Mistério de metano que "aparece e some" em Marte pode estar perto de solução

Mistério de metano que "aparece e some" em Marte pode estar perto de solução

Por Danielle Cassita | Editado por Patrícia Gnipper | 30 de Junho de 2021 às 12h30
NASA/JPL-Caltech

O rover Curiosity pousou na cratera Gale, em Marte, em 2012, e já detectou diferentes níveis de metano por lá, com direito até a um alto pico em 2019. Por outro lado, o orbitador Trace Gas Orbiter (TGO), da Agência Espacial Europeia (ESA), ainda não encontrou sinais do gás na atmosfera marciana. Como este gás pode ser produzido por processo biológicos e geológicos, a detecção entusiasmou cientistas — mas também os intrigou, já que não estava claro, afinal, por que alguns instrumentos encontraram o gás e outros não. Agora, um novo estudo pode ter deixado este mistério mais próximo de ser desvendado.

O rover Curiosity está equipado com o laboratório portátil Sample Analysis at Mars (SAM), cujo kit de instrumentos conta com o Tunable Laser Spectrometer (TLS). Chris Webster é líder do TLS e esperava que houvessem pequenas quantidades de metano em todos os lugares de Marte, mas ficou surpresa ao saber que a equipe da TGO não encontrou sinais do gás, sendo que, em contraste, o TLS havia identificado menos de meia parte por bilhão de metano na cratera Gale. Isso equivale a uma pitada de sal diluída em uma piscina olímpica.

A Cratera de Gale (Imagem: Reprodução/NASA)

O orbitador da ESA foi criado para coletar medidas de várias gases, inclusive o metano, com precisão com padrão ouro. Já o TLS, do Curiosity, é tão preciso que será usado até para a detecção de incêndios a bordo da Estação Espacial Internacional e para monitoramento do nível de oxigênio nos trajes dos astronautas. Assim, Webster e a equipe do laboratório SAM ficaram intrigados com as descobertas da TGO, e logo começaram a analisar as medidas coletadas pelo TLS.

Quer ficar por dentro das melhores notícias de tecnologia do dia? Acesse e se inscreva no nosso novo canal no youtube, o Canaltech News. Todos os dias um resumo das principais notícias do mundo tech para você!

Grande parte do metano na Terra vem de microrganismos que ajudam os bovinos na digestão. Como não há animais em Marte, o gás poderia, de fato, ser uma bioassinatura deixada por microrganismos que possam existir ou já tenham existido por lá — mas, por outro lado, o gás também pode ser produzido por processos geológicos. Por isso, a origem do metano é de grande interesse científico. No caso destas detecções das missões em Marte, alguns especialistas suspeitaram que o gás talvez fosse liberado pelo rover, e buscaram relações entre o Curiosity, o solo e as rochas esmagadas por ele.

Já o cientista planetário John E. Moores, da equipe científica do Curiosity, teve outra ideia. Ele propôs que, talvez, o rover e o orbitador poderiam estar certos: e se as diferenças entre as medidas de metano — e a ausência delas — fossem causadas pelo momento do dia em que foram coletadas? Moores considerou que o TLS opera principalmente à noite, que é também o período em que a atmosfera marciana fica mais tranquila; nisso, o metano do solo sobe para próximo da superfície, onde o Curiosity consegue detectá-lo. Já a TGO precisa da luz solar para operar e identificar o gás a 5 km de altitude.

Selfie do rover Curiosity, feita em junho de 2018 (Imagem: Reprodução/NASA/JPL-Caltech/MSSS)

Como o calor do Sol aquece a atmosfera, o ar quente sobe, e o frio, desce. Com esse ciclo, o metano próximo da superfície é misturado com a atmosfera ao longo do dia, e fica tão diluído que não pode ser detectado. “Percebi que não haveria nenhum instrumento, principalmente em órbita, que poderia encontrar algo”, explica Moores. Para testar a hipótese, a equipe do Curiosity coletou as primeiras medidas diurnas de alta precisão: “o metano deveria reduzir para zero durante o dia, e nossas duas medidas noturnas confirmaram isso”, disse Paul Mahaffy, o principal investigador do SAM. Já as medidas noturnas do TLS encaixaram perfeitamente na média estimada pela equipe.

Este estudo sugere que as concentrações de metano aumentam e diminuem ao longo do dia na superfície da cratera Gale, mas ainda faltam peças para o quebra-cabeça ser resolvido. Como o metano é uma molécula que pode durar 300 anos em Marte (antes de ser destruído pela radiação do Sol), e que pode estar constantemente vazando de crateras parecidas com a Gale, talvez haja outros processos destruindo o gás. “Precisamos determinar se há um mecanismo de destruição mais rápido que o normal, para podermos reconciliar os dados do rover e do orbitador”, conclui Webster.

O artigo com os resultados do estudo foi publicado na revista Astronomy & Astrophysics.

Fonte: Phys.org, MarsDaily

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.