Para todos! Filmes e séries que foram desenvolvidos pensando na acessibilidade

Por Nathan Vieira | 30 de Maio de 2020 às 22h00
Divulgação/Netflix
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Em meados de abril, o Canaltech deu início a uma série chamada "Inspiradores", focada em influenciadores que participam de minorias, e em uma das partes dessa série apresentamos influencers com surdez, que, em meio a um conteúdo pouco presente nas redes sociais, conquistam cada vez mais espaço para expor detalhes de um cotidiano desconhecido pelas pessoas ouvintes. E olha que legal: nessa mesma época, uma série bem diferente entrou para o catálogo da Netflix. Crisálida é a primeira série de ficção em língua brasileira de sinais (Libras) e português.

“Num universo onde o som não existe, jovens surdos enfrentam os desafios de uma sociedade desenhada apenas para ouvintes”, conta a sinopse da série que estreou na Netflix no Brasil e em Portugal no dia 1º de maio. A produção nacional, rodada em Santa Catarina, almeja modificar a tradicional percepção sobre os surdos, que, segundo o IBGE (2010), somam cerca de 9,7 milhões de pessoas no país. Fruto do Prêmio Catarinense de Cinema, Crisálida é realizada numa parceria entre a Arapy Produções, a Raça Livre Produções e a TVi Televisão e Cinema.

O projeto da série foi criado em 2014 pela autora Alessandra da Rosa Pinho, aluna de Letras Libras na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Naquele ano, foi vencedor do Edital do Fundo Municipal de Cinema de Florianópolis para a produção do episódio piloto. Dirigido por Serginho Melo e com fotografia de Edison Fattori, estreou no Florianópolis Audiovisual Mercosul (FAM) e recebeu convites para festivais e eventos da comunidade surda.

Em 2016, o projeto foi contemplado no Prêmio Catarinense de Cinema para a produção de quatro episódios de 30 minutos. A pré-estreia ocorreu em dezembro de 2018, na mostra Surdocine do Festival Internacional 7º Curta Brasília. Em setembro de 2019, estreou na TV Cultura e, a partir disso, um novo produto foi criado, originando o longa-metragem Crisálida – O Filme, destinado a mostras e festivais. Recentemente, o projeto de Crisálida foi contemplado no Prêmio Catarinense de Cinema 2019 para a produção da segunda temporada. A previsão é que o lançamento ocorra em 2021.

A equipe do Canaltech conversou com Alessandra da Rosa Pinho, que além de autora também é produtora executiva da série, para entender como é produzir um conteúdo com essa proposta. Pinho conta que a série tem a pretensão de que as pessoas consigam ter acesso a esse tipo de comunicação e a questão é ter a Libras na tela principal, e não numa janela, como tradução. Além disso, ela relembra que o curta serviu como pesquisa para entender como trabalhar com pessoas surdas.

Desafios de um conteúdo diferente

A própria autora da série conta que não faltou desafio na hora de produzi-la:

"Crisálida é uma proposta inovadora por causa desse aspecto de ter Libras e português juntos no mesmo produto com essa estética. A ideia é que surdos e ouvintes assistam juntos, sentados no mesmo sofá. Então você pensar num formato que não existe e tentar colocar isso em prática é um processo de vários erros e acertos, porque a gente pesquisou muito, fez vários testes, e a própria produção em si de trabalhar com atores surdos também foi um grande desafio para a equipe técnica e para o diretor, que também aprendeu Libras para poder lidar com esses atores", aponta.

Pinho também diz que vários intérpretes foram contratados para trabalharem com a equipe durante a produção: "Também chamamos um consultor surdo para trabalhar nesse processo desde a criação do roteiro para que a gente pudesse contar o ponto de vista dos surdos e não apenas eu como uma autora ouvinte falando sobre eles". A autora reitera que o principal desafio foi a questão de ser, acima de tudo, uma série de entretenimento: "Não é um documentário, é uma ficção. A gente também trata de vários temas que são comuns aos jovens surdos. Então acho que tem esse desafio de tornar esse produto atrativo para surdos e ouvintes, para que ele não fique só na comunidade surda".

A produtora executiva também chama atenção para outras questões: "Produzir audiovisual aqui no Brasil não é nada fácil, é difícil contar com recursos públicos. Estamos há seis anos trabalhando em Crisálida", conta. "Claro que as barreiras existem, inclusive de preconceito também. O projeto em si se torna um pouco marginal. A gente já participou de outros festivais e se sentiu excluído, tem toda essa questão das pessoas olharem com um pouco de estranheza. Tudo o que é novo causa isso. Mas hoje em dia tenho percebido que tem ajudado a abrir muitas portas, inclusive para nós como produtores".

As gravações da série foram realizadas entre janeiro e março de 2018, com direito a uma preparação bem intensa. A produção conta com atores ouvintes que já tinham experiência, mas os atores surdos não tinham realizado trabalhos, com exceção de alguns deles que já tinham atuado no curta, então já sabiam como se comportar em set, mas foi feita uma preparação não apenas em relação a ensaios e a Libras.

"A gente também fez tradução dos textos, os atores ouvintes precisaram aprender um pouco de Libras, o consultor surdo fez uma fiscalização para ver se estava correta toda a sinalização. Para os atores foi tudo muito diferente, muita novidade. Durante as gravações, foi muito puxado, com uma dinâmica diferente. Também criamos um sistema de trabalho em que estávamos nos comunicando em Libras em vários momentos no set e os técnicos foram aprendendo ao longo das gravações", conta a produtora executiva.

Para a segunda temporada, Pinho conta que a equipe já pensa em fazer um processo de preparação um pouco maior para que as pessoas cheguem mais prontas e familiarizadas com Libras, já que a expectativa é ter um número maior de episódios. "É um trabalho um pouco maior, estamos torcendo para que saiam logo os recursos da segunda temporada. A ideia é que ela tenha mais seis episódios de meia hora cada", afirma.

Inclusão

Quando Pinho começou a estudar Libras, sentiu vontade de parar de trabalhar com produção audiovisual para ser intérprete. "Achei que poderia ajudar os surdos. Quando me deparei com meus colegas surdos e fui conhecendo essas pessoas incríveis, percebi que elas não precisavam de ajuda, mas sim de reconhecimento, de valorização e de oportunidade, o que é diferente. Comecei a ver histórias incríveis ali, e precisava contá-las. Foi quando descobri a minha missão nessa área: levar essas histórias ao público", relembra.

Questionada sobre a importância da inclusão, ela conta que os sujeitos surdos, quando assistem à série, ficam encantados ao verem um produto falando sobre eles e acabam se sentindo reconhecidos ao mesmo tempo que a equipe percebe uma transformação social sendo realizada. "O mais legal é ouvir relatos de pessoas que não têm contato nenhum com esse universo e que, ao assistir Crisálida, começam a refletir sobre isso, ter empatia".

A autora ainda ressalta: "É incrível o número de pessoas que me escrevem dizendo que querem aprender Libras e isso é uma realização, porque quando começam a aprender Libras, elas vão começar a se comunicar com surdos, então essa barreira vai passar a ser bem menor. Então é muito importante ter conteúdos que falem sobre essas diferenças, temas que falem sobre a realidade das pessoas que às vezes não são vistas pela sociedade. A gente tem que dar espaço para conteúdo que façam a diferença".

Netflix

Desde 2016, a equipe já vinha tentando fazer com que a Netflix exibisse a série. A ideia original era que a própria plataforma de streaming produzisse a série, mas não houve interesse. Por causa disso, as produtoras decidiram fazer primeiro e depois oferecer o produto pronto. "Tentamos várias vezes. Em outubro de 2019, nós já tínhamos o edital para a segunda temporada, então escrevemos para a Netflix novamente e, para a minha surpresa, um mês depois eles me escreveram dizendo que queriam", afirma a produtora executiva. Alessandra ainda se diz interessada na possibilidade da Netflix colocar a série em outros países, já que por enquanto está só no Brasil e em Portugal.

No ano passado, a equipe esteve no Festival de Cinema de Gramado participando de um evento chamado "Legenda para quem não ouve, mas se emociona" e teve a oportunidade de assistir a mais filmes feitos em Libras. "A gente assistiu a dois curtas produzidos em língua de sinais e com uma fotografia muito rica. Esperamos que em breve eles estejam no mercado, porque sabemos que Crisálida pode abrir algumas portas para outros projetos e para que as pessoas se interessem em falar sobre os surdos, ou de fazer projetos bilíngues", conclui a produtora.

Outras produções inclusivas

Crisálida foi a primeira série do Brasil a partir dessa proposta bilíngue, mas há produções de outros países que investem na mesma temática. É o caso, por exemplo, de Switched at Birth, que estreou na ABC Family em 2011, originalmente bilíngue em Língua Americana de Sinais e Inglês. "Essa série também usa a língua de sinais na tela principal e também foi uma referência para a gente, porque, quando criei o projeto, eu tinha muitas dúvidas se isso funcionaria. Quando eu conheci Switched at Birth, tive a prova de que dava certo e que poderíamos ter um produto nesse sentido, e isso validou o nosso projeto", conta Pinho.

Cena da série Switched at Birth (2011)

A série gira em torno de duas adolescentes que foram trocados no nascimento e cresceram em ambientes muito diferentes: uma em uma região nobre; outra numa região bem mais pobre. Na trama, Daphne Vasquez (Katie Leclerc) é uma garota que ficou surda quando criança devido a meningite e que estuda em um colégio especial para surdos. Ela consegue se comunicar com as pessoas ouvintes desde que tenha contato visual, para que ela possa fazer leitura labial. Com cinco temporadas, a série foi encerrada em 2017.

O filme The Hammer (2010), que também utiliza a Língua Americana de Sinais (ASL), conta a história de Matt Hamill, um dos mais emblemáticos lutadores surdos dos Estados Unidos. Nascido na cidade de Loveland, em Ohio, e incentivado desde criança por seu avô, Matt fez do da luta livre algo central em sua vida, não poupando esforços para ser o melhor. Quando jovem, depois de perder uma bolsa de estudos na Universidade de Purdue, ele ingressou na Rochester Institute of Technology, onde — além de brilhar em campeonatos nacionais — estreitou contato com o mundo surdo, a ASL e conheceu Kristi, militante surda por quem logo se apaixonou. Estrelado por Russel Harvard, o filme conta com a participação de Shoshannah Stern, Michael Anthony Spady e Lexi Marman, também surdos. O grande mote do filme é que ele traz à tona uma série de questões relacionadas ao dia-a-dia de pessoas surdas.

A Família Bélier (2015) é outra produção francesa que também traz tanto a língua francesa quanto a Língua Francesa de Sinais (LSF). A comédia conta a história da família Bélier, que é inteira surda. A única exceção é Paula (Louane Emera), uma jovem de 16 anos que tem a função de ser a intérprete oficial dos pais e figura fundamental na administração da fazenda. Um dia ela descobre ter um dom para o canto e decide participar de um concurso da Radio France.

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