Análise | Gears 5 é visceral, intenso e esplendoroso

Por Felipe Ribeiro | 09 de Setembro de 2019 às 10h34

Ao ler as primeiras impressões sobre Gears 5 antes de ter o game em mãos, confesso que criei uma expectativa enorme. Desde Gears of War 3 os fãs da franquia clamavam por mudanças, não tão drásticas, é verdade, mas que dessem um frescor necessário a uma série que já estava consolidada como uma das maiores da indústria.

Eis que, no primeiro jogo após a entrada da The Coalition para o Xbox Game Studios, podemos dizer sem qualquer receio que Gears 5 é tudo aquilo que os fãs desejavam. Com um enredo muito mais profundo e tenso, melhorias de jogabilidade, gráficos de cair o queixo e inclusão de novos elementos de progressão, o game pode ser considerado o melhor desde Gears of War 2, tido por muitos como o melhor da franquia.

Não se preocupe. Esta análise não contém spoilers.

A vida é feita de escolhas?

Todos já sabem que Gears 5 vai se passar em torno de Kait e sua corrida para descobrir sua origem e relação com os Locust, mas, antes que entremos um pouco mais nessa seara, é necessário destacar como a história desse jogo foi muitíssimo bem construída não apenas para a protagonista, mas também para alguns outros personagens.

Este é o primeiro Gears que vemos uma ação dominada pela “nova geração” do esquardão Delta da CGO (Coalizão dos Governos Ordenados). Apesar das idas e vindas, e episódios que vão te deixar com ainda mais raiva de JD Fenix (desta vez por motivos diferentes dos de Gears 4), ver Kait, JD, Del e Fahz nas missões sem qualquer membro antigo participando em primeiro plano já indica que um reboot para a próxima geração pode ser descartado, em um primeiro momento.

Mas, claro, tal qual aprender a andar de bicicleta, não dá para colocar a “criança” para andar sem as rodinhas primeiro. Por isso, de maneira muito divertida e “aconchegante”, por assim dizer, Marcus Fenix, Cole Train e Damon Baird participam da aventura dando todo o suporte aos seus pupilos.

Para onde vamos? (Captura de Tela: Felipe Ribeiro)

Em Gears 5, a The Coalition fez questão de mostrar que já pensa nos próximos títulos da franquia ao rejuvenescer a equipe que sai dando tiro em Swarms por aí. E isso é muito bom, pois nos dá aquela sensação de renovação, de que ainda há muito o que acontecer com os Gears.

Pegando carona no nosso intertítulo, a pergunta é muito pertinente: a vida é feita de escolhas? Pois bem, em Gears 5, ela é – mais do que nunca. Desde os eventos de Gears 4, Kait nos foi apresentada como uma personagem cheia de mistérios e ávida por saber sua origem. E não é novidade para ninguém que ela conseguirá descobri-la em Gears 5. A questão, no entanto, é que as decisões tomadas por ela afetam não apenas a si, mas também a seus companheiros de esquadrão Delta.

Pode parecer meio pretensioso que apenas uma pessoa possa escancarar problemas e controvérsias da CGO e dos demais nomes dessa história, mas a maneira como a The Coalition encaixou tudo é digna de elogios. Como dissemos acima, esse capítulo de Gears, talvez, só perca mesmo para o de Gears 2.

Kait descobre muitas coisas "estranhas" da CGO (Imagem: Captura de Tela/Felipe Ribeiro)

Por motivos óbvios, não vamos dar detalhes sobre o enredo porque Gears 5 é de fundamental importância para os rumos da franquia. O número de surpresas é tamanha que não é possível, sequer, começar a abordar essas questões de maneira indireta. Apenas joguem — e, sim, vocês vão ouvir muito isso daqui para frente.

Mudanças fundamentais

O frescor de Gears 5 não está presente apenas em seus personagens, mas na maneira como você evolui no jogo. A começar pela inclusão de elementos bem leves de RPG, que aparecem logo nos primeiros minutos do Arco 1.

Em um primeiro momento, parte da aventura se dará apenas com Kait Diaz e Delmont Walker, que terão em sua companhia um aliado um tanto quanto exótico: o robô voador Jack, criado por Baird, auxiliará os Gears em sua jornada o tempo todo. Ele possui ferramentas ativas e passivas que são essenciais para a sua progressão, como escudos, armas de choque, aditivos de invisibilidade e até mesmo controle de inimigos. Ele também pode pegar armas que estão longe e reviver companheiros de esquadrão (incluindo você).

O jogador pode aperfeiçoá-lo durante a campanha ao achar peças chamadas de “componentes”, que estão espalhadas pelo mapa. Além disso, as habilidades de Jack são utilizadas não apenas em combate, mas também para situações bem específicas de progressão, como abrir portas trancadas e energizar laboratórios.

Árvore de habilidades de Jack (Imagem: Captura de Tela/Felipe Ribeiro)

A adição de Jack me faz pensar se tirá-lo em um próximo jogo será uma atitude sábia, pois consigo imaginar, sinceramente, como será jogar Gears de novo sem que o robô esteja presente.

Mundão semiaberto

Outra adição em Gears 5 que lembra muito os RPGs é o mundo semiaberto. Diferente dos outros games da franquia em que éramos colocados nas missões entre as cut scenes, neste aqui nós mesmos é quem vamos na direção dos nossos objetivos.

O bote é a maneira que usamos para viajar no mapa de Gears 5 (Imagem: Captura de Tela/Felipe Ribeiro)

E a maneira como isso é feito não poderia ser melhor: uma espécie de trenó (que no jogo, em português do Brasil, é chamado de bote) à vela nos leva para lá e para cá no mapa, bem rápido e fácil. Seu manejo é bem gostoso e nos “obriga” a aproveitar os cenários de Sera, mundo no qual se passa o jogo.

O mapa é de fácil leitura e também está repleto de missões secundárias, que podem ser feitas durante a campanha ou até mesmo depois da conclusão da história.

Imagem: Captura de Tela/ Felipe Ribeiro

Vale a pena, pois essas pequenas aventuras podem te ajudar a aperfeiçoar Jack de maneira ainda mais rápida e ajudar a completar seus colecionáveis, já presentes em Gears 4 e que retornam no 5.

Tinha como melhorar a ação? Tinha!

Se tem algo em que Gears of War sempre brilhou foi a ação, e em Gears 5 ela vem em níveis nunca vistos. Novos inimigos foram adicionados e nunca tivemos tantos chefes como neste game. Não é usual, é verdade, mas fizemos a análise jogando no nível veterano (equivalente a “Difícil"), o que nos deu, certamente, mais tempo de gameplay do que o planejado. Mesmo assim, valeu cada minuto “perdido”. O nível de desafio aqui é de tirar o fôlego, não importando qual é o seu estilo; seja mais “atirado” seja mais comedido. Tal qual já havíamos adiantado na nossa prévia, o combate corpo-a-corpo recebeu uma atenção especial e são vários os momentos em que ele se faz necessário.

No tocante às armas, tivemos boas novidades, como uma nova Lancer, chamada de “Lancer GL”, que é capaz de lançar uma chuva de granadas nos oponentes e disparar tiros ainda mais rápidos; e a “Garra”, arma pertencente aos Locust, mas que Baird deu uma "ajustadinha" para ser usada pelos Gears.

Como ressalva neste caso, fica a demora da inteligência artificial do jogo para te reviver quando você é abatido. Certas vezes, era possível vir aquela mão amiga para te ajudar e seguir com o combate, mas a lentidão com que isso acontecia dava muita, mas muita raiva, para dizer o mínimo. Isso, claro, fez com que redobrássemos a atenção para não atrapalhar a experiência.

Salto técnico

Falar dos gráficos de Gears of War sempre foi algo tranquilo de se fazer, pois em todos os jogos da franquia era visível o capricho. Mas em Gears 5, temos de tirar o chapéu para a The Coalition. Este game é, certamente, o mais bonito do Xbox One, seja qual for a versão que você esteja utilizando. No entanto, para as versões S e X, que fazem uso do HDR, a coisa fica ainda mais espetacular. Tanto que o pessoal da Digital Foundry chegou a dizer que Gears 5 é o jogo com o melhor uso da técnica nesta geração e também a melhor utilização da Unreal Engine 4.

Algo que também foi citado pela DF foi a utilização de ray tracing sem hardware dedicado. Em dados momentos, o brilho e a luz em alguns objetos eram de tamanho realismo que chegamos a desconfiar de que se tratava de algo envolvendo ray tracing. Mas impressiona o fato de o Xbox One X, no caso, conseguir fazer algo que, certamente, veremos apenas na próxima geração.

E por falar em Xbox One X, Gears 5 roda em 4K dinâmico e 60 fps na campanha, com 4K nativos e os mesmos 60 fps no multiplayer online. Já nas demais versões do Xbox One, o game faz resolução dinâmica entre 720p e 1080p, com 30fps cravados na campanha e 1080p e 60fps no multiplayer online.

O nível de detalhamento e o uso do HDR impressionam em Gears 5 (Imagem: Captura de Tela/ Felipe Ribeiro)

Como o game pode ser rodado no PC, certamente veremos criadores de conteúdo capturando imagens ainda mais fenomenais do game. Mesmo assim, acreditem, ele já é bonito o suficiente, estando, facilmente, no hall de jogos mais bonitos da geração juntamente com Uncharted 4 (PlayStation 4) e Red Dead Redemption 2.

Vale lembrar que o game está 100% em português, com dublagem perfeita e localização bem interessante. Em parte do jogo, por sinal, a tela de um dos laboratórios apresentava os textos no nosso idioma, o que ajuda muito na imersão e mostra um cuidado especial do estúdio com o público brasileiro.

Ressalvas

Nem tudo são flores em Gears 5. A Xbox Live, conforme já havíamos falado aqui no Canaltech na semana passada, passou por problemas de estabilidade nos últimos dias e isso tem afetado a experiência em Gears 5.

É bem verdade que o lançamento oficial do game está marcado para o dia 10 de setembro e o estamos jogando há algumas jornadas, mas, em vários momentos, tivemos o jogo interrompido por quedas nos servidores, que chegaram a atrapalhar mesmo o modo campanha. Houve oportunidades em que o nosso “save” chegou a ser corrompido, fazendo com que tivéssemos que jogar um ato todo novamente. Isso sem falar nas conquistas, que mesmo após a história finalizada, não “pingaram” no nosso perfil.

Por esse motivo, inclusive, falaremos com mais embasamento sobre os modos online em um outro texto, após o pack de atualização que será instalado no dia do lançamento do jogo.

Agora, falando especificamente do jogo, por maior que tenham sido os saltos em relação aos gráficos e jogabilidade, algumas mecânicas foram, digamos, facilitadas. Em algumas situações de tiro frenético, sentimos como se a imersão não fosse a mais adequada. Para ser mais específico: tiros de torreta. Em Gears 2, por exemplo, e até mesmo no 4, manejar uma torreta era divertido principalmente porque era bem difícil, com a tela toda tremendo. Quando você está no comando de uma em Gears 5, é quase certa a sua vitória, mesmo com Juvies vindo te atacar.

Caminho para o futuro pavimentado

Gears 5 vale muito a pena. Nós aqui no Canaltech não damos notas de maneira numérica pois, por vezes, pode parecer um pouco impreciso simplesmente valorar um trabalho com um número, mas, com o jogo em questão, uma nota 9 não seria nem um pouco injusta. Pelo contrário.

Mesmo com as ressalvas já citadas, Gears 5 é primoroso. Sua campanha, modificações e inclusões deixam claro que o caminho para o futuro da franquia já está pavimentado e a tendência é que vejamos os novos recursos e elementos ainda melhores em jogos futuros.

Por ser o último Gears de Xbox One e desta geração, os fãs mereciam um jogo digno desta franquia tão importante. E a The Coalition e a Microsoft conseguiram entregar.

Apenas joguem!

Gears 5 será lançado no dia 10 de setembro para Xbox One e PC. Assinantes do Xbox Game Pass já podem baixar o jogo e aproveitá-lo desde já.

Esta análise foi feita com uma cópia de Gears 5 gentilmente cedida ao Canaltech pela Microsoft.

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.