Dados do rover Curiosity podem indicar um passado diferente para a cratera Gale

Dados do rover Curiosity podem indicar um passado diferente para a cratera Gale

Por Danielle Cassita | Editado por Patrícia Gnipper | 06 de Agosto de 2021 às 19h40
Reprodução/NASA

Em 2012, o rover Curiosity pousou na cratera Gale, em Marte, para investigar a geologia da região e o potencial de ter ocorrido vida por lá em um passado remoto. A cratera não foi escolhida por acaso, já que foram identificados sinais que indicavam a existência de um lago por lá no passado remoto — algo reforçado pelos dados obtidos pelo Curiosity posteriormente. Agora, um novo estudo desafia essas considerações e propõe outra interpretação dos dados do rover, sugerindo um passado bem diferente para a cratera.

O rover Curiosity já completou nove anos em Marte e, durante a estadia no Planeta Vermelho, identificou evidências de sedimentos de argila que sugeriam a ocorrência de um lago antigo por lá. Depois, outros sinais foram encontrados — e, desta vez, eles pareciam indicar haver água líquida, de modo que a equipe da missão concluiu que a cratera Gale foi lar de um grande lago no passado. Para Michael Meyer, cientista líder do programa Mars Exploration, o lago poderia ser grande o suficiente para existir por milhões de anos.

A cratera Gale, com a região de pouso do rover Curiosity destacada (Imagem: Reprodução/NASA/JPL-Caltech/ESA/DLR/FU Berlin/MSSS)

Além disso, ele considerou também que esse período seria suficiente para a vida se desenvolver e prosperar, e para sedimentos se acumularem e formarem uma estrutura chamada de Mount Sharp. Trata-se de uma formação geológica no centro da cratera, com 5 km de altura, que o Curiosity está escalando atualmente. É aqui que entra o estudo com a nova interpretação dos dados obtidos pelo rover sobre o possível passado da cratera.

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Liderados por Jiacheng Liu, da Hong Kong University, os autores propõem que, embora os sedimentos tenham sido provavelmente depositados em um lago antigo, a maior parte deles não parece ter sido originada de um lago. A água líquida pode, sim, ter interagido e causado algum desgaste nos compostos, mas esse processo pode nem mesmo ter acontecido especificamente em um lago. Segundo os autores, a maior parte dos depósitos de sedimentos investigados pelo Curiosity teria sido levada à cratera por meio do vento e/ou atividade vulcânica, e depois foram alterados por chuva ácida.

Para Joe Michalski, orientador do doutorado de Liu, os dados coletados pelo rover vêm apontando que a cratera Gale teve vários lagos pequenos, que devem ter durado no máximo algumas dezenas de milhares de anos. Assim, se os autores e Michalski estiverem corretos — lembrando que nenhum deles é membro da missão Curiosity —, pode ter sido mais difícil de haver vida na cratera do que se pensava, porque quanto maior for e quanto mais tempo durar um ambiente propício à vida, maiores são as chances de surgir alguma composição complexa por lá.

Selfie do rover Curiosity, que já chega a nove anos de exploração em Marte (Imagem: Reprodução/NASA/JPL-Caltech/MSSS)

Essa interpretação também propõe que a cratera seja uma melhor representação de como Marte foi no passado, e não uma área discrepante, como se pensava até então. “Isso significa que podemos entender as condições ambientais de forma mais ampla, por olharmos algo muito mais comum”, explicou Michalski. Para ele, é possível que o rover Perseverance, o “primo” do Curiosity que está investigando a cratera Jezero, traga um pouco mais de clareza para a questão da cratera Gale.

Atualmente, considera-se que houve o delta de um rio na cratera Jezero — tanto que o rover coletou a primeira amostra de solo da região hoje. Michalski acredita que definitivamente houve um lago considerável por lá, mas que foi apenas temporário. “Suspeito que os sedimentos serão diferentes”, disse. “Assim, poderemos olhar para os dois em paralelo e dizer ‘aqui está o que vemos em um lago e aqui está o que vemos em Gale; e eles não têm a mesma aparência”,finaliza.

O artigo com os resultados do estudo foi publicado na revista Science Advances.

Fonte: Space.com

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