Estamos 6 bilhões de anos "atrasados" para viver na parte mais segura da galáxia

Estamos 6 bilhões de anos "atrasados" para viver na parte mais segura da galáxia

Por Danielle Cassita | Editado por Patrícia Gnipper | 08 de Março de 2021 às 17h45
NASA/JPL-Caltech/R. Hurt (SSC/Caltech)

Os cientistas seguem em estudos na busca por exoplanetas que tenham condições de abrigar vida — o que é algo bastante delicado, já que as supernovas e explosões de raios-gama (GRBs) são bem capazes de exterminar a vida como conhecemos por removerem a camada de ozônio de planetas rochosos. Assim, em um novo estudo, pesquisadores reconstituíram a evolução da Via Láctea, investigando a ocorrência destes eventos violentos — e eles descobriram que, na verdade, nossa galáxia era bem mais segura há 6 bilhões de anos nas regiões mais externas dela.

Estes dois eventos estão relacionados com o ciclo de vida das estrelas, e mais ainda à morte delas. No caso das supernovas, elas acontecem quando estrelas bem mais massivas que o nosso Sol explodem, ou quando uma anã branca (ou seja, o que restou de uma estrela menos massiva) obtém massa de outra estrela em um sistema binário. Já as GRBs são explosões intensas, que ocorrem ao fim da vida de uma estrela massiva e de rotação rápida. Essas emissões também podem acontecer se estrelas de nêutrons se fundirem.

Representação de uma supernova (Imagem: Reprodução/ NASA/ESA/G. Bacon (STSci)

Francesco Haardt, professor da University of Insubria, explica que, para entender a distribuição destes fenômenos na nossa galáxia, eles trabalharam com um modelo que representa como foi sua evolução: “esse modelo prevê que as regiões mais internas, ao contrário das regiões periféricas, se formaram rapidamente nas etapas iniciais da história da nossa galáxia”, diz. Assim, com o passar do tempo, a taxa de formação de estrelas caiu na região central, e aumentou aos poucos nas áreas mais externas da Via Láctea.

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Como consequência disso, o gás primordial de hidrogênio e hélio foi enriquecido com elementos mais pesados no centro da Via Láctea, enquanto na região mais externa, esse enriquecimento aconteceu gradualmente e sem alcançar a metalicidade das regiões centrais. Assim, se excluirmos as regiões a menos de 6.500 anos-luz do centro da Via Láctea e com maior frequência de ocorrência de supernovas, o estudo dos pesquisadores sugere que a pressão evolutiva é determinada pela ocorrência das explosões de raios-gama. As supernovas são mais frequentas nas regiões formadoras de estrelas, enquanto as GRBs preferem essas regiões sem tantos elementos pesados.

Mas, de fato, ambos os eventos conseguem liberar quantidades enormes de energia: uma supernova emite a mesma quantidade de energia que a Via Láctea gera em algumas horas, enquanto uma GRB consegue liberar em 10 segundos a quantidade de energia que nossa galáxia irá emitir em um século: “embora sejam bem mais raras que as supernovas, as explosões de raios-gama são capazes de causar extinção em massa em grandes distâncias, porque são mais energéticas e têm maior alcance”, disse Spinelli.

Conceito artístico de uma GRB ocorrendo em direção à Terra (Imagem: Reprodução/NASA/Swift/Cruz deWilde/R. Spinelli

No fim, o estudo mostra que, há até 6 bilhões de anos, as regiões mais afastadas da nossa galáxia eram mais seguras para o surgimento da vida, porque os planetas existentes por lá estariam protegidos dessas explosões, existiam em menor quantidade. Depois, há 4 bilhões de anos, as regiões centrais da galáxia — incluindo o Sistema Solar — se tornaram mais seguras.

Contudo, isso não significa exatamente que tudo sempre foi tranquilo por aqui, já que, se a Terra tivesse o azar de ser atingida por uma explosão dessas a 3.300 anos-luz de distância, a camada de ozônio protetora seria destruída: “como efeito secundário, a destruição da camada iria produzir compostos de nitrogênio, que reduzem a luz visível e iriam causar resfriamento global”, explica Spinelli. Por isso, é possível que a primeira extinção em massa na Terra tenha sido causada por uma GRB — tanto que eles estimam que houve pelo menos uma explosão letal destas nos últimos 500 milhões de anos.

O artigo com os resultados do estudo foi publicado na revista Astronomy & Astrophysics.

Fonte: INAF

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