Coronavírus: como a NASA e a indústria espacial estão lidando com a pandemia

Por Daniele Cavalcante | 18 de Março de 2020 às 16h32
iStock/Sergey Khakimullin
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[ATUALIZAÇÃO - 20/03]: Na quinta-feira (19), o administrador da NASA Jim Bridenstine, anunciou oficialmente que a agência espacial tomou medidas mais drásticas em duas de suas instalações para conter a disseminação do novo coronavírus (SARS-CoV-2). De acordo com o comunicado, as instalações agora avançam para o Estágio 4 do plano chamado “Estrutura de Resposta” (Response Framework).

Isso significa que, a partir de hoje, os funcionários dessas duas instalações - o Michoud Assembly Facility e o Stennis Space Center - terão que obrigatoriamente trabalhar em casa e todas as viagens estão suspensas. Os locais serão fechados, exceto aqueles essenciais a missões de proteção de vida e infraestrutura crítica.

“A mudança em Stennis foi feita devido ao número crescente de casos de COVID-19 na comunidade em torno do centro, o número de casos de auto-isolamento dentro de nossa equipe de trabalho e um caso confirmado na nossa equipe”, disse Bridenstine. Ele acrescentou que não há casos confirmados em Michoud, mas ainda assim “a instalação está migrando para o Estágio 4 devido ao crescente número de casos de COVID-19 na área local”.

Abaixo, confira a matéria original na íntegra:

Governos em todo o mundo estão adotando medidas para conter a disseminação do novo coronavírus (SARS-CoV-2), tais como distanciamento social para evitar aglomerações de pessoas e quarentena para impedir novas contaminações, além de, claro, isolar os que estão sob suspeita de estarem com a COVID-19. Isso inclui servidores públicos e funcionários de empresas cujas funções podem ser exercidas em home office. E a indústria espacial também está tomando suas precauções.

Nas instalações da NASA já foram detectadas algumas infecções e a agência espacial declarou novas medidas de contenção do vírus, incluindo pedir que os funcionários fiquem em casa. A comunidade científica, em geral, também foi afetada pela dificuldade de realizar eventos, conferências e coletar dados em observatórios para prosseguir com suas pesquisas. A missão ExoMars, por sinal, fruto de parceria entre a ESA (Agência Espacial Europeia) e a russa Roscosmos, foi adiada para 2022 também sentindo o impacto do novo coronavírus.

No entanto, esse ainda pode ser apenas o início de uma crise que pode resultar em graves problemas financeiros e na paralisação do desenvolvimento de missões espaciais e construção de espaçonaves.

Precauções para missões espaciais

Astronauta da NASA na Estação Espacial Internacional

Agências espaciais como a NASA e a russa Roscosmos já adotam medidas para garantir a saúde dos astronautas selecionados para uma missão espacial. Por exemplo, durante os dias antes de um lançamento ao espaço, os astronautas devem ficar em quarentena para garantir que eles não estejam doentes ou ainda incubando uma doença.

Isso é especialmente importante em viagens para a Estação Espacial Internacional (ISS) - que, por sinal, são as únicas tripuladas que acontecem atualmente -, já que sempre há uma equipe por lá. Ninguém quer que um membro da próxima equipe científica carregue um vírus para dentro de um habitat no espaço, onde não há assistência médica presencial.

Esse procedimento é chamado de "estabilização da saúde" e é também importante porque a vida cotidiana em microgravidade pode afetar o sistema imunológico dos astronautas. No entanto, não há nenhum voo tripulado agendado para uma data próxima o suficiente para uma quarentena padrão neste momento - o próximo lançamento está programado para o dia 9 de abril.

Ainda assim, a NASA está reavaliando seus procedimentos a fim de garantir que sejam o suficiente para conter a disseminação do vírus, o que pode levar a agência a alterar o procedimento padrão de estabilização da saúde. A Roscosmos, que ainda realiza os lançamentos à ISS com suas naves Soyuz, sugeriu aumentar o tempo de quarentena deste próximo lançamento de abril.

Escritórios na Terra

Complexo do Centro de Pesquisa Ames (Imagem: Reprodução/NASA)

Além disso, a NASA está aderindo às recomendações de controle de infecção feitas pelos Centers for Disease Control and Prevention (CDC), incluindo limpeza de superfícies, distanciamento social e ênfase à higiene das mãos. A agência também está incentivando os membros da equipe a trabalhar em casa.

No fim de semana, o administrador da NASA, Jim Bridenstine, já havia dito aos quase 17.000 funcionários da agência que trabalhassem em home office, caso suas funções assim permitissem. Mas, na terça-feira (17), ele fez um novo pedido. "A partir de agora, todos os funcionários e contratados passarão para o trabalho remoto obrigatório até novo aviso". A exceção é o “pessoal essencial de missão”, que continuará recebendo acesso no local.

A NASA possui um plano chamado “Estrutura de Resposta”, que lista as medidas de prevenção nos estágios que vão do 1 ao 4 - quando mais avançado o estágio, mais drásticas são as precauções. A medida anunciada na terça-feira significa que a agência espacial elevou todos os seus centros e instalações de pesquisa ao Estágio 3. Dois centros de agências já estavam nesse estágio - o Ames Research Center, no Vale do Silício, e o Marshall Space Flight Center, no Alabama, ambos com funcionários com teste positivo para COVID-19.

Bridenstine destacou que “embora uma quantidade limitada de funcionários tenha testado positivo para o COVID-19, é imperativo que tomemos esta medida preventiva para impedir a disseminação do vírus entre os trabalhadores e nossas comunidades”. O Estágio 2 já está implantado em todos os outros locais de trabalho da NASA.

Em caso de implementação do estágio 4, todas as instalações da NASA estariam fechadas, exceto aquelas essenciais para proteger a vida e a infraestrutura crítica. Além disso, todas as viagens são suspensas. A agência ainda não está na Fase 4 em nenhuma das suas instalações.

Comunidade científica

O Observatório Interamericano de Cerro Tololo (Foto: Fermilab)

Outras instalações, organizações e grupos de pesquisa científica também estão sendo bastante impactados pela pandemia, até nos menores detalhes afetados pelas mudanças nas rotinas. Por exemplo, Meg Urry, ex- presidente da Sociedade Astronômica Americana, conta que as mudanças são “como um enorme ataque, sinto que não consegui fazer nada na semana passada porque há muita coisa acontecendo conosco”.

Ela relata ainda que cientistas como ela estão em constante pressão para elaborar e providenciar soluções, ao mesmo tempo em que todos estão “sendo inundados por informações, por isso é realmente difícil de processar e difícil de ser eficaz”.

Um dos primeiros impactos do vírus que podemos perceber na comunidade científica é a série de cancelamentos de eventos. A primeira conferência relacionada à astronomia a ser cancelada foi a American Physical Society, que estava programada para acontecer em Denver em 2 de março. Outras conferências seguiram o exemplo, tais como outra reunião da mesma organização que ocorreria em abril, em Washington, DC, e a Lunar and Planetary Science Conference (LPSC), programada para começar em 16 de março no Texas. A American Astronomical Society (AAS) anunciou na sexta-feira (13) que estava considerando transformar sua reunião de junho em um encontro online.

Astrônomos enfatizaram que realizar mais conferências online tem sido uma das metas dos acadêmicos. Com a pandemia, acaba sendo um tempo propício para exercitar esse tipo de alteração. No entanto, também há uma preocupação com o que poderia se perder sem as reuniões pessoais no futuro próximo, principalmente de acordo com o estágio da carreira.

De acordo com Sarah Hörst, cientista planetária da Universidade Johns Hopkins, “isso afetará desproporcionalmente as pessoas no início da carreira”. Ela também destaca que “certamente afetará desproporcionalmente as pessoas pertencentes a grupos minoritários que não necessariamente possuem o tipo de estrutura de rede e suporte para conectá-los a uma rede de segurança”.

A realização de novas pesquisas também é afetada pela disseminação do vírus e as medidas de prevenção. Os astrônomos têm um pouco de vantagem sobre cientistas de outras áreas, no entanto. É que eles já têm uma tendência de usar ferramentas digitais para facilitar a comunicação a longa distância, já que a comunidade astronômica é bastante global e as pessoas colaboram entre si de diferentes lugares do planeta.

Além disso, muitos trabalham com dados obtidos em lugares que a COVID-19 não pode alcançar - o próprio espaço, por exemplo, onde ficam alguns telescópios como o Hubble. Eles continuarão funcionando e enviando dados automaticamente. Tudo o que os astrônomos que trabalham na pesquisa dessas missões precisam fazer é obter esses dados.

FAST, radiotelescópio localizado na China

Bem, obter os dados pode ser um pouco mais complicado. Poucos telescópios são completamente capazes de operar sem nenhuma equipe no local, e algumas instalações ainda exijam que os cientistas coletem seus dados pessoalmente. Os observatórios em geral, no entanto, estão gradualmente mudando essa lógica para exigir que se passe menos tempo por lá. De qualquer forma, essas instalações ficam em áreas remotas, o que não gera nenhuma aglomeração de pessoas.

Além disso, a maioria dos trabalhos astronômicos que envolvem observação remota exige que os pesquisadores se dirijam a salas de controle dedicadas - ou seja, lugares que são apenas mais fáceis de alcançar do que os próprios observatórios, mas o procedimento não facilita muito permanecer dentro de casa.

Ainda é cedo para dizer o quão essas salas são eficazes nas novas medidas de contenção do novo coronavírus. E, embora os observatórios tenham se esforçado para permitir que os pesquisadores trabalhem remotamente, alguns estão interrompendo as observações, como é o caso do Observatório Las Campanas, no Chile, que parou de funcionar na terça-feira (17) por pelo menos duas semanas.

Mais problemas à vista

As consequências ainda vão migrar para novos quadros na astronomia, e um deles é uma nova dificuldade financeira. Os astrônomos já estão se preparando para isso, já que a pandemia provoca problemas na bolsa de valores e no mercado de trabalho. Com isso, os orçamentos das universidades serão atingidos em grande escala.

Outra consequência que pode ocorrer nos próximos meses é a mudança no cronograma de missões espaciais programadas para lançamento próximo. É que, se os funcionários tiverem que ficar em casa, a construção de espaçonaves e sondas ficará paralisada.

Por enquanto, ainda não há nada muito dramático acontecendo. Todas as consequências atuais da pandemia ainda são poucas para afetar seriamente a indústria espacial e o meio científico. Se esse quadro vai permanecer dessa forma até que o surto diminua, ou se vai piorar, é algo difícil de prever.

Fonte: Space.com (1, 2, 3, 4), NASA

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