Watch Dogs 2 é (bem) mais que o melhor jogo open world de 2016 [Análise]

Por Leandro Souza | 26 de Dezembro de 2016 às 14h35
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Afirmar que Watch Dogs 2 é o melhor game de mundo aberto lançado em 2016 não chega a ser uma afirmação tão absurda assim, ainda mais levando em conta que pouquíssimos (ou praticamente nenhum) outros games relevantes do tipo chegaram ao mercado em 2016. Entretanto, depois da retumbante decepção que foi o primeiro jogo da franquia, lançado pela Ubisoft em 2014, muitos jogadores ficaram um tanto reticentes quanto à continuação, que trocou a urbaníssima Chicago pela vibe mais solta de San Francisco e o Vale do Silício, na Califórnia.

Depois de exibições bem-sucedidas na E3 e avaliações positivas de muitos jogadores que tiveram acesso antecipado ao game, assim como uma campanha de marketing bem menos espalhafatosa que a do primeiro game, Watch Dogs 2 chegou em novembro com um expectativa menor que a de seu antecessor, mas os jogadores resolveram dar um novo voto de confiança para a Ubisoft, o que no final das contas compensou para aqueles que levaram o game pra casa.

Definitivamente, Watch Dogs 2 é um avanço em relação ao primeiro game da série, entregando diversas das promessas que a Ubisoft falhou em 2014, talvez por motivos de desenvolvimento - vale lembrar que o primeiro título da franquia foi um título multi-geração, com versões para PS4, PS3, Xbox One e Xbox 360, o que nem sempre é um bom plano, ou mesmo um monte de ideias mal aproveitadas pela desenvolvedora.

Enfim, Watch Dogs 2 está entre nós e é bem melhor que o primeiro. Entretanto, considerar esta continuação apenas um avanço na série pode ser um equívoco. Watch Dogs 2 é bem mais que o melhor jogo de mundo aberto lançado em 2016. Ele é tranquilamente uma das melhores experiências single player do ano. Aqui vão alguns motivos para isso.

1 - San Francisco

A Ubisoft não poderia ter tomado uma decisão mais acertada ao trocar Chicago por San Francisco - e suas cidades vizinhas do Vale do Silício - para ambientar o novo capítulo de sua franquia. Uma das cidades mais charmosas dos Estados Unidos, San Fran vibra em sua variedade de locais, desde locais mega urbanos como o Financial District, Chinatown, passando por bairros clássicos como o Castro e Haight-Ashbury e cartões-postais como a Lombard Street (aquela famosa rua curvada), Golden Gate Bridge e o Pier 39. Passear pelas ruas do (enorme) mapa do jogo nunca se torna um tédio em Watch Dogs 2, pois os belíssimos gráficos e o design do cenário funcionam que é uma beleza. Para quem já chegou a visitar San Francisco, então, a riqueza de detalhes chega a assustar - cheguei a reconhecer ruas e pontos nem tão turísticos nos mapas.

Todos os pontos famosos da cidade e sua arquitetura única estão retratados de forma fiel e são integrados de forma brilhante nas missões do game. Isso vale tanto para as missões principais do jogo, que levam a pontos como o campus do Nudle (GOOGLE, ALGUÉM?) e outros prédios famosos de empresas de tecnologia que são bem fáceis de reconhecer, apesar dos nomes trocados por motivos óbvios. Além disso, o jogo tem missões alternativas que envolvem tirar selfies em pontos turísticos conhecidos da cidade, algo que incrementa ainda mais à imersão do game em seu impecável cenário.

2 - Marcus Holloway é bem mais legal que Aiden Pierce

Ok, até admito: Aiden Pierce foi um bom protagonista no primeiro game da série - a bem da verdade, ele era um bom personagem a serviço de uma história um tanto decepcionante. Entretanto, ao apresentar o hacker Marcus Holloway, protgonista do novo jogo, Watch Dogs 2 adquiriu um tom mais irreverente e ágil, o que combinou com a nova ambientação na Califórnia. Combinado com os novos coadjuvantes do Ded Sec, grupo hacker já apresentado em WD1, Holloway traz uma bem vinda "malandragem" à jogabilidade, personificando de forma certeira o papel de "fora da lei do bem" que o jogo precisa ter, algo que Grand Theft Auto, o pai de todos os games open world, faz com destreza. Ao criar Holloway e o novo Ded Sec para Watch Dogs 2, a Ubisoft acertou os personagens com a história e a ambientação, algo que o primeiro game não conseguiu - e muitos jogos de mundo aberto, na verdade, falham em fazer.

Ah, antes que eu me esqueça: a dublagem brasileira do jogo está ótima, preservando a personalidade do protagonista e NPCs. Os jogadores brasileiros não foram deixados na mão.

3 - Missões, mecânicas de jogo variadas e bem desenhadas

Esta foi a falha fatal do primeiro Watch Dogs. Um jogo que prometeu diversas possibilidades na sua jogabilidade, mas falhou em entregar a maioria delas. Desde a parte dos hacks - que era pra ser o grande diferencial - até partes básicas como missões, combate e direção dos carros, o game apresentava falhas, o que fez muitos gamers abandonarem o título muito antes de terminá-lo. Pois bem, a Ubisoft aprendeu a lição em Watch Dogs 2.

O novo título realmente redesenhou praticamente todas as suas mecânicas de jogo, com melhor controle dos carros, melhor combate físico e armado (tudo bem que não é assim, uma maravilha, mas pelo menos NÃO INCOMODA), e definitivamente, a variedade de missões e opções de hack que se esperava no primeiro jogo. Além disso, a Ubisoft aproveitou ao máximo o cenário de San Francisco, Vale do Silício e seu significado como um pólo tecnológico global para desenhar missões criativas e diferentes entre si, que vão escalando em complexidade (às vezes até demais) à medida que o jogo avança. Lembra do uso do smartphone em GTA V? Pois é, Watch Dogs 2 faz isso de forma ainda melhor, aproveitando aplicativos como fontes e complementos para missões - aliás, o título faz até uma brincadeira com Driver: San Francisco, outro título da Ubisoft, para missões no estilo motorista de Uber (outra empresa criada em San Francisco).

Ainda vale citar o aspecto online do game, que permite se juntar a sessões de outros jogadores e fazer missões em cooperativo, o que cria desafios absolutamente gigantescos para encarar com uma turma de amigos. Também como é possível invadir o jogo de terceiro e tentar hackeá-los em busca de boas recompensas. Aliás, quando alguém invade o seu jogo e tenta hackear você, o jogo traz uma emoção extra absolutamente DO NADA.

Claro que toda essa preocupação com boas missões também caminha de mãos dadas com uma melhor história, mas é inevitável constatar que o jogo fez o principal: acertou a jogabilidade e variedade de interação com o seu mundo aberto. Sem isso, não há bons personagens, gráficos ou cidade que ajude.

4 - Levanta discussões reais

Na minha opinião, este é o motivo que fez a diferença para Watch Dogs 2. Se o primeiro game era essencialmente uma história de vingança pessoal incrementadas com tramas de conspiração e interesses escusos de grandes corporações tecnológicas, o segundo parte de uma trama mais ampla para gradualmente tornar ela cada vez mais pessoal. É um caminho inverso, mas que funciona de forma muito mais impactante. A introdução já parte de um preocupante aviso sobre os tempos em que vivemos e a inevitável vigilância digital que cada um de nós encara no uso da tecnologia. Ao longo das missões, mesmo com toda a diversão apresentada, Watch Dogs 2 mantém um tom consistente (e real) de crítica, que vai se aprofundando à medida que a história vai adiante rumo à sua conclusão. Bancos, Redes sociais, drones, sistemas conectados em casas e instalações urbanas: tudo entra mira da história e crítica do jogo.

Mais do que uma história interessante, Watch Dogs 2 usa sua premissa para fazer um comentário intrigante sobre as tecnologias atuais e como elas interferem diretamente em nossas vidas. Mesmo que o jogo possa ser visto apenas como um objeto de entretenimento - departamento no qual ele se sai muito bem - é legal ver um jogo trazer discussões pertinentes à nossa vida - afinas de contas, somos usuários pesados de tecnologia e às vezes não estamos cientes do quão comprometidos com ela nós estamos.

5 - O verdadeiro início para uma franquia

Em Watch Dogs 2, a Ubisoft conseguiu "puxar" um novo Assassin's Creed 2 - um game que aproveitou um monte de boas ideias desperdiçadas no primeiro título e criou um produto renovado, com o potencial de se tornar uma franquia de sucesso. A Ubisoft Montreal aparou todas as arestas necessárias e melhorou o que o primeiro game já apresentava de bom, entregando um produto com todo o potencial de ser um sucesso. Talvez a reação negativa com o primeiro jogo fez a Ubisoft não pisar tanto no acelerador quanto ao marketing de WD2, mas se o plano era de recuperar a reputação da série para preparar o grande lançamento com um terceiro capítulo mais na frente, o caminho está livre.

Isso vale tanto para a história, que expande o universo em torno dos interesses malévolos da Blume Corporation, assim como estabelece de vez um tom narrativo para o seu universo e o grupo hacker Ded Sec. Em seu segundo capítulo, a franquia Watch Dogs adquiriu sua personalidade própria, e isso vai além da parte dos hacks e viés tecnológico em sua jogabilidade. Espero ansiosamente por Watch Dogs 3. Que tal em Nova York? Seattle, de repente?

Nota: 8,5

*A cópia de Watch Dogs 2 para Playstation 4 usada nesta análise foi gentilmente cedida pela Ubisoft. O game também está disponível para PC e Xbox One.

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