Além de foguetes reutilizáveis, Rússia também quer enviar mais missões a Vênus

Por Daniele Cavalcante | 10 de Agosto de 2020 às 11h51

Confirmado que o sucesso da SpaceX com a Crew Dragon, que levou astronautas da NASA à Estação Espacial Internacional e trouxe-os de volta pela primeira vez na história, vai fomentar a concorrência entre os Estados Unidos e a Rússia no desenvolvimento de veículos espaciais cada vez mais poderosos. Pelo menos é o que Dmitry Rogozin, o chefe da agência espacial russa, a Roscosmos, espera fazer.

Em uma entrevista à agência de notícias estatal RIA Novosti, Rogozin avisou que o país construirá naves superiores às de Elon Musk, CEO da SpaceX. “Estamos fazendo um foguete de metano para substituir o Soyuz-2", declarou, além disso, que a Roscosmos pretende voltar a realizar missões em Vênus e trazer amostras de lá.

Um Soyuz superior

O Soyuz-2 (Foto: Roscosmos)

De acordo com Dmitry, o novo veículo da Roscosmos será um complexo espacial reutilizável, assim como os da SpaceX. “É claro que estamos vendo o que nossos colegas americanos estão fazendo”, disse ele, afirmando que os engenheiros russos não querem simplesmente imitar a tecnologia dos EUA, “mas ultrapassá-los”. Ele quer que o próximo Soyuz possa ser reutilizado até 100 vezes.

Rogozin, que já havia desdenhado da decisão da NASA em construir seus próprios veículos de lançamento junto de empresas privadas norte-americanas, disse que não ficou impressionado com a nave da SpaceX. Para ele, seu pouso foi "bastante difícil", referindo-se ao “splashdown” da Crew Dragon no oceano, no último fim de semana. “Não foi projetado para pousar no solo - é exatamente por isso que os colegas americanos escolheram pousar na água, da forma como era feito há 45 anos”, disse.

Vênus

Sobre Vênus, Rogozin disse que este “sempre foi um ‘planeta russo’”, já que a União Soviética foi a única a ter obtido sucesso no pouso de sondas na superfície venusiana, mesmo que tenham sobrevivido por pouco tempo. "Eu acredito que Vênus é mais interessante do que Marte", disse Rogozin. Para ele, estudar Vênus poderia ajudar os cientistas a entender como lidar com as mudanças climáticas na Terra.

Sua postura em relação a Vênus é devido a estudos que mostram que o mundo vizinho já foi semelhante ao nosso, mas sofreu uma catástrofe climática e se tornou o planeta mais quente do Sistema Solar, absolutamente inabitável. “Se não estudarmos o que está acontecendo em Vênus, não entenderemos como evitar que um cenário semelhante aconteça em nosso planeta”, afirmou o diretor da Roscosmos.

Primeira fotografia colorida de Vênus registrada pela humanidade, tirada pela sonda soviética Venera 13 em 1981 (Foto: Reprodução)

Existem diferentes versões sobre a possível história do passado de Vênus. Uma delas, mais clássica, diz que o planeta tinha um clima agradável e potencialmente habitável, mas não foi capaz de manter seu ciclo da água. O Sol teria evaporado rapidamente os oceanos venusianos, enviando esse vapor para o alto, onde se formou uma atmosfera densa que prendeu no planeta todo o calor recebido. Outra hipótese aponta para alguma catástrofe que sufocou aquele mundo em dióxido de carbono.

Mesmo com muito estudo e teorias, é impossível saber com certeza o que aconteceu com nosso vizinho sem missões por lá. Por isso, com ou sem a cooperação dos americanos, Dmitry espera trazer materiais de amostra da superfície de Vênus. “Nós sabemos como fazer isso”, acrescentou ele, dizendo que cientistas russos estão estudando documentos relevantes da era da exploração espacial soviética.

Por fim, lamentou os repetidos cortes no orçamento da Roscosmos, que ameaçam muitos dos seus programas. “Não entendo muito bem como trabalhar nessas condições”, declarou.

Fonte: Phys.org

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