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Review Dragon's Dogma 2 | Falta de foco é o que torna o jogo grandioso

Por| 20 de Março de 2024 às 12h00

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Capcom
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Dragon’s Dogma 2 é um jogo completamente sem foco. Só que, ao contrário do que possa parecer, isso não é um problema, mas sua maior qualidade. O novo game da Capcom é um daqueles RPGs imensos feitos para você se perder e, assim, criar seu próprio caminho. Voltado absurdamente à exploração e na descoberta, ele leva a ideia de liberdade às últimas consequências — para o bem e para o mal.

A liberdade, aliás, é um dos pilares de toda a experiência. Da criação do seu personagem ao modo como você vai encarar uma quest ou enfrentar um inimigo, tudo é feito para que você tenha a opção de fazer do seu jeito, seja ele o melhor ou não. Adicione a isso uma organicidade impressionante e você tem um dos mundos mais vivos que o gênero já viu.

Por isso mesmo, não é demérito algum dizer que Dragon’s Dogma 2 não tem foco. Na verdade, é isso que o torna tão interessante — ainda que, à primeira vista, essas infinitas possibilidades que se desdobram à sua frente possa parecer um tanto quanto sufocante. Mas não demora para você perceber que a graça está mesmo em se perder pelo caminho.

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Liberdade acima de tudo

Eu lembro bem de quando o primeiro Dragon’s Dogma foi lançado em 2012. Naquela época, a ideia de um RPG tradicional feito por um estúdio japonês causou bastante estranhamento e, embora o game tenha sido bastante elogiado pelos fãs do estilo, essa ideia de liberdade plena não funcionou tão bem assim, seja por limitações do PS3 e Xbox 360 ou por algumas decisões criativas. Ainda assim, era uma semente que foi plantada lá atrás e que traz grandes frutos uma década depois.

O novo Dragon’s Dogma 2 é tudo aquilo que o antecessor pretendia ser. Com ideias mais maduras e com meios técnicos que permitem criar a grandiosidade prometida, o jogo é realmente uma grande ode ao RPG clássico, das partidas de mesa, dos mundos infinitos e da possibilidade de agir como quiser. Guardadas as devidas proporções, tudo está lá.

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Essa liberdade total é algo que está presente em todos os aspectos do jogo, da história à jogabilidade. O sistema de vocações retorna reformulado, trazendo mais opções de classes para o seu Nascen. Só que, ao contrário da grande maioria dos RPGs, essa escolha nunca é fixa e você pode trocar a todo momento a profissão do seu herói para experimentar e descobrir qual se encaixa melhor no seu estilo ou qual vai ser mais útil em determinada missão.

Aliás, o game te incentiva a fazer essas trocas e a evoluir as diferentes vocações. Como é possível herdar as aptidões dessas classes, variar o estilo de combate é algo interessante para quem busca um personagem mais versátil e completo. Ao mesmo tempo, quem preferir se aperfeiçoar em um único modelo não vai se sentir prejudicado.

O mesmo acontece com os Peões. Esses NPCs são parte central do universo de Dragon’s Dogma, agindo como aventureiros que viajam por entre mundos para ajudar o Nascen, o herói escolhido pelo dragão. Controlados pela IA, eles podem ser tanto configurados pelo jogador quanto invocados de outros usuários, uma combinação que também cria muitas possibilidades a serem exploradas.

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De início, o jogador cria um Peão que vai acompanhá-lo ao longo de toda a jornada e, em suas viagens, pode sempre chamar outros dois companheiros. E é aqui que vemos novamente essa liberdade total sendo aplicada muito bem à jogabilidade. Assim como no caso do Nascen, o seu Peão também pode mudar de vocação a qualquer momento, ganhando novas habilidades e alternando seu papel nas batalhas. Ele pode ser um Combatente que vai atrair a atenção dos inimigos para que você aja sem riscos ou pode ser um Ilusionista feito para dar suporte.

O mesmo acontece com os demais Peões. No caso deles, a ideia é que você esteja sempre trocando esses companheiros para testar novas estratégias. Como esses parceiros emprestados não evoluem, você é constantemente estimulado a buscar novos aliados, seja nas Fendas que conectam a outros jogadores ou com NPCs aleatórios que encontra pelas estradas da vida.

Em busca das grandes feras

Tudo isso faz com que a jogabilidade de Dragon’s Dogma 2 seja muito boa, sobretudo por estar em constante mudança. Por mais que você se apegue a uma ou outra Vocação, a simples troca dos Peões à sua volta já mexe bastante com essa dinâmica a todo tempo. E é isso que faz com que as grandes lutas fiquem ainda mais interessantes.

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Na época do primeiro jogo, uma das grandes novidades era a possibilidade de escalar os grandes inimigos para acertá-los em pontos específicos — uma mecânica claramente inspirada em Shadow of the Colossus. A ideia que deu tão certo que acabou sendo levada para outros títulos, como Monster Hunter

E é essa mesma mecânica que cria os melhores momentos de Dragon’s Dogma 2. Ao longo de suas viagens, você se depara com criaturas como grifos, ciclopes, quimeras e os tão temidos dragões e a maneira mais eficiente de derrotá-los é não tendo medo de se jogar em cima do perigo.

É aqui que a Capcom difere seu jogo de outros RPGs parecidos. Não espere embarcar em Dragon’s Dogma 2  buscando um Dark Souls ou mesmo Elden Ring. São propostas completamente diferentes, ainda que ambos compartilhem essa temática dark fantasy. Por aqui, as coisas são muito mais ágeis e, como dito desde o início, há um estímulo para que você se arrisque e busque criar suas próprias soluções. 

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Ver um gigantesco grifo descer dos céus em um rasante mortal pode ser assustador, mas também é um convite para que você ao menos tente enfrentá-lo. E mesmo que seu nível não seja lá muito alto, é possível derrotá-lo ou mesmo afugentá-lo se souber como lidar com a fera. Subir em suas costas, procurar os pontos fracos e explorar a combinação de habilidades entre Nascen e Peões é sempre muito divertido e recompensador. 

É isso tudo que faz com que os confrontos contra esses monstros sejam o que há de melhor em Dragon’s Dogma 2. Encontrar essas criaturas é como um prêmio ao tempo que você ficou rodando a esmo pelo deserto ou correndo em meio a riachos e penhascos — nem que seja para, no fim de tudo, você sair correndo desesperado ao ver um dragão se aproximar.

Um mundo orgânico

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Outro ponto de destaque em Dragon’s Dogma 2 é o quanto seu mundo é orgânico. Seja nas cidades ou mesmo no meio da estrada, sempre há algo acontecendo à sua volta para chamar sua atenção. Pode ser um Peão aleatório entrando em combate com um grupo de goblins e precisando de ajuda ou um NPC que te aborda no meio da rua para oferecer uma quest ou comentar sobre algum rumor que vai levá-lo à próxima missão. Até mesmo seus Peões podem querer interagir e levá-lo para um ponto de interesse ou para a próxima missão.

Não é algo inédito, mas funciona tão bem por aqui que é impossível não se encantar em como há vida pulsando em todo lugar. É como se o chamado para a aventura — o ponto de partida da Jornada do Herói — saltasse de todos os lugares. 

É claro que algumas dessas ações não são tão espontâneas assim, mas enganam muito bem. Em outras, é realmente obra do acaso — e é quando você fica ainda mais encantado com as possibilidades que o jogo oferece. Encontrar um grifo e um ogro caindo na porrada no meio da estrada é o tipo de coisa que você para pra ver, nem que seja para esperar uma oportunidade de atacar e coletar a experiência de ambos.

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É nessa organicidade toda que volto a repetir o quanto Dragon’s Dogma 2 não tem foco. E não tem por uma decisão própria, já que a ideia é que você se perca buscando novos caminhos, aceite convites de estranhos ou mesmo busque resolver uma missão da forma menos óbvia possível. É muito provável que você passe horas indo e vindo no mapa enquanto resolve essas pequenas questões sem se lembrar do motivo que te fez sair da cidade pela primeira vez.

Por um lado, é muito legal se perder e usar a liberdade quase total para criar soluções para uma quest. Em determinado ponto, por exemplo, o jogador precisa passar por uma região de fronteira e existem várias formas de conseguir isso. Você pode conquistar o documento que garante a passagem, se esconder em uma carroça para atravessar ou simplesmente dar uma volta enorme por trás dos muros. Ou então, se disfarçar de algum nobre e dar uma carteirada para isso. Opções não faltam.

O peso da liberdade

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Só que toda essa liberdade também cobra seu preço. Embora a falta de foco tenha sido tratada como algo positivo, isso não a isenta de trazer alguns problemas. E a principal delas é que, apesar de toda a grandiosidade que Dragon’s Dogma 2 apresenta, toda a sua narrativa parece não ter peso algum.

Repare como, até agora, não falamos da história do jogo. Porque, sim, há uma trama conduzindo toda essa loucura exploratória que envolve um falso Nascen, uma regente ambiciosa e intrigas palacianas ao melhor estilo Game of Thrones — inspiração que o próprio diretor Hideaki Itsuno confirmou em entrevista ao Canaltech. Só que, sendo bem honesto, nada disso realmente importa.

A liberdade é tão grande no game que a primeira coisa de que ele se livra é da importância dessa trama. Embora ela seja fundamental para desbloquear certos eventos e áreas, ela soa avulsa demais e não engaja o jogador em momento algum. No fundo, a luta para derrubar o falso Nascen soa tão importante quanto a coleta de pele de lobo que um idoso qualquer pediu.

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Parte dessa falta de peso está na própria dinâmica dos personagens. Um protagonista mudo não é novidade em RPGs, mas isso é geralmente compensado pelos NPCs do seu grupo, que dão personalidade à trama e fazem com que as coisas avancem e você se engaje no que está sendo contado. Só que, com os Peões, isso não acontece. Eles falam coisas aleatórias só para preencher o vazio e, no fim das contas, parece apenas que é uma IA soltando frases soltas e sem muito nexo.

Há também um exagero nessa organicidade do mundo. Enquanto é legal ver o efeito do tempo em certas coisas — um dragão morto vai, com o passar dos dias, apodrecendo no meio da estrada ou algum aldeão vai aparecer para queimar o cadáver —, é um saco ter que ficar administrando seu inventário a todo momento para evitar que a comida estrague ou perca sua eficácia. É o tipo de microgerenciamento inútil que mais atrapalha do que diverte.

Da mesma forma, a ideia de fazer com que esse mundo tão vasto e gigantesco seja sempre aproveitado ao máximo fez com que a Capcom limitasse o uso do fast travel. Existem algumas maneiras de cruzar rapidamente o mapa, mas ou custam recursos e são muito restritas, precisando ativar pedras específicas para funcionar, ou acabam não resolvendo muito sua vida. Afinal, andar de carroça pode quebrar um galho, mas não muito quando as rotas são muito específicas ou podem ser interrompidas por um ataque de um ciclope.

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Dragon’s Dogma 2 vale a pena?

Não há como negar que Dragon’s Dogma 2 é um RPG com muita substância, daqueles que você sempre encontra algo para fazer e sempre se surpreende com algo novo que surge em seu caminho. É um mundo vasto em que o chamado para a aventura é constante e salta de todos os cantos, até dos mais improváveis. 

É uma liberdade e organicidade tão grande que é fácil entender por que essa falta de foco não é algo inteiramente problemática. Na verdade, é algo que faz muito bem para o jogo em si, pois é nesses desvios de rota que estão as descobertas e os melhores momentos do game.

Ao mesmo tempo, há um esvaziamento da narrativa que pode incomodar alguns jogadores. Fica claro que a Capcom focou todos os seus esforços em uma jogabilidade que engaja e convida o jogador a desbravar cada canto desse universo, mas há um preço a se pagar por isso. Se você é alguém que quer apenas embarcar em mil aventuras, certamente não vai se incomodar com a história diluída e sem peso. Contudo, os jogadores de RPG que se apegam mais às tramas podem sentir falta desse algo a mais por aqui.

Ainda assim, não há como dizer que Dragon’s Dogma 2 deixa a desejar em aspecto algum. Ele é um jogo incrível e grandioso que acerta demais em colocar a liberdade no centro da experiência. Mais do que isso, que faz jus a uma franquia que sempre deixou bem claro seu potencial, mas que só precisava do tempo certo para aflorar.

Dragon's Dogma 2 chega no dia 22 de março para PlayStation 5, Xbox Series X/S e PC.