Como as escolas tradicionais tiveram que se adaptar à filosofia das Edtechs

Como as escolas tradicionais tiveram que se adaptar à filosofia das Edtechs

Por Rui Maciel | 19 de Abril de 2020 às 09h00

Com colaboração de Beatriz Vaccari

Como mostramos na matéria ontem, as Edtechs tiveram mais facilidade para se adaptar ao novo ritmo ditado pela pandemia da COVID-19 - e ainda assim foram impactadas. Por sua vez, as escolas tradicionais - de ensino fundamental e superior - encontraram um desafio ainda maior. Acostumadas ao modelo presencial de aulas, elas tiveram de transformar a sua filosofia de ensino de modo mais radical e às pressas.

Com a data da volta às aulas presenciais ainda indefinida - algo que impacta 130 mil escolas e cerca de 47 milhões de estudantes - as instituições de ensino precisaram se reinventar. E pensar mais como as Edtechs.

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Um bom exemplo de como isso foi desafiador aconteceu no colégio CEL, que possui quatro unidades no Rio de Janeiro. Mesmo contando com uma plataforma que disponibiliza conteúdos online ao que era passado na sala de aula, a escola entendeu que a interação aluno x professor era primordial, mas, ao mesmo tempo, não podia colocar em risco ambos os grupos. “A solução que encontramos foi disponibilizar os equipamentos para que a equipe pedagógica pudesse dar aula da própria casa. Nosso time de T.I. fez um mapeamento do que os professores precisavam. Enviamos os equipamentos para os professores de acordo com cada necessidade”, afirmou Rômulo Nunes, coordenador do Ensino Médio do CEL.

De acordo com Nunes, o principal desafio é uma experiência mais próxima possível de um ambiente de sala de aula. “Isso passa tanto pela adaptação do professor - houve um treinamento com todos antes de começar as aulas ao vivo -, quanto pela adaptação do aluno”, afirmou o educador. “A questão técnica, de manter tudo funcionando 100% também é um desafio. Há imprevistos como a queda da Internet, por exemplo”.

App do Centro de Mídias da Educação de SP

Nunes afirma ainda que adaptações precisaram ser feitas para que as aulas online tivessem efetividade. “Na grade, tivemos que diminuir o tempo de cada aula passando de 45 para 30 minutos. Isso foi necessário porque, como estão estudando pelo computador ou smartphone, é mais difícil manter a concentração já que a distração está sempre na aba ao lado ou nas notificações pipocando a cada momento”, disse ele. “Também colocamos um intervalo de 5 minutos entre as aulas, para que os alunos possam beber água, ir ao banheiro e respirar um pouco”.

Além da duração, a forma de ministrar as aulas mudou. Usando o exemplo da CEL, cada sala virtual tem dois professores. O primeiro, fica no vídeo e efetivamente passa o conteúdo. Já o segundo tem o objetivo de levar as dúvidas dos alunos adiante. Assim, a escola espera que aulas fiquem mais dinâmicas com a troca necessária que o aprendizado necessita. “Oferecemos ainda, para alguns alunos bolsistas e que não dispõem de internet em suas casas, um ‘kit conexão’, com notebook ou tablet e um modem/chip 4G. Desta forma, eles conseguem assistir às aulas ao vivo, assim como baixar e enviar os exercícios”, afirmou o coordenador. “O próximo passo é disponibilizar as aulas ao vivo também gravadas. Assim, àqueles que não possuem uma conexão tão boa, conseguem depois ter acesso ao conteúdo ou assistir às aulas novamente”, completa.

Multiatividades e até um "Netflix" próprio

Se na CEL o foco está nas aulas tradicionais, no Colégio Pectrus, situado na cidade de Hortolândia, no interior de São Paulo, o processo envolve mais atividades. Para isso, a escola usa plataformas como o Microsoft Teams e o Microsoft for Education para ministrar, além das aulas tradicionais, sessões de balé, karatê, inglês e música de forma online.

Com isso, os estudantes da escola conseguem ser participativos em todas as classes. As crianças mantêm o contato com os professores por meio de videoaulas, encontros semanais e ainda realizam diversas atividades.

O colégio bilíngue, que tem aulas até o fundamental II (para alunos de 7 a 14 anos), teve no ensino maternal uma evolução significativa por meio da tecnologia. "Com base na experiência virtual é possível tanto manter o calendário acadêmico, anual quanto trabalhar junto às crianças o processo de autonomia – ainda que os menores dependam dos pais ou responsáveis para acessar as ferramentas, a característica já passa a ser trabalhada desde cedo", comenta Vanessa Arseli de Oliveira, uma das proprietárias do colégio.

De acordo com Arseli, as aulas vão desde disciplinas tradicionais até as de karatê e balé que são disponibilizadas em vídeo no Microsoft Stream. “Os professores gravam as aulas em suas casas e fazem o upload na ferramenta. Com isso, tanto os pais, quanto os próprios alunos podem acessar os vídeos através de links disponibilizados no Sharepoint, uma biblioteca virtual customizada organizada por turmas e disciplinas, e realizar as aulas normalmente. Recebemos muitas fotos e vídeos dos alunos com as roupas de balé, por exemplo, treinando em casa ao assistir às aulas pelo computador ou em smart TVs”, declarou.

A instituição ainda utiliza uma plataforma de streaming, chamada de PectrusFlix, para ampliar o escopo de atividades dos alunos em período integral. O sistema oferece diversos canais com vídeos recreativos, como review de videogames com transcrição simultânea em inglês e músicas infantis com performance de suas recreacionistas, para que os alunos tenham conteúdos pedagógicos e se distraiam durante o isolamento. A plataforma conta também com aulas de dança, música, culinária, artesanato, entre outras atividades pedagógicas.

Aulas online do colégio Pectrus: escola conta até mesmo com um "Netflix" próprio (Crédito da imagem: Pectrus)

No entanto, ainda que o conteúdo seja vasto, a interação com o professor não poderia ser deixada de lado, principalmente para os alunos menores. Ainda no ensino maternal, os professores realizam videochamadas semanais para conversar com seus alunos. “Percebemos essa necessidade, pois eles sentiam falta das explicações dos professores ao vivo, além de quererem mostrar suas atividades e rever os amigos de sala”, comenta Juliana Marcelino, Coordenadora da Educação Infantil. "As avaliações desses estudantes são todas feitas online, com o upload das atividades pelos pais, por meio de fotos e respostas referentes ao seu progresso", completa.

Já para o Ensino Fundamental, a escola precisou adotar uma solução em tempo real - no caso, a gravação e acompanhamento de aulas ao vivo. As aulas são interativas entre alunos e docentes através de chats para comentários e dúvidas e ficam salvas na plataforma de streaming do colégio. O plano de aulas é montado pelo professor e a chamada de presença, que é feita pelo celular,

O Pectrus utiliza, ainda, a funcionalidade de legendas ao vivo do Microsoft Teams para aulas em inglês de forma que o aluno entenda a pronúncia do professor. Além disso, há aulas de programação online usando o game Minecraft. “Estamos tendo feedbacks muito positivos com relação ao modelo de educação à distância que conseguimos implementar em apenas uma semana. Reunimos os nossos gestores para traçarmos estratégias e quatro dias depois as aulas já começaram a ocorrer. Ainda que já utilizássemos muitas dessas ferramentas anteriormente à quarentena, a aceitação das aulas gravadas e online, e a organização que colocamos em prática, foram uma reinvenção tanto para os professores, quanto para os nossos alunos e seus pais”, finaliza Alan Correa Morais, gerente de tecnologia.

Ensino superior também precisou pensar como uma Edtech

Mais acostumado com o processo de EAD, um dos principais desafios das instituições de ensino superior é fazer as aulas chegarem de forma massificada. Isso pode se tornar extremamente complexo em grupos educacionais com grande número de alunos.

Com mais de 300 mil estudantes espalhados em todo o Brasil, o Grupo Estácio optou pela plataforma Microsoft Teams para dar continuidade às suas aulas. A expectativa da instituição é de que 15 mil aulas sejam ministradas semanalmente sob esse sistema.

De acordo com a Estácio, o modelo está registrando índices altos de presença, por vezes até maior que os identificados presencialmente. No curso de Medicina, por exemplo, as 130 aulas programadas tiveram 99% de presença. Além disso, a direção identificou que a adesão a simulados teve recorde de participação, atingindo 68%, em comparação com 50% quando o modelo era realizado presencialmente.

“Mesmo no cenário da crise, o número de acesso a essa atividade aumentou. Isso é uma evidência de que os alunos estão realmente estudando de casa e incorporaram as aulas remotas como parte de seu cotidiano. A vida acadêmica deles está fluindo, sem prejuízos”, afirmou Juliana Matos, diretora de Ensino do grupo.

Segundo o Grupo Estácio, as aulas ministradas remotamente ampliaram a presença e participação dos alunos

Ainda segundo Juliana, os alunos continuam organizados de acordo com seus cursos e turmas e têm, online, as mesmas aulas que teriam presencialmente, com seus respectivos professores e de acordo com os horários pré-estabelecidos no calendário acadêmico. As programações são transmitidas ao vivo, com interações de dúvidas e discussões via chat, e ficam gravadas na plataforma para o acesso posterior.

“O curioso é que muitos alunos que são mais envergonhados de participar das aulas presenciais se sentem mais à vontade para perguntar via web. O número de perguntas está maior e os alunos lidam com muita facilidade com a plataforma", explica a Profa. Dra. Tâmara Lis, dos cursos de Jornalismo, Publicidade e Design Gráfico da unidade da Estácio em Juiz de Fora (MG). "É uma geração que gosta do ambiente virtual e está se virando muito bem com o novo formato de aulas”.

No entanto, Adriano Pistore, vice-presidente de Operações Presenciais da Estácio, afirma que este formato não pode ser confundido com os cursos de ensino a distância oferecidos pelas instituições. "Essa é uma situação excepcional e de transição até que tenhamos retorno das aulas presenciais. Não é a oferta dos cursos do nosso portfólio EAD, é uma solução diferente, em que o professor está igualmente escalado para a aula, no mesmo horário, com o mesmo conteúdo. Só a sala de aula é diferente”, declarou. “Nosso foco é garantir a continuidade acadêmica, facilitando a vida do aluno presencial na adaptação para o novo modelo, e também a saúde e o bem-estar dos alunos, professores e colaboradores".

O desafio no ensino público

E se ministrar aulas de forma remota já é algo complicado em ambientes mais estruturados, no ensino público esse desafio é multiplicado. Isso porque a prática exige esforços não apenas das escolas, mas também de uma política pública de ensino que incentive as iniciativas nesse sentido e, tão importante quanto, pense nos (muitos) alunos que não têm acesso à internet.

“Os estados têm lançado mão de estratégias diversas para fazer com que os alunos possam acompanhar as aulas de forma remota, com ou sem acesso à internet”, afirmou Lucas Rocha, gerente de inovação da Fundação Lehmann e colunista do Canaltech. “Em Minas Gerais, por exemplo, a Julia Sant'Anna (secretária estadual educação) está enviando material físico impresso para os alunos que não possuem acesso à internet. Ela também usa o canal de TV estatal aberto (Rede Minas) para a transmissão das aulas. No Rio de Janeiro, temos a Fábrica de Aplicativos, que disponibiliza o material didático em PDF, sem uso do pacote de dados. Essa ação já rendeu mais de 1,5 milhão de downloads”, afirmou o especialista.

No entanto, apesar das estratégias diversas, Lucas afirma que, ainda assim, nem todos conseguirão acompanhar as aulas de forma remota. “Temos de ter consciência de que não atingiremos 100% dos alunos por n motivos. Mas a parte boa do uso da Tecnologia é que podemos monitorar, analisar e mudar muito rapidamente”, declarou. “A própria Fundação Lehmman lançou um fundo de apoio a redes de educação, chamado Movimento de Educação Digital, ajudando-as em como se organizar - no total, apoiaremos apoiará 10 redes municipais e estaduais. E o plano é ampliar esse número em um futuro próximo”, completa.

Já em São Paulo, o governo estadual apelou para a nuvem. A secretaria estadual de educação fez uma parceria com a AWS (Amazon Web Services, a divisão de cloud computing da Amazon), que disponibilizará, sem custos a infraestrutura de servidores e redes o lançamento do Centro de Mídias da Educação de SP.

App do Centro de Mídias da Educação de SP

Essa plataforma permitirá que estudantes acessem gratuitamente aulas ao vivo, videoaulas e outros conteúdos pedagógicos durante o período de isolamento social. O objetivo é atingir os 3,5 milhões de alunos da rede pública. O download do Centro de Mídias SP está disponível para os sistemas Android e iOS. Para ter acesso, estudantes e professores da rede estadual terão de fazer o login com os mesmos dados usados na Secretaria Escolar Digital (SED). O aplicativo foi desenvolvido pela IP.TV e doado à Secretaria de Estado de Educação (Seduc), durante a suspensão das aulas.

A Seduc afirmou que ainda vai patrocinar internet para que alunos e professores da rede tenham acesso aos conteúdos via celular, sem qualquer custo. Para isso, firmará contrato com as quatro maiores operadoras de telefonia: Claro, Vivo, Oi e TIM. Dessa forma, todo estudante da rede poderá desfrutar das atividades do aplicativo sem utilizar o pacote 4G do celular, sinal de internet Wi-Fi, ou mesmo quando estiver sem créditos.

Além da ferramenta que vai viabilizar o ensino presencial mediado por tecnologia, o Governo de São Paulo também fechou um contrato com a TV Cultura, que vai transmitir as aulas por meio do Canal digital 2.3 – TV Cultura Educação.

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