Vulcões de Marte podem estar ativos e derretendo o gelo sob a superfície

Vulcões de Marte podem estar ativos e derretendo o gelo sob a superfície

Por Danielle Cassita | 24 de Novembro de 2020 às 14h30
NASA/Viking Project

No passado, Marte abrigou mares, oceanos e, quem sabe, algum tipo de vida — um perfil bem diferente do vizinho seco e hostil que temos hoje. Assim, enquanto estudos anteriores indicaram a ocorrência de atividade vulcânica no Planeta Vermelho há mais de 2 bilhões de anos, um novo estudo feito por cientistas da University of Arizona e do Smithsonian Institution sugere que uma erupção ocorreu bem mais recentemente na região Cerberus Fossae, que seria a mais jovem já identificada. Na prática, isso pode indicar que, abaixo dos vulcões adormecidos do planeta, existe atividade vulcânica ocorrendo em raros intervalos.

A possível erupção teria ocorrido em um local perto do vulcão Elysium Mons, a cerca de 1600 quilômetros do local onde a missão InSight, da NASA, está — entre os registros dos "martemotos" coletados por essa sonda, dois deles vieram de Cerberus Fossae. Assim, os autores apresentam no estudo um depósito rico em piroxênio com alto teor de cálcio, que está distribuído simetricamente em torno da fissura de Cerberus Fossae e se parece com outros presentes na Lua e em Mercúrio. “Se esse depósito tiver origem vulcânica, pode ser que a região não esteja extinta e que Marte ainda tenha vulcões ativos”, explicam os cientistas no artigo. A fissura em questão é parecida também com aquelas de erupções recentes, em que a atividade vulcânica faz com que as cinzas e poeira explodam através da superfície.

A imagem feita pela sonda Mars Reconnaissance Orbiter mostra o depósito em Cerberus Fossae (Imagem: Reprodução/NASA/JPL/MSSS/The Murray Lab)

Além disso, existem materiais escuros junto da aparente simetria em torno da fissura, o que sugere a ocorrência de uma erupção que teria sido causada pelo magma no interior da superfície, que pode ter alcançado alguns quilômetros de altura antes de cair de volta no solo. Assim, ao analisar a quantidade de crateras visíveis à volta da formação e do depósito, a equipe suspeita que a erupção ocorreu de 53 mil a 210 mil anos atrás — isso permite considerá-la a erupção mais jovem já identificada em Marte.

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Se este realmente for o caso, restam algumas implicações importantes: na geologia, 53 mil anos é um piscar de olhos, e pode significar que Marte pode ter vulcões despertos atualmente. Além disso, se realmente houver atividade vulcânica por lá, o gelo sob a superfície pode ser derretido e, assim, criar um ambiente potencialmente habitável para formas de vida. "Para ter vida, você precisa de energia, carbono, água e nutrientes", explica Steve Anderson, professor de ciências terrestres na University of Northern Colorado. "Um sistema vulcânico fornece tudo isso".

Apesar de este ser um estudo animador, algumas questões ficam em aberto. "Se você quer datar uma superfície muito recente, vai depender da população das pequenas crateras de impacto, e ainda precisamos construir o banco de dados dessas crateras", diz Dr. Lu Pan, cientista planetária. Por outro lado, mesmo ao considerar um cenário mais conservador, David Horvath, autor principal do estudo, acredita que a erupção teria acontecido há 1 milhão de anos, o que ainda é um passado bem recente e importante para o entendimento do planeta e a possibilidade de vida sob sua superfície. "Isso definitivamente deixa em aberto a possibilidade de que, no fundo da superfície, haja atividade", diz.

O artigo com os resultados do estudo está disponível no repositório online arXiv e ainda irá passar pela revisão por pares.

Fonte: The New York Times

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