For Honor: promissor, mas infelizmente não ficou tão bom [Análise]

Por Leandro Souza | 22 de Março de 2017 às 13h45
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A ideia em si parece promissora até por demais: uma espécie de MOBA (Multiplayer Online Battle Arena) com mecânicas de hack and slash que coloca guerreiros medievais contra vikings contra samurais. Quando For Honor foi apresentado pela primeira vez na E3 de 2015, parecia que a Ubisoft teria uma nova e inovativa franquia em suas mãos. O hype do jogo continuou em 2016 em mais uma apresentação de E3, e a ansiedade de alguns jogadores teve data para acabar, quando foi anunciada a data de lançamento do título.

E eis que, no final do mês passado For Honor atingiu as lojas, prometendo muita violência, execuções e batalhas eletrizantes em multiplayer, assim como uma campanha solo satisfatória. Mas será que a empreitada da Ubisoft Montreal realmente entrega aquilo que foi sugerido?

Bem, vamos com calma.

A arte da guerra?

Em sua essência, For Honor pode ser considerado um game de batalhas multiplayer, em que os jogadores podem escolher entre diferentes categorias de guerreiros, todos eles podendo ser cavaleiros medievais, vikings ou samurais. É uma mistura historicamente improvável, mas interessante o suficiente para instigar os mais interessados em experimentar algo novo. E de fato, em sua instância multiplayer online, For Honor consegue ser bastante inovativo e empolgante por um determinado tempo.

Por quê estou dizendo que a essência do game é o multiplayer? Bem, logo ao dar o boot no disco, é possível ver que a Ubisoft não pensou no game como uma experiência possível de ser aproveitada em modo offline. Está desconectado da internet? PRATICAMENTE NÃO TEM JOGO, nem campanha single player. É verdade. Então, vamos ser coerentes: For Honor é sim um game multiplayer online, então vamos avaliá-lo pelo que ele realmente é - mas não se preocupem, vou falar também do modo solo.

Lutas e violência são a alma dessa nova franquia da Ubisoft, portanto não errado dizer que For Honor basicamente se sustenta em torno de seu intrincado sistema de combate. O jogo convida o gamer a equilibrar movimento, defesa e posturas de ataque para sobreviver em seu cruel universo. Saber posicionar sua arma no ângulo correto é chave para conseguir bloquear os ataques inimigos, assim como acertar os golpes. Apesar de relativamente complexa, não demora muito tempo para pegar a manha dos comandos, que se aplicam mais ou menos da mesma forma para os diferentes tipos de guerreiros.

Isso não quer dizer também que cada categoria e facção de combatente não tenham as suas peculiaridades. Um viking com um machado não tem a mesma velocidade que um samurai e sua katana, por exemplo. Cada facção - samurais, cavaleiros ou vikings - possuem quatro tipos de heróis (sim, eles são chamados de heróis), com opções mais equilibradas, algumas mais fortes e resistentes, porém lentas, e outras mais velozes e ágeis, porém com menor poder de ataque e resistência. Cada uma das facções também possuem uma opção feminina - como as valquírias nos vikings, o que dá um toque interessante, por assim dizer.

Essa variedade de personagens parece interessante em um primeiro momento, e é possível customizar ainda mais o seu guerreiro ao escolher suas cores de guerra, brasão e visual. À medida que o jogador sobe o seu nível, outros itens, habilidades e opções também são desbloqueadas, o que mantém a jogabilidade ricas por algum tempo. Mas até aí tem algo que já torna o aproveitamento do jogo: microtransações. O "pay to win" está presente em For Honor, o que pode ser algo bem chato para quem quer curtir as batalhas numa boa. Alguns talentos e armas de personagens são praticamente impossíveis de conseguir sem puxar o cartão da carteira.

Enfim, entendeu a razão pela qual não pareço empolgado ao falar de For Honor? Depois de um tempo com o jogo da Ubisoft, as dinâmicas de batalha não se provam empolgantes o suficiente para conquistar o jogador por um longo tempo, o que é um crime capital em um jogo que se apresenta como um título multiplayer. Resumindo: ele não tem a capacidade de gerar um grau de vício "nível Call of Duty" em seus jogadores. Ah, quase me esqueci: já faz cerca de um mês que o game foi lançado, e os servidores ainda tem sérios problemas no pareamento de jogadores online. Sei que isso é algo que pode ser corrigido, mas é uma falha grave que atrapalhou a experiência durante a análise do título.

Um dos motivos para isso é o rápido desgaste de suas dinâmicas de combate. Mesmo com a variedade de personagens, depois de um tempo se nota que pouco muda em meio às batalhas. Sim, existem diferentes modos competitivos, mas o miolo delas é praticamente idêntico: elimine alguns NPCs e busque o objetivo, o que envolve batalhas contra os guerreiros (digo, heróis) controlados por outros gamers. E até nesse momento, o jogo é menos empolgante do que se espera. Algumas lutas podem até ser tensas, mas elas não parecem profundas o suficiente em termos de jogabilidade, ficando apenas em um vai e vem de defesa e ataque.

Até entendo que essa abordagem mais lenta e estratégica de combate sirva para passar uma impressão de realismo ao game, mas daí ela fica no meio do caminho em realmente abraçar essa proposta. Porquê então não adotar o caminho Bushido Blade (se você não conhece esse game, pesquise) e implementar instant kills mais realistas ou imobilizar partes do corpo do oponente de acordo com os golpes acertados? Ah, e as execuções: poxa Ubisoft, em um game que se propunha a ser selvagem, ficar com animações tão mansas nas execuções é um crime quase imperdoável.

Enfim, não tô dizendo que é ruim, mas infelizmente não ficou tão bom.

Faltou tempero

Essa "falta de sal" também se aplica ao modo single player do título. O game até conta com uma campanha elaborada, durando cerca de seis horas e que se divide nos pontos de vista das três facções. Entretanto, apesar de decente, a trama funciona mais como um tutorial glorificado para as dinâmicas de combate do game do que exatamente uma história que faz o jogador ficar interessado nos personagens e suas ações. Claro que é legal passar por diversas fases e inimigos quebrando tudo, mas toda essa movimentação se perde em meio a objetivos genéricos e personagens totalmente rasos.

For Honor também não impressiona muito aos olhos. Os gráficos não chegam a ser ruins e fazem bom uso do hardware da nova geração, mas eles pecam na falta de foco e personalidade. Sei que a idade média não era exatamente uma época muito bonita, mas ao jogar For Honor a impressão é que tudo parece meio igual, salvo em um ou outro momento em que o game ousa um pouco mais, como nos combates sobre lagos congelados, nos quais uma luta pode ser perdida ao cair na água gelada, ou em grandes batalhas campais em campos abertos. De resto, nada é assim tão marcante, infelizmente. Quanto ao som, o jogo é apenas ok, em que cada personagem possui frases personalizadas e é possível cornetear seus oponentes com isso. O lado bom dessa história é que a Ubisoft continua com seu capricho com os fãs brasileiros e o game está 100% em português.

Eu quis gostar do jogo, eu realmente quis

Quando For Honor chegou às minhas mãos, eu estava bastante empolgado com a proposta do título, mesmo após jogar a não muito animadora versão beta do jogo. E mesmo após passar semanas jogando a versão final do título, terminando seu modo single player e anotando pelo menos uma dezena de horas em seu modo multiplayer, é possível ver o imenso potencial que ele sugeriu em sua apresentação há dois anos atrás.

Então, o que faltou? É difícil apontar ao certo, mas a palavra que me veio na cabeça para esta explicação é: PERSONALIDADE. Apesar de ter dinâmicas interessantes de combate assim como um conceito muito bacana e original para combates multiplayer, parece que a Ubisoft Montreal não aproveitou a premissa ao máximo, não deixando de criar um game admirável, mas que nunca se torna, de fato, um bom jogo. Parece uma sina recente da Ubisoft em seus primeiros capítulos de novas franquias. Assssin's Creed 1 foi um jogo medíocre para se tornar excelente em seu segundo jogo, assim como Watch Dogs 2 fez a mesma coisa no ano passado.

É preciso comendar a Ubisoft por apostar em um novo estilo de jogo, que ainda pode crescer muito caso uma continuação esteja em seus planos futuros. O potencial está ali, e For Honor 2 pode ser um grande jogo, caso a publisher consiga calibrar os pontos positivos do primeiro jogo e corrigir as falhas. Mas por enquanto, não deu.

Nota: 5,5

*A cópia de For Honor para Xbox One usada nesta análise foi gentilmente cedida pela Ubisoft Brasil.