Neste sistema estelar, planetas podem nascer em órbitas totalmente desalinhadas

Por Daniele Cavalcante | 03 de Setembro de 2020 às 19h30
ESO/L. Calçada/Exeter/Kraus

O Sistema Solar é formado por mundos em linhas orbitais bastante planas. Isso significa que todos os planetas orbitam alinhados entre si e com o Sol. Mas nem todos os sistemas são assim. Por exemplo, cientistas acabaram de descobrir que o GW Orionis, um sistema de múltiplas estrelas localizado na constelação de Orion, tem um anel desalinhado em seu disco formador de planetas.

Por enquanto, não há mundos ao redor das três estrelas do GW Orionis, mas ele contém um vasto disco de gás e poeira, de onde podem nascer alguns planetas. Acontece que essas estrelas acabaram desalinhando um anel localizado na parte interna desse disco, fazendo com que essa faixa de gás pode formar mundos bastante exóticos — talvez parecidos com Tatooine, que orbita dois sóis que aparecem um tanto desalinhados no céu.

A descoberta foi feita com os dados do Very Large Telescope do European Southern Observatory (ESO's VLT) e do Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (ALMA), que por mais de 11 anos observaram o sistema GW Orionis, localizado a pouco mais de 1300 anos-luz de distância de nós. “Nossas imagens revelam um caso extremo em que o disco não é plano, mas está empenado e tem um anel desalinhado que se separou do disco”, explica Stefan Kraus, principal autor do estudo publicado na revista Science.

De acordo com o texto, este anel deslocado possui 30 massas terrestres de poeira. Ou seja, ele pode, de fato, formar alguns planetas daqui a algum tempo. Se isso acontecer, todos eles estarão condenados a girar ao redor das estrelas em órbitas altamente inclinadas.

Com essa descoberta, os cientistas preveem que deve haver muitos outros lugares assim, e até mesmo alguns planetas que já se formaram em órbitas bastante tortas. Essa conclusão faz ainda mais sentido se considerarmos que mais da metade das estrelas do céu observável nascem com uma ou mais companheiras — o próprio Sol parece ter sido uma delas, mas a estrela “gêmea” dele parece ter ido embora bastante cedo.

Mas como isso aconteceu com o GW Orionis? É que as três estrelas desse sistemas orbitam entre si em planos diferentes, ou seja, suas órbitas estão desalinhadas entre si e em relação ao disco de gás. Ao obter a imagem do anel interno e confirmar seu desalinhamento, os cientistas puderam ver a sombra que este anel projeta no resto do disco, o que ajudou a descobrir a forma correta desse sistema complexo.

Após criar uma série de simulações em computador, a equipe finalmente concluiu que estavam presenciando o teórico “efeito de ruptura de disco”, que previa a atração gravitacional de estrelas em planos diferentes como uma força capaz de deformar e quebrar seus discos. Mas pode ser que as descobertas ainda estejam incompletas. É que um outro grupo, que também estudou o sistema GW Orionis com o ALMA, cogita que é preciso existir um planeta entre esses anéis para explicar por que o disco se partiu.

Seja como for, os cientistas devem fazer novas observações com o ELT e outros telescópios podem ajudar a desvendar esse curioso sistema e, quem sabe, revelar a existência de planetas no anel inclinado de disco protoplanetário.

Fonte: Pshys.org

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