Crítica | You Should Have Left é terror para assistir deitado no divã

Por Laísa Trojaike | 02 de Julho de 2020 às 12h15
Blumhouse

A adaptação do livro de Daniel Kehlmann era muito mais aguardada por causa da Blumhouse, produtora de alguns dos melhores títulos do terror contemporâneo, que por qualquer outro motivo. O ótimo trailer, infelizmente, traz alguns dos melhores momentos do filme e afeta um pouco a experiência por remover o elemento surpresa, o que não afetaria o filme se ele tivesse ainda mais momentos marcantes. Além da Blumhouse, Kevin Bacon também é motivo suficiente para assistir You Should Have Left, já que, além de ser um rosto que evoca nostalgia no gênero, é um excelente ator e não deixa de entregar uma atuação que contribui muito para a experiência do filme.

You Should Have Left não é um filme perfeito e não chega a ser um clássico instantâneo do terror, embora pudesse ter sido. Não parece faltar competência, mas sim paixão pelo gênero ou pelo menos um pouco mais de recursos típicos do terror. Ainda assim, o roteiro é tão bom que o filme se destaca apesar da direção, o que é um mérito enorme e faz valer todo o filme.

Atenção! A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.

Psicologismos

A psicanálise (ou pelo menos o termo cunhado por Freud) é quase tão antiga quanto o próprio cinema e são muitos os filmes que se apoiam em teorias psicológicas, inclusive as mais óbvias e populares. Um exemplo é Ad Astra: Rumo às Estrelas (2019, James Gray), que basicamente é a história de um homem que viaja para os confins do universo para cortar seu cordão umbilical com o pai (o que acontece quase que literalmente pela composição imagética criada). A lembrança de dois outros clássicos psicanalíticos (citados abaixo), me fizeram seguir no sentido de que You Should Have Left parece estar muito mais interessado na psicologia do personagem que em entregar um filme de terror que exalta o gênero, o que não é um problema, mas apenas uma abordagem livre de qualquer juízo de valor em si.

Imagem: Blumhouse

A casa parece ser a forma concreta da mente de Theo (Kevin Bacon) e o elemento terror vem da ideia de que o local tem uma vida própria e escolhe as pessoas. Não fosse a metáfora, poderia ser puramente um terror psicológico, mas esse elemento encontra outros subgêneros como o de casa mal-assombrada, pela vida própria do imóvel, e de maldições, já que o personagem é levado a um destino como consequência de suas ações.

As portas são um elemento importantíssimo de You Should Have Left, e foi justamente isso que me fez lembrar o psicologismo de O Segredo da Porta Fechada (1947, Fritz Lang). Embora não saibamos o que é a princípio, o roteiro apresenta Theo como alguém que tenta lidar com algo que aconteceu no passado, tentando superar o que descobriremos depois ser a morte da esposa. Theo usa autoajuda, que o induz ao uso de um diário, e é aqui que entra a primeira grande lição de You Should Have Left: autoajuda não é a ajuda especializada de um psicólogo, ou seja, a jornada solo de Theo o guia pela casa, entrando e saindo de lugares que não fazem sentido nem parecem ter conexão, como ao entrar por uma porta e sair em um cômodo que não existia ali ou criar conexões entre cômodos que não estavam ligados antes, algo similar a tentar compreender a própria mente sozinho e só piorar a situação ao se afundar no próprio distúrbio.

A piora acontece justamente quando ele encontra uma versão suja e destruída da casa, que esconde o seu segredo, o assassinato da ex-esposa. É lá que ele encontra a versão de si que ele se recusava a ver, algo equivalente ao Id ("sistema básico da personalidade, que possui um conteúdo inconsciente, por um lado hereditário e inato e, por outro, recalcado e adquirido", como indica a descrição do verbete em um dicionário). Sendo assim, esse local também marca a entrada do personagem no inconsciente, que em Divertida Mente (2015, Pete Docter) também se encontra “atrás de uma porta”. A jornada de Theo, portanto, é um voltar-se sobre si da forma errada, uma má confrontação do eu.

Imagem: Blumhouse

Com isso tudo em mente, não é a toa que o personagem não consegue distinguir sonho de realidade, não somente porque é plausível para o roteiro, mas também porque os sonhos são de suma importância para a psicanálise, justamente porque é uma atividade mental sobre a qual não temos controle e que pode revelar muito sobre nosso estado mental, com Freud chegando a escrever A Interpretação dos Sonhos. Um elemento recorrente nesse livro, inclusive, são as escadas, que me levam ao segundo clássico que veio à minha mente: 39 Degraus (1935, Alfred Hitchcock). Interpretações indicam ligações da escada como um símbolo do voltar-se sobre si, mas também na relação com o pai e é precisamente em um momento crítico envolvendo essas duas coisas que Theo precisa enfrentar uma escada com características onírica e, aqui, a direção é excepcional ao conseguir transmitir a sensação de que a escada não muda muito o seu tamanho, mas mesmo assim parece dificultar a subida de Theo, como quando corremos com todas as forças, mas não saímos do lugar nos sonhos.

Há, no entanto, uma subversão do freudianismo, talvez inclusive uma recusa. Apesar de todos os elementos psicanalíticos, não é a filha quem “mata” o pai, como faz Ad Astra. Ella (Avery Tiiu Essex), embora seja apenas uma criança sofrendo as consequências dos eventos ao seu redor, é a verdadeira chave nessa interpretação e talvez a casa não seja exatamente uma vilã ao promover a recusa de um freudianismo clichê. Ella é absolutamente inocente com relação aos crimes do pai, mas aos poucos passa a ser vítima da casa, sendo inclusive afogada em um dos sonhos de Theo, no sentido justamente de que herdamos problemas familiares, o terror central do filme Hereditário (2018, Ari Aster). You Should Have Left no, entanto, é a recusa de que isso seja conduzido ao ponto da morte do pai pelas mãos da filha (a morte do pai, na psicanálise, é metafórica, claro). Theo é conduzido a um estado de reconhecimento de que ele precisa cuidar dos seus problemas, mesmo que isso signifique autossacrifício em algum nível.

Imagem: Blumhouse

Além de Freud

O roteiro de You Should Have Left é razoavelmente complexo para garantir um bom plot twist (vulgo reviravolta), mas a direção não parece muito empolgada com o gênero, embora David Koepp tenha uma certa experiência com terror. O roteiro de Koepp é, em si, excelente e este seria mais um dos melhores filmes Blumhouse se a direção fosse mais apaixonada e não apenas suficiente. Há uma falta de tensão caracterizada pelos quase inexistentes planos-detalhe e mesmo o medo acaba afetado por decisões artísticas de gosto duvidoso, como adição do efeito glitch à sombra sem que haja justificativa para isso, adicionando uma estética que remete à tecnologia em algo que é puramente psicológico e sobrenatural.

A direção de arte tem um trabalho que não é tão exaustivo, mas é de um minimalismo notável na construção dos cenários em tons de cinza, com detalhes em madeira e pouquíssimos móveis. Embora a mansão seja bastante moderna, realmente atrativa e coesa com a ideia de que é um lugar para onde pessoas bem-sucedidas do ramo cinematográfico iriam, dispensando a boa e velha casa em estilo vitoriano, há muito de clássico na ambientação: a casa fica em uma colina, à noite a colina fica coberta por uma névoa gótica e tudo isso fica próximo a um vilarejo que tem o típico personagem esquisito que tenta avisar os protagonistas, mas, ao mesmo tempo, parece um vilão.

Imagem: Blumhouse

O figurino acerta em cheio ao colocar Ella em uma roupa amarela, indicando alerta de perigo, mas denunciando que a menina não irá morrer pela ausência de qualquer vermelho, cor que costuma denunciar imageticamente as tragédias.

You Should Have Left mistura em doses iguais o thriller (suspense) psicológico e o terror, mas a direção demonstra maior domínio da primeira parcela, prejudicando as principais consequências da segunda: há medo, mas ele poderia ser potencializado, porque há muita potência para isso no roteiro e na capacidade dos atores. Ainda assim, You Should Have Left é um filme excelente e segue mantendo a marca da Blumhouse como produtora de filmes de terror imperdíveis.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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