Como o cérebro sabe onde está o chão e o que acontece com astronautas no espaço?

Por Fidel Forato | 18 de Janeiro de 2021 às 13h50
Pete Linforth / Pixabay

Realmente, a vida de astronauta não é simples, e até mesmo o cérebro sofre impacto nos primeiros momentos de microgravidade. No espaço, são comuns relatos de desorientação e perda do senso de direção. Em outras palavras, um astronauta não consegue definir, de maneira simples, o que está para cima ou para baixo. Para entender a origem dessas alterações, pesquisadores canadenses investigam o que leva o cérbero a se comportar assim, a partir de experimentos com realidade virtual (RV). 

A percepção humana é baseada em expectativas. Dessa forma, o cérebro nos orienta a partir de órgãos sensoriais, como o aparelho vestibular, e pela visão. Vale explicar que ambas as informações devem se assimilar, e quando isso não acontece, formam-se distorções na percepção de uma pessoa. Segundo os pesquisadores, quando um astronauta não consegue mais diferenciar o teto do chão, ele está passando por um caso de Ilusão de reorientação visual (VRI).

Para ilustrar como os astronautas se sentem durante os primeiro momentos no espaço, a tripulação da Expedição 64 e a tripulação da missão Crew-1, que hoje estão simultaneamente na ISS (Estação Espacial Internacional), se uniram para uma foto divertida. Embora a foto não passe de uma brincadeira, a imagem representa a perda de direção causada pelo efeito da microgravidade e a falta de distinção entre o chão e o teto.

Como a gravidade afeta o cérebro?

Cérebro perde parâmetros de orientação no espaço e astronautas podem se confundir (Imagem: Reprodução/ Raman Oza/ Pixabay)

Em espaços com alguma gravidade semelhante à do planeta Terra, o corpo humano se orienta através do aparelho vestibular. Este é um conjunto de órgãos que estão presentes no nosso ouvido e que conseguem detectar movimentos do corpo, sendo responsáveis pelo equilíbrio. Nesse processo, os sensores captam a atração da gravidade e sinalizam ao cérebro informações detalhadas sobre a orientação do corpo.

No entanto, os pesquisadores do Center for Vision Research da York University, no Canadá, também descobriram que a interpretação de um indivíduo do ambiente em que está pode ser alterada pela forma como seu cérebro responde às informações visuais. Além disso, nem todas as pessoas são influenciadas da mesma forma por aquilo que enxergam. 

“Na Terra, o cérebro tem que decidir constantemente se uma determinada aceleração se deve aos movimentos de uma pessoa ou à gravidade. Essa decisão é ajudada pelo fato de que normalmente nos movemos em ângulos retos com a gravidade. Mas se a percepção da gravidade de uma pessoa é alterada pelo ambiente visual ou pela remoção da gravidade, essa distinção se torna muito mais difícil”, comenta o professor Laurence Harris, principal autor do estudo.

Pesquisa busca explicar como o cérebro sabe onde está o chão (Imagem: Reprodução/ York University)

Durante o estudo, os participantes usaram equipamentos de RV e se "deitaram" em um ambiente virtual que oscilava em suas condições, inclusive de forma diferente daquela que o corpo naturalmente entenderia através da gravidade normal. Todos os participantes viram as mesmas cenas e dicas de orientação física, mas suas reações foram diferentes. Mesmo com essas condições iguais de testes, os voluntários foram divididos em dois grupos: um grupo que percebeu que estava em pé verticalmente (alinhados com a cena visual), embora estivessem deitados; e um segundo grupo que manteve uma ideia mais realista de sua posição.

Adaptação de astronauta

Para não perderem os parâmetros, os astronautas adotam alguns procedimentos para estabelecer um senso comum de direção. Por exemplo, na ISS, todos os módulos têm uma orientação “para cima”, onde a escrita nas paredes aponta na mesma direção. Esse senso de orientação é essencial quando as pessoas chegam ao espaço, e também ajuda na hora de evitar o "enjoo espacial". De forma semelhante aos resultados do estudo canadense, nem todos os astronautas terão enjoo espacial, mas ainda não se sabe exatamente quais critérios definem isso.

A vantagem é que essa alteração na percepção é temporária, e o cérebro, além de se adaptar, aprende a confiar nos olhos, reprogramando sinais que recebe para reconciliar a incompatibilidade. “As descobertas relatadas neste artigo podem ser úteis quando pousamos pessoas na Lua novamente”, comenta Harris, “já que ambientes de baixa gravidade podem levar algumas pessoas a interpretar seu próprio movimento de forma diferente —  com resultados potencialmente catastróficos", completa.

Para ler o artigo completo, publicado na revisa Plos One, clique aqui.

Fonte: Universe Today  

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