OPINIÃO | Precisamos mesmo de grandes eventos como o MWC?

Por Rafael Rodrigues da Silva | 17 de Fevereiro de 2020 às 18h50
MWC

Na última semana, a notícia de que o MWC, maior congresso de dispositivos móveis do mundo, foi cancelado por conta da epidemia da Covid-19 que assola a China (e, numa escala bem menor, diversos outros países do mundo) caiu como uma bomba na imprensa especializada. Mas, enquanto jornalistas e fotógrafos de todo o globo lamentavam o cancelamento em cima da hora de suas estadias com tudo pago em Barcelona, o público que lia sobre isso na web parecia ter respondido com um enorme dar de ombros coletivo.

Claro, pessoas se mostraram preocupadas com o fato de uma doença ter cancelado um evento tão importante, e outras lamentam porque estavam realmente ansiosas por ele... mas de modo geral, o cancelamento parece ter preocupado muito mais a própria imprensa (que justamente foi quem ganhou uma “folga” de alguns dias que, historicamente, são de trabalho dobrado) do que o público em si, que é quem deveria estar mais ansioso por conta de todas as novidades que são divulgadas no evento.

E isso levanta uma questão importante: será que um evento do porte do MWC ainda é necessário em um mundo pós-internet?

“Dinossauros” em atividade

É incrível como os eventos de grande porte do mercado da tecnologia não acompanharam o desenvolvimento das tecnologias que eles existem para mostrar. Criados em um mundo pré-internet, esse tipo de evento (como a MWC, a CES, a E3) costuma seguir sempre o mesmo script: são pensados de forma a acolher a imprensa especializada e não o tipo de pessoa comum que irá compor a maior parte do público consumidor, com poucas novidades sendo transmitidas em tempo real para qualquer um que se interesse por saber o que acontece lá dentro e tentando sempre manter um ar de “mistério”.

Apenas “alguns poucos escolhidos” poderão ver em primeira mão as novidades da indústria e levar para o público o que eles acharam daquele aparelho que 99% das pessoas não tiveram a oportunidade de ver — normalmente em enormes textos que tentam expressar todos os sentimentos da pessoa ao fazer uso daquilo no evento, mas que nem sempre são acompanhados fotos ou vídeos que mostrem o aparelho funcionando (e quase sempre a pedido da própria empresa, pois as companhias de tecnologia vivem perpetuamente na divisa entre o querer apresentar ao mundo sua nova invenção e querer que ela fique escondida a sete chaves até o lançamento oficial, para que nenhum concorrente tente copiar).

E, em um mundo onde as pessoas estão acostumadas a ter acesso a literalmente tudo em todos os momentos, essa insistência por “esconder” da maior parte do público muito do que acontece nessas feiras as tornam verdadeiros “dinossauros” que tentam sobreviver em pleno 2020, mas nos apresentando produtos de uma forma que deixa cada vez mais claro como são eventos do passado — como um smartphone desenvolvido para aqueles que gostam de transmitir, ao vivo, todos os momentos de suas vidas nas redes sociais, mas que exige que você esteja presente fisicamente em um evento na Europa para saber como ele funciona.

A cada ano, esse tipo de evento está perdendo cada vez mais relevância, e o número de empresas que desiste de participar dessas feiras e fazer seus próprios eventos tem aumentado. E há um motivo para isso: eles tem se tornado cada vez menos viáveis, do ponto de vista econômico.

Uma era em vinte anos

Todos esses eventos criados em uma era pré-internet atingiram seus auges durante as décadas de 1990 e 2000, um período que pode ser considerado como a “era de ouro” para esse tipo de feira: a mídia já possuía tecnologia suficiente para enviar informações em tempo real para o público, mas ela não era avançada a ponto de qualquer pessoa ter um equipamento de transmissão no bolso. Assim, esses eventos voltados para acomodar a imprensa faziam sentido, pois era muito mais econômico para as empresas se reunirem todas em um único lugar e já divulgar suas novidades para os jornalistas especializados levarem a notícia ao público. Bem mais prático que fazer, cada uma por si, seus eventos próprios e terem que bancar o deslocamento de equipes de reportagem inteiras, de diversos países.

Essa combinação também era boa para a própria imprensa, que em alguns dias de trabalho tinha o acesso facilitado a diversas fontes e coletava informações suficientes para diversas edições de jornal, revista e programa de rádio ou TV.

Mas, com o advento dos smartphones e a popularização da internet banda larga, foi como se em duas décadas nós tivéssemos chegado em uma nova era, onde não nos contentamos em esperar por um horário específico do dia (ou um dia específico da semana) para sabermos as notícias. Queremos saber de tudo, e queremos saber agora. O texto se tornou algo quase ultrapassado; precisamos de imagens, de preferência vídeos, e de preferência ao vivo. Mais importante do que a informação em si é a instantaneidade, é ficar sabendo das coisas no momento exato em que elas acontecem e poder presenciar tudo pessoalmente, mesmo que de longe.

E é justamente essa tecnologia da instantaneidade que tem ajudado a deixar esses eventos cada vez menos atraentes — mesmo que, ironicamente, eles tenham sido um fator importante na apresentação desta tecnologia para as pessoas. Afinal, se as empresas podem transmitir diretamente seus produtos para o público alvo (e se esses produtos são “vazados” para a imprensa semanas antes do evento em si), qual o verdadeiro sentido de se reunir em uma data específica para fazer divulgação?

Cada um por si

O movimento é claro. Diversas empresas têm buscado se desvencilhar destes eventos para fazer suas próprias transmissões de lançamento. Um dos motivos é o tempo: ao invés de ficar acelerando a equipe de desenvolvimento ou segurando por meses um produto para que seja apresentado em um dia específico, a companhia pode fazer eventos de lançamento transmitidos pela internet na data que achar melhor.

Outra vantagem desse tipo de estratégia é a exclusividade das pautas: ainda que eventos como o MWC tragam um maior “holofote” para as empresas que deles participam, não têm caráter exclusivo, pois são feiras. É preciso dividir as atenções com as outras companhias do mesmo segmento — o que, invariavelmente, acaba gerando matérias do tipo “quem ganhou o evento tal?” ou “produto X vs produto Y, qual fez um melhor evento?”, trazendo uma conotação negativa a um momento que essas empresas prefeririam que fosse exclusivamente positivo.

Ao optar por criar eventos próprios, as empresas conseguem praticamente anular esse clima de competitividade, manipulando a imprensa a, pelo menos naquele momento, falar apenas sobre seu produto, sem fazer comparações com a concorrência.

Há, ainda, um outro motivo para o abandono dessa cultura: o financeiro. Hoje, apenas alugar um espaço nessas feiras muitas vezes exige um investimento de algumas centenas de milhares de dólares, sem contar a montagem de toda a estrutura de stand, além dos funcionários para ficar nesses stands apresentando os produtos e tirando as dúvidas da imprensa. Isso acontece porque, apesar de eles estarem aos poucos perdendo relevância, ainda mantêm toda a credibilidade e a fama criados durante a época de ouro, o que faz com que as companhias tenham que investir, às vezes, milhões de dólares para participar de um evento que, no fim, não foi assim tão vantajoso... e deixou claro para o mundo como seus produtos estavam perdendo para a concorrência.

Um novo tipo de evento

Mas isso não quer dizer que o advento da internet e dos smartphones está acabando com toda a ideia de eventos. Feiras como a Gamescom, PAX ou a Comic Con batem recordes de público e de audiência a cada ano, mas todas elas tem uma coisa bem diferente de eventos como a CES, o MWC e a E3, que estão aos poucos morrendo: são feiras onde o foco não é a imprensa, mas o próprio público consumidor.

Por isso, alguns desses eventos (mais notadamente a E3) estão se esforçando para se tornar atrativos para o público geral, mas, por enquanto, sem obter muito sucesso. E é possível que, até a próxima década, esses eventos que se tornaram verdadeiros marcos de toda uma indústria simplesmente sejam extintos, ou então evoluam para algo que não se pareça em nada com o que eram originalmente.

Porque, assim como a ideia de um dinossauro é algo bem legal, a existência de um em nosso mundo atual simplesmente não faria sentido. E o mesmo pode ser falado desses grandes eventos: a ideia ainda é interessante, mas já não faz mais sentido na prática. E, a não ser que você seja o tipo de pessoa que irá perder a sua viagem anual para Barcelona paga pela empresa, a existência ou não desses eventos, em termos práticos, não faz a menor diferença na sua vida.

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