Insetos e carne de laboratório: como seria a alimentação dos humanos em Marte?

Por Daniele Cavalcante | 20 de Setembro de 2019 às 13h43
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Embora os planos da NASA para Marte envolvam viagens de ida e volta, com apenas breves estadias no Planeta Vermelho, algumas empresas espaciais, como a SpaceX, têm a ambição de colonizar e desenvolver uma civilização marciana. Para isso, um dos principais e mais importantes desafios é alimentar a população humana que futuramente estiver por lá.

Algumas equipes de cientistas já estão estudando meios de produzir alimentos em Marte. Mas, apesar dos avanços nesse sentido, não nos enganemos: não há maneira fácil de criar alimento no planeta vizinho, principalmente para uma grande população. Na verdade, a comida provavelmente será a coisa mais difícil de se produzir em solo marciano, de acordo com Keith Cannon, cientista planetário da Universidade de Central Florida, em Orlando, e principal autor de um novo estudo sobre o tema.

Além disso, as estufas desenvolvidas aqui na Terra simulando o terreno e as condições marcianas foram bem sucedidas, mas por enquanto apenas para alimentar cerca de dúzia de pessoas. Mas se estamos falando de colonizar o planeta, é preciso bem mais que isso. Afinal, o que seria necessário para produzir, em Marte, comida suficiente para alimentar 1 milhão de habitantes?

Para Cannon, as pesquisas atuais sobre o plantio de vegetais não é muito funcional para uma grande população. "Quase toda a pesquisa até agora se concentrou no cultivo de plantas para alimentar os astronautas, mas elas ocupam muito espaço, e em outro planeta, o que significa construir grandes fábricas que precisam ser pressurizadas, aquecidas e iluminadas", disse ele. "Se você deseja alimentar uma grande população em outro planeta, precisa se afastar da ideia de vegetais aquosos e realmente pensar nas enormes quantidades de energia, água e matérias-primas necessárias para produzir calorias suficientes".

Dieta à base de... insetos!

(Foto: Crickster)

Cannon enfatiza o fato de que as pesquisas que simulam o solo marciano para plantações devegetais não consideraram “fontes alternativas de proteínas". A criação de animais para laticínios e carne em Marte não seria viável a curto prazo, e considera-se o fato de que muitos não pretendem se tornar completamente vegetarianos. Então, para resolver esses problemas, a solução seria fazendas de insetos e carne cultivada em laboratório.

Insetos podem fornecer calorias em uma quantidade proporcionalmente menor de terra, e eles consomem relativamente pouca água e ração, disseram os pesquisadores. Os grilos, em particular, são um dos exemplos mais promissores de insetos comestíveis. Uma farinha derivada deste inseto pode ser adicionada e escondida em muitas receitas diferentes. "Os insetos são o caminho que temos que seguir, se as pessoas puderem superar o fator grosseiro [dessa alimentação]", disse Cannon.

Proteína cultivada em laboratório

(Foto: Inverse)

Alimentos derivados de células cultivadas em laboratórios também poderiam melhorar a alimentação das pessoas em Marte — e com uma dieta um pouco mais familiar do que insetos. Hoje em dia já é possível produzir desde algas a carne, até mesmo leite e ovos, tudo em laboratório, sem depender de animais de verdade para isso.

Para superar a dificuldade que as estufas de plantações encontrariam no frio marciano, os pesquisadores sugerem túneis iluminados com LEDs de alta resistência para o cultivo de plantas. Os pesquisadores afirmam que essa solução pode ser complementada com a luz solar coletada e canalizada através de cabos de fibra óptica. A agricultura em sistemas hidropônicos ou aeropônicos é possível, mas exigiria que mais objetos fossem enviados para Marte, tais como bandejas, bombas de água e reservatórios.

100 anos de dependência

Os cientistas calcularam o número de calorias que cada pessoa precisaria, em uma cidade marciana de 1 milhão de pessoas, e modelaram o uso da terra, de acordo com uma dieta que inclui trigo, milho, batata-doce, grilos e frangos cultivados em laboratório. A conclusão foi que essa população poderia alcançar a auto-suficiência em termos de comida dentro de 100 anos, e seriam necessários cerca de 14.500 quilômetros de túneis com cerca de 3,6 metros de largura. Durante esses 100 anos sem auto-suficiência, os habitantes dependeriam do transporte contínuo de alimento terrestre em espaçonaves.

Por fim, Cannon alerta para a importância de avaliar essas questões. Para ele, qualquer um que pense que ainda estamos muito longe de uma tentativa de colonização em Marte e que não é necessário pensar nisso agora, "precisa dar uma olhada séria no que a SpaceX está fazendo — já está construindo e testando protótipos das naves que enviarão os primeiros colonos para Marte".

Fonte: Space.com

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