"Irmão gêmeo" do Sol pode explicar Planeta 9 e outros objetos no Sistema Solar

Por Daniele Cavalcante | 19 de Agosto de 2020 às 20h15
NASA/JPL-Caltech/UCLA

Cientistas há tempos discutem sobre a hipótese de existir um "irmão gêmeo" do Sol, geralmente apelidado de Nêmesis, que teria se separado da nossa estrela ainda durante a fase de formação. Ainda não existe nenhuma evidência concreta de que isso seja verdade, até porque é bem difícil encontrar pistas sobre isso, mas um novo estudo mostra que um “segundo Sol” explicaria alguns mistérios do Sistema Solar.

Um desses mistérios é a Nuvem de Oort, uma nuvem esférica gigantesca que envolve o Sistema Solar com planetesimais voláteis, a cerca de 50.000 UA (quase um ano luz de distância do Sol). Ela está tão longe que não podemos ver nada ali, nem mesmo com os mais poderosos telescópios, pois não há nenhuma fonte de luz próxima o suficiente para que possamos enxergar esses objetos.

Mesmo que não possamos vê-la, existem muitos indícios da sua presença, inclusive ela é provavelmente a origem dos cometas de longo período (que nos visitam a cada 200 anos ou mais) e do tipo Halley. Já os cometas de curto período (que levam menos tempo para se aproximar do Sol) parecem se originar do Cinturão de Kuiper, um anel de objetos que circula além da órbita de Netuno.

Explicação para a Nuvem de Oort

Perspectiva do Cinturão de Kuiper comparado com a nuvem de Oort (Imagem: William Crochot)

Nenhum objeto na nuvem de Oort foi observado diretamente até hoje - exceto os cometas de lá que se aproximam de nós, se é que eles de fato se originam nessa região. As sondas Voyager 1 e 2, a New Horizons e a Pioneer 10 e 11 estão a caminho nessa esfera misteriosa, mas todas elas estarão "mortas" quando chegarem lá. Só podemos ver como a nuvem deve ser através de modelos computacionais baseados em órbitas planetárias e simulações de trajetórias de cometas.

Mas o que a nuvem de Oort tem a ver com o irmão gêmeo do Sol? É que geralmente, os cientistas presumem que ela é composta por detritos da formação do Sistema Solar e de sistemas vizinhos, ou seja, objetos que nasceram ao redor de outras estrelas e, de alguma forma, foram capturados pela força gravitacional do Sol. No entanto, de acordo com Amir Siraj, pesquisador de Harvard, os modelos “tiveram dificuldade em produzir a proporção esperada entre objetos de disco dispersos e objetos da nuvem de Oort”.

Siraj é co-autor do novo estudo, publicado no Astrophysical Journal Letters, a respeito do irmão gêmeo do Sol. Para responder essa incoerência, criou um modelo em que o Sol teve ajuda para capturar esses objetos de outras estrelas - essa ajuda, como você já deve ter imaginado, é de um irmão gêmeo. Ou seja, seu modelo sugere que o Sol foi formado como um sistema binário que, por algum motivo, se separou muito cedo. Pensando dessa forma, parece óbvio, já que a maioria das estrelas semelhantes ao Sol nascem como sistemas binários.

O co-autor Ari Loeb, também de Havard, explica que “os sistemas binários são muito mais eficientes na captura de objetos do que estrelas simples”. Se essa for a resposta do mistério, estaremos mais perto de entender outras coisas, como os meios que a água foi transportada para a Terra, a extinção dos dinossauros, e a possível existência do Planeta 9.

Explicação para o Planeta 9

Os planetas do Sistema em escala comparados ao suposto Planeta 9 (Imagem: James Tuttle Keane/Caltech)

Existe uma deformação dos caminhos orbitais, indicando que há algo grande o suficiente para ser considerado um planeta depois da órbita de Plutão, e os astrônomos cada vez mais encontram evidências disso. Supõe-se que seja um objeto de dimensões planetárias, algo que ficou conhecido como Planeta 9. Mas, assim como a Nuvem de Oort, ele não pode ser observado diretamente.

Como ele fica muito longe do Sol, o planeta hipotético provavelmente não se formou no Sistema Solar, mas sim teria sido atraído pela força gravitacional do Sol. Mas como? Bem, com um sistema binário no centro do Sistema Solar, isso pode ser mais plausível. O mesmo vale para outros objetos transnetunianos extremos, e há um monte deles por lá. “Não está claro de onde eles vieram, e nosso novo modelo prevê que deve haver mais objetos com uma orientação orbital semelhante ao Planeta Nove”.

Tudo isso talvez possa ser confirmado com os próximo observatórios, como o Vera C. Rubin (VRO), um grande telescópio que deve realizar sua primeira observação em 2021. Espera-se que o VRO confirme definitivamente ou rejeite a existência do Planeta 9. Siraj diz que se o VRO verificar a existência do Planeta 9, e confirmar sua origem como objeto capturado, “então o modelo binário terá preferência sobre a história estelar solitária que há muito se supõe”.

Mas o que teria acontecido a estrela gêmea do Sol? Para onde foi? E como? Lord e Siraj dizem que outras estrelas que passaram pelo nosso aglomerado de formação estrelar teriam puxado a companheira do Sol, roubando-a, com suas influências gravitacionais. Agora, ela pode estar em qualquer lugar da Via Láctea.

Fonte: Big Think

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