O que a saída de Phil Spencer e Sarah Bond do Xbox significa para você, jogador?
Por Diego Corumba • Editado por Jones Oliveira | •

Na última sexta-feira (20), o público foi surpreendido por uma notícia catastrófica: Phil Spencer e Sarah Bond deixariam a divisão Xbox, para novos executivos assumirem suas posições e todos os negócios em gaming da Microsoft de imediato.
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Esta dança das cadeiras corporativas é comum, mas impactou bastante a comunidade. Afinal de contas, Spencer era o responsável por tudo que o Xbox se tornou ao longo dos anos. Ele trabalhava na companhia há 38 anos e tinha uma relação muito próxima com os fãs da marca.
Enquanto isso, apesar de não ser amada pelo público, Sarah Bond já tinha começado a criar uma conexão maior com os jogadores — ela foi o rosto da renovação da parceria com a AMD, tentou tranquilizar em momentos conturbados e foi a responsável pela “nova era” com o ROG Xbox Ally.
No entanto, essas saídas devem causar uma alteração ainda maior no caminho da marca e de toda a indústria dos jogos eletrônicos. Nós do Canaltech mostraremos para você o que ela significa no meio dos negócios e como ela vai afetar a todos — inclusive jogadores do PlayStation e Nintendo — confira:
A importância de Phil Spencer e Sarah Bond
Antes, é preciso mensurar o trabalho de Phil Spencer e Sarah Bond dentro do Xbox. Os dois não foram responsáveis por “pouca coisa” e impactaram de forma significativa como toda a indústria de games caminhou por mais de 25 anos.
Phil Spencer é uma lenda viva e não dizemos isso apenas pelo seu trabalho com os consoles da Microsoft. Os primeiros CD-ROM proprietários da companhia, por exemplo, estavam sob a sua responsabilidade.
Com o lançamento do Xbox em 2001, ele começou sua trajetória como diretor geral da Microsoft Game Studios EMEA e trabalhava principalmente com estúdios europeus como a Rare. Desde então, ele seguiu cada vez mais envolvido com o lançamento de jogos e dos hardwares.
Quando Halo surgiu e fez sucesso, ele estava lá. O executivo auxiliou o nascimento do próprio Xbox, esteve próximo quando foram lançados o Xbox 360 e Xbox One, assim como foi o maior responsável pelo surgimento do Xbox Series em 2 edições: uma apenas digital e outra com leitor de disco.
Foi Spencer que brigou pelo crossplay, pela retrocompatibilidade, que concebeu o Xbox Game Pass e que iniciou a trajetória multiplataforma de disponibilizar seus principais títulos também no PS5 e no Nintendo Switch — isso sem mencionar a aquisição da Bethesda, Activision e Mojang.
Já a trajetória de Sarah Bond na marca é mais curta, mas não menos impactante. Ela entrou na Microsoft em 2017 e não demorou para alcançar a posição de vice-presidente corporativa da experiência de criadores de jogos e ecossistema, o que trouxe bastante destaque para a sua liderança.
Se a Microsoft foi bem-sucedida na compra da Activision Blizzard, foi graças à sua presença nos tribunais para brigar com a Federal Trade Commission (FTC) e outros órgãos reguladores. Logo depois, em 2023, ela se tornou a nova presidente do Xbox.
Na prática, Bond que projetou a renovação da parceria da AMD — que tem durado longos anos e é responsável pelos seus hardwares serem os mais poderosos entre os consoles — e fechou acordos inéditos como o feito com a ASUS, que mergulhou a plataforma nos portáteis com o ROG Xbox Ally.
Um caminho tortuoso
Os fãs não estavam felizes há algum tempo e razões não faltavam: jogos exclusivos lançados em grandes intervalos e, quando chegam, também saem nos videogames da concorrência. Aumentos no preço da assinatura do Xbox Game Pass, sumiço do Xbox Series e várias outras questões incluídas.
A campanha “Isso é um Xbox” se tornou motivo de memes e piadas, isso sem mencionar as polêmicas como a confusão sobre a produção de seus próprios hardwares e o descaso com estúdios emblemáticos como a Rare — assim como o fechamento de outros importantes. A confusão era grande demais.
Nunca ficou claro se Phil Spencer e Sarah Bond que criaram todo este cenário ou se foram ordens superiores na Microsoft, mas a sensação que permanece é igual ao ditado “ruim com eles, será pior sem eles”.
Até porque o trabalho deles era próximo à comunidade, ambos jogam videogame com frequência e sabem a importância que seus atos carregam dentro desta indústria. E a visão do futuro não parece ser tão agradável.
A estratégia Xbox
No lugar de Phil Spencer vai assumir a executiva Asha Sharma, que será a nova CEO da Microsoft Gaming. Antes disso, ela era responsável pela divisão CoreAI — formada em 2025 para desenvolver softwares e ferramentas de inteligência artificial.
É costume dizer que nunca se deve questionar a capacidade de um profissional antes de vê-lo em ação, mas o currículo dela é temível por nunca ter passado por qualquer companhia da indústria de jogos. Ela já trabalhou em empresas como a Meta, Instacart e The Home Depot, por exemplo.
Em um momento tão delicado do Xbox, faz sentido remover os principais nomes que entendem a marca e inserir na liderança uma executiva de IA? Muitos já clamam o apocalipse e que este será o derradeiro fim de todo o ecossistema criado em mais de duas décadas.
De acordo com o próprio CEO da Microsoft, Satya Nadella, ela foi escolhida por ser uma líder capaz de “construir e ascender serviços”, que pode “alinhar modelos de negócio para agregar valor a longo prazo” e “operar em escala global”.
Isso significa que ela não está ali pelos jogos. Talvez essa seja a menor das preocupações da companhia para o Xbox. Asha Sharma vai reformular o modelo de negócio que hoje conta com o Game Pass e Cloud Gaming. Vale notar que ela criou a sua gamertag no ecossistema em janeiro de 2026.
Se acalme, ela não vai exterminar o que já deu certo. Porém, ela deve seguir uma direção diferente da vista por Phil Spencer e Sarah Bond para que a marca alcance locais diferentes, de acordo com a estratégia que visam.
Ainda é cedo para dizer que a Microsoft quer que o Xbox vire uma “produtora” ou que vão enfiar inteligência artificial em tudo. Contudo, o objetivo é que todo o ecossistema se torne cada vez mais rentável e multifuncional.
E ela não estará só nesta jornada. Matt Booty, que era o chefe da Xbox Game Studios, assumiu a posição de diretor de conteúdos dentro da marca. Enquanto uma lidará com o lado corporativo e dos negócios, ele quem vai ser o rosto para os games —- tanto entre os fãs quanto dentro da indústria.
A própria Sharma já assumiu que a ideia é deixá-lo à frente das decisões que envolvem este cenário: “Booty entende a arte e os desafios de construir grandes jogos”. O que isso quer dizer? Que, quando você for cobrar, terá de brigar com ele e não com ela.
No “corporativês”, o que isso tudo significa?
Em termos claros e muito diretos, não foi revelada a verdadeira razão pela qual a Microsoft fez toda essa movimentação. No entanto, dá para se compreender muito dentro das entrelinhas que foram deixadas no caminho.
Uma delas é que a companhia precisava tirar Phil Spencer e Sarah Bond do caminho. Seja por discordância nas decisões, para implementar ideias que eles eram contrários ou apenas por não gostarem da rota que ambos guiavam a marca nos últimos anos e gerou diversos problemas.
Mesmo sem dizer nada sobre o tema, Spencer servia como um dos melhores “para-raios” do Xbox. Por conhecer a comunidade e o anseio dos fãs, é certo que o executivo redirecionou muitas ideias ruins para algo “menos” danoso aos fãs.
Não espere o mesmo tratamento dos novos responsáveis. Enquanto a estratégia às claras pode ser uma “nova direção”, aos chefões da Microsoft pode ser apenas um “estes obedecem sem questionamentos”. Pessoas fiéis à política corporativa, não ao público. E é aí que começa o sofrimento.
Outra questão é a inconformidade com o prejuízo que o Xbox apresentou ano após ano. Como dissemos, a situação era caótica e a tendência seria piorar — no entanto, sem sinal claro de que os responsáveis por isso seriam Phil Spencer e Sarah Bond ou a própria Microsoft.
Ela é uma multinacional poderosa, quer lucros e métricas altas em tudo. O objetivo é ter cada vez mais grana no bolso. É assim que o capitalismo funciona, diga-se de passagem. E, na mente da liderança da corporação e dos seus acionistas, os dois executivos supostamente atrapalham o caminho.
Podem ser bons líderes, excelentes companheiros de trabalho e visarem uma trajetória “utópica” com o Xbox. Porém, se não dá dinheiro o suficiente na visão da companhia, isso não basta. Asha Sharma vai trazer mais grana, enquanto Matt Booty deve “segurar as pontas” com os estúdios internos.
E onde eu paro nisso?
Até o momento, a Microsoft não anunciou nenhuma alteração da forma como eles operam a marca Xbox, mas isso não deve demorar muito a acontecer. A médio e longo prazo, as coisas devem se tornar ainda piores para os fãs.
A companhia precisa de retorno financeiro, já que a compra da Activision Blizzard, Bethesda e diversas outras não foram baratas. E como isso se resolve? Aumento no preço dos games, serviços e dos próprios hardwares.
Lembra o papo de que o Xbox Magnus será um “console premium”? Este é um dos passos que eles darão nesta direção. Se GTA 6 chegar a R$ 600 em seu lançamento, nada os impedirá de aumentar o preço dos jogos first-party e “seguir o embalo”.
No último mês de outubro vimos um grande aumento no Xbox Game Pass, mas se prepare para novos acréscimos em 2026. Além disso, rumores circulam sobre o fim do plano PC Game Pass, o que deve unificar a oferta em definitivo para quando o videogame se oficializar também como computador.
É bom preparar o seu bolso, pois o objetivo da Microsoft com toda a movimentação é bem claro: ganhar mais dinheiro. E quem pagará por isso seremos todos nós.
Não ria ainda se está fora do caos
Caso a companhia siga o caminho ruim com o Xbox, não serão apenas os fãs da marca que vão se prejudicar com isso. Será toda a indústria de jogos, inclusive quem compra videogames de outras fabricantes.
Vamos supor aqui o “pior final possível” e ela interrompa a produção massiva de hardwares. Se torne uma produtora, como foi o caminho seguido pela SEGA nos anos 2000. Isso significa que a Sony se tornaria um “monopólio”.
Os riscos envolvidos nesse trajeto são altíssimos, já que eles podem arbitrariamente aumentar os preços, aplicar práticas danosas ao público e ninguém teria uma outra opção dentro dos videogames caseiros.
“Ah, mas a Nintendo…”, vamos colocar os pingos no i: a Big N segue o seu próprio caminho. Desde o GameCube vs. PS2 que ela não disputa espaço com o PlayStation. Eles não serão concorrência, no máximo “oposição”.
Você pode comprar um Nintendo Switch 3 ao invés do PlayStation 6 no futuro? Claro que sim. Porém, quem joga GTA, God of War, Halo, Assassin’s Creed sabe que a preferência é consoles da Sony, Microsoft e PCs.
Se não tiver um computador potente, imagina ter de pagar caro — com valores baseados em dólar e cobrança de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) — a cada aquisição apenas no PlayStation? É isso que veremos sem a Microsoft por perto.
A torcida é que Asha Sharma e a nova equipe na frente do Xbox acerte e reconquiste todo o mercado perdido nas últimas décadas. No entanto, a indústria de jogos é bem avessa ao otimismo e pior que está, fica sim.
Caso não dê, a estrutura se tornará insustentável e vai cair. E se isso acontecer, pode chorar os fãs da marca, os donos de um PS5 e todos os demais. Porque a situação se tornará ainda mais descontrolada e adivinha quem vai segurar o maior peso da corda? Exatamente, você.
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