Cientistas usam "visão de raio X" para recuperar mapa das estrelas perdido
Por Danielle Cassita |

Uma tecnologia digna de ficção científica pode ter “recriado” o que parece ser o mapa estelar mais antigo da humanidade. Pesquisadores do Laboratório Nacional de Aceleradores (SLAC), nos Estados Unidos, usaram raios X para revelar o que guardava o mapa criado por Hiparco, astrônomo grego que mapeou o cosmos a olho nu entre 190 e 120 a.C. Até então, pensava-se que as coordenadas do astrônomo tinham sido perdidas para sempre.
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O manuscrito em questão é um palimpsesto, nome dado a páginas antigas cujos textos foram raspados ou sobrescritos — afinal, os pergaminhos custavam caro na Idade Média. No caso, no século VI, monges rasparam o texto original de Hiparco para reutilizar o couro animal, escrevendo por cima textos religiosos traduzidos em siríaco.
Como resultado, os textos religiosos ficaram facilmente visíveis a olho nu, mas as antigas coordenadas das estrelas escritas por Hiparco, bem como suas anotações, ficaram invisíveis por séculos. Isso mudou em 2022, quando uma análise de um manuscrito mostrou que o documento parecia conter o mapa estelar do astrônomo.
Precisão que desafia o tempo
Durante a análise feita em 2022, pesquisadores conseguiram relacionar os textos astronômicos encontrados à precessão da Terra, o movimento que nosso planeta faz sobre seu próprio eixo — e que era o assunto que Hiparco estudava na época. Embora técnicas anteriores tenham dado pistas do que havia embaixo, foi necessário levar o manuscrito para o laboratório.
A escolha não foi por acaso: a instituição guarda um síncroton, acelerador de partículas que acelera elétrons quase à velocidade da luz e, assim, cria raios X, que ajudam a diferenciar os compostos químicos nos materiais. É aqui que está o segredo: os monges usaram tinta rica em ferro, mas a de Hiparco tinha cálcio, permitindo que os cientistas "leiam" o grego antigo na camada inferior.
Até o momento, a equipe já conseguiu recuperar as descrições de algumas estrelas e uma referência à constelação de Aquário. Há apenas 11 páginas passando pelo processo no SLAC, mas o manuscrito conta com 200 no total, sendo que muitas estão em outros locais do mundo. Mesmo assim, os pesquisadores seguem otimistas.
“Isso nos ajudará a responder algumas das maiores perguntas sobre a origem da ciência.” Por que eles começaram a fazer ciência há mais de 2.000 anos? Como eles se tornaram tão bons nisso tão rapidamente? Porque as coordenadas que estamos encontrando são incrivelmente precisas para algo feito a olho nu”, declarou Victor Gysembergh, pesquisador que liderou o trabalho.
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Fonte: KQED