gear é o Modo de Ataque, um sistema introduzido na temporada passada que, literalmente, cria uma zona de poder em um ponto determinado do circuito. Ao passar por aquele espaço, o piloto também recebe potência adicional, cuja duração e número de ativações é decidida pela direção de prova antes do início de cada corrida, para tornar as coisas mais imprevisíveis.

O pulo do gato é que o Modo de Ataque, para ser ativado, também exige que o piloto saia do traçado mais objetivo, representando uma estratégia a ser desenvolvida a 300 quilômetros por hora. Será que vale a pena sair da linha para ganhar potência extra? Na tentativa de se defender, a equipe pode acabar vendo seu carro perdendo uma posição ou tendo dificuldades para voltar em meio aos outros veículos. O momento de ativação, sempre e em todas as etapas, é daqueles de tirar o fôlego da plateia.

Outro reflexo dessa proximidade entre fãs e a modalidade é o fato de a Fórmula E estar oficialmente disponível não apenas através de canais de televisão à cabo, mas também gratuitamente pela internet através do YouTube e Facebook. As provas são transmitidas na íntegra, primeiro, na TV, e entram no ar logo depois nos serviços online, com narração em inglês e direito a cerimônias de premiação e entrevistas em que os espectadores podem enviar perguntas.

O contato próximo ainda resultou naquela que é citada informalmente como a melhor campanha de marketing da história da Fórmula E. Como forma de divulgar a inclusão da cidade de Seul, na Coreia do Sul, na temporada 2019/2020 da competição, ela deu aos integrantes do grupo de k-pop BTS o título de embaixadores globais do torneio. Eles aparecem em vídeos e imagens promocionais falando sobre a proteção ao meio ambiente e sobre como as corridas representam a vanguarda dos veículos limpos.

Inusitada, também, é a saga de muitas das equipes que fazem parte da competição. Muito se fala sobre como a Fórmula 1 e outras categorias do automobilismo mudaram a cara dos veículos de passeio, mas na FE, o sentido é inverso. No caso da Nissan e.dams, por exemplo, são mais de 70 anos de história com carros elétricos e um aumento nesse investimento a partir de 2010, com o Leaf, principal modelo da marca para esse segmento.

“O desenvolvimento de um carro [da nossa modalidade] exige pensamento inovador e engenharia audaz. Não existe time, hoje, que tenha tantas informações sobre motores e carros elétricos quanto nós”, explica Michael Carcamo, diretor de esportes a motor da Nissan. “Nas pistas, é trabalho dos pilotos pegar esse pacote que criamos e fazer dele o melhor possível”.

O caminho à frente

O novato Oliver Rowland, da Nissan e.dams, cita o pacote de dados da marca como principal fator para os resultados promissores exibidos em sua segunda temporada na Fórmula E (Imagem: Divulgação/Fórmula E)

Os resultados impressionantes para uma equipe novata demonstram isso. Rowland, por exemplo, já começou a temporada 2019/2020 da Fórmula E com uma quarta colocação na primeira etapa, travada na Arábia Saudita. Na segunda prova, também naquele país, chegou em 5º, e segue para a terceira etapa da modalidade na quarta posição no campeonato de pilotos, acima, por exemplo, do bicampeão Vergne, que aparece apenas em 12º após quebrar na estreia e chegar apenas em 8º na corrida seguinte.

O suíço Buemi, parceiro do britânico, não teve a mesma sorte da temporada passada. Ele abandonou a primeira corrida após receber dois Fanboosts e chegou apenas em 12º na segunda. Os resultados combinados, entretanto, levaram a Nissan e.dams à quinta colocação de um campeonato de construtores de tem a Mercedes-Benz EQ na ponta, com uma diferença de apenas dois pontos para a vice, Envision Virgin Racing, e de três para a medalha de bronze, a já citada BMW i Andretti Motorsport.

Basta olhar a tabela para ver que absolutamente tudo pode acontecer da terceira etapa em diante da Fórmula E. O vencedor da primeira corrida, Sam Bird, nem mesmo terminou a segunda, enquanto Alexander Sims, que venceu a segunda rodada na Arábia Saudita, chegou apenas em 8º na estreia. Ele é o líder do campeonato de pilotos, mas novamente, a distância é curta e de apenas cinco pontos para o segundo colocado, Vandoorne, com dois consistentes terceiros lugares, e de nove para Bird, na terceira colocação.

Todos, mais do que nunca, estão mais do que interessados em marcar alguns pontinhos, principalmente depois que a Federação Internacional do Automóvel deu à Fórmula E o caráter de torneio mundial reconhecido. Isso significa que os resultados obtidos para os pilotos valem para a Super Licença, que por sua vez, serve como porta de entrada para diferentes categorias do automobilismo, com direito à prestigiada Fórmula 1.

A terceira etapa da temporada 2019/2020 da Fórmula E acontece neste sábado, 18 de janeiro, no circuito Parque O’Higgins, em Santiago, no Chile. A prova começa às 7h55, com transmissão ao vivo dos treinos livres pela internet. A corrida, na íntegra, entra no ar nas plataformas depois que a bandeira quadriculada balançar na capital chilena.

O jornalista viajou ao Chile a convite da Nissan.

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