Crítica Free Guy | Sobre tomar o controle de sua própria história

Crítica Free Guy | Sobre tomar o controle de sua própria história

Por Beatriz Vaccari | Editado por Jones Oliveira | 12 de Agosto de 2021 às 21h22
20th Century Studios

A pandemia da COVID-19 impactou diretamente o calendário de estreias cinematográficas e fez com que filmes muito aguardados tivessem seu lançamento adiado para meses depois — e alguns até sem previsão. Com cada estúdio lidando com as circustâncias de sua própria maneira, a 20th Century Studios optou por segurar a distribuição global de Free Guy: Assumindo o Controle, um longa que reúne Ryan Reynolds, Taika Waititi, Jodie Comer e Joe Keery em uma só tela sob o comando de Shawn Levy.

Apesar de obviamente ser inspirado num videogame, soa até injusto dizer que o filme é uma adaptação. Com a premissa de fisgar os fãs de títulos como Grand Theft Auto, Free Guy é um longa-metragem com uma história 100% autônoma e independente que se desprende de um pano de fundo para tomar seus próprios rumos. E, no final das contas, o adiamento por conta da pandemia acabou entregando ao lançamento um timing perfeito, disposto a promover humor, leveza e o escapismo que muitos brasileiros precisam no atual momento.

Atenção! Este texto pode conter spoilers.

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O falso entusiasmo numa realidade pouco comovente (Imagem: Divulgação / 20th Century Studios)

O filme começa caçoando de si mesmo logo no título de seu próprio videogame (e, consequentemente, do longa): Free Guy não tem nada de livre, pelo menos no início. O protagonista (Reynolds) é nada além de um simples NPC (Non-Player Character, em inglês), ou seja, aquele personagem nos jogos que serve como mero figurante, levando uma vida pacata e sem muitos acontecimentos relevantes — justamente pelo simples fato de que não foi lhe dada a oportunidade de ser mais do que isso.

Quando colocado num contexto absurdo, em que explosões, tiroteios e assaltos a bancos fazem parte da rotina diária da chamada Free City é que percebemos a importância de um personagem desse tamanho ser vivido por Ryan Reynolds. Há papéis que em mãos erradas podem se tornar um verdadeiro desastre, e não é equivocado dizer que seria o caso de Guy se uma figura menos carismática de Hollywood o interpretasse: o NPC é entusiasmado, alegre e sonhador, por mais que não saiba verdadeiramente os motivos que o levam a pensar assim, por mais que trate a mesmice de sua rotina de forma debochada; mas é justamente por conta da identificação com o protagonista que a primeira virada de roteiro de Free Guy acaba tornando-se tão impactante.

O costume de uma rotina caótica e coadjuvante (Imagem: Divulgação / 20th Century Studios)

Parece irônico dizer que um filme baseado em videogames, com forte referência a GTA, traga uma reflexão profunda sobre individuação, pertencimento e responsabilidade — mas Free Guy consegue ser isso e mais um pouco. Guy é um simples canal de idealização do programador Keys (Joe Keery), que sempre foi apaixonado pela melhor amiga, mas nunca teve coragem para revelar seus sentimentos. É então que, por meio do NPC, ele canalizou todos os seus desejos, aspirações e sonhos; e mesmo por se tratar de um personagem meramente fictício (tanto no nosso mundo quanto no do filme), acompanhar o crescimento emocional de Guy é lindo.

Apesar de toda a aventura colocada por trás (afinal de contas, um filme para toda a família precisa de uma história a ser seguida), Free Guy: Assumindo o Controle é, acima de tudo, uma história sobre quebrar barreiras (mesmo que aqui sejam simbolizadas por simples óculos escuros) e "assumir o controle" de sua própria história — trocadilho que o título na versão brasileira indica muito bem, inclusive. A moral é simples quando racionalizada: apenas um filme sobre escolher agir com bondade, humildade e paciência; mas a partir do momento em que Shawn Levy mostra o quão longe uma pessoa (ou um NPC) pode ir por consequência de boas ações, seja a curto ou longo prazo, é como se um novo mundo fosse revelado diante de nós mesmos.

A quebra de uma barreira (Imagem: Divulgação / 20th Century Studios)

Por outro ângulo, o filme também oferece diversas reflexões e interpretações que podem ressoar em cada um de maneiras distintas. A relação indireta de Guy com Antoine (Waititi) é uma das metáforas mais fortes entregues em toda a história, uma vez em que o empresário milionário não dá absolutamente nada ao personagem e dificilmente o enxerga como um incômodo. O NPC, no entanto, mal sabe de sua existência, então não é como se suas ações fossem motivadas pela aprovação alheia; talvez até sem intenções, Levy traz aqui um processo de individuação, tal como o psicanalista Carl Gustav Jung desenvolveu em sua teoria, que remete a um processo no qual um ser se transforma em uma unidade autônoma e indivísivel, tornando-se uma totalidade.

É por isso, no entanto, que Guy acaba sendo um dos personagens emocionalmente mais bem desenvolvidos no cinema atual — e isso está longe de seu desenvolvimento com Inteligência Artificial. Free Guy é sobre viver no contexto em que se é colocado, mas vivendo suas próprias convicções e todos os dias encontrar uma maneira de romper paradigmas. Além disso, demonstrando gratidão para todo o auxílio que foi necessário nesse processo, desde a aparição de Millie (Jodie Comer) ao uso dos óculos digitais, mas, no final das contas, saber que, acima de qualquer coisa, aquela história é inteiramente particular, bem como todo o mérito.

Humor na medida certa e carisma de sobra no resto do elenco (Imagem: Divulgação / 20th Century Studios)

Dose certa de humor e diversão garantida

Além de toda a reflexão proposta, Free Guy é um ótimo antídoto para dias ruins, com humor na medida certa, relações de pura leveza entre seus personagens e referências muito inteligentes a grandes clássicos dos games e do cinema. O humor fácil de Ryan Reynolds ajuda muito nesse aspecto, e o ator não tem vergonha nenhuma de esconder que carrega um pouco de seus personagens anteriores em Guy, sobretudo Wade Wilson, de Deadpool.

A referência para Matrix em Free Guy (Imagem: Divulgação / 20th Century Studios)

Joe Keery, Jodie Comer e Taika Waititi também vestem muito bem seus papéis, este último trazendo uma versão ácida e moderna do que seria um vilão da Disney nos dias atuais. Por outro lado, os atores conhecidos por Stranger Things e Killing Eve, respectivamente, desenvolvem uma química leve e interessante de se acompanhar — embora isso esteja longe de ser o foco do filme. O carisma e humor fácil se estendem ao resto do elenco, mais especificamente aos personagens de Lil Rel Howery, que interpreta o carismático policial Buddy (cujo nome foi muito bem pensado); Utkarsh Ambudkar, que vive o programador Mouser; e até mesmo Channing Tatum, que possui pouco tempo de tela, mas entrega bons momentos de humor.

Com referências divertidas de serem notadas ao longo do filme, seja para Matrix ou Westworld (além de uma das melhores piadas dos últimos tempos em seu terceiro ato), Free Guy é, no final das contas, um filme que promete extrair do espectador todas as emoções possíveis em quase 120 minutos de duração. Há boas doses de risadas, emoções à flor da pele e um desfecho capaz de aquecer o coração.

Free Guy estreia nos cinemas brasileiros na semana que vem  (Imagem: Divulgação / 20th Century Studios)

Free Guy: Assumindo o Controle está em cartaz nos cinemas a partir de 19 de agosto.

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