Crítica | Rogue atira para todo lado e talvez acerte algum alvo

Por Sihan Felix | 12 de Setembro de 2020 às 15h00
Grindstone Entertainment Group

É difícil esperar algo acima da média quando se trata de um filme dirigido por M.J. Bassett e protagonizado por Megan Fox. Não que não possam ter competência, mas porque, a se levar em conta trabalhos anteriores, a expectativa pode cair. Por outro lado, isso é algo muito bom para Rogue, porque, se for assistido sem muita pretensão, pode ser um trabalho com uma força bem eficiente.

Bassett, nesse sentido, parece compreender, a princípio, que tudo aquilo que tem em mãos não é uma obra-prima ou algo de muita relevância narrativa. Então, o início do filme já traz uma sequência de ação forte, contornada por um suspense corajoso no que diz respeito à criação de leões. A diretora não se intimida na utilização de planos detalhes que mostram tudo sem serem explícitos e, ao mesmo tempo, constroem um sentimento de urgência. Essa sensação, aliás, pode dizer tanto sobre Samanta (Fox) e seus imediatos quanto sobre os próprios animais presos em jaulas. Até porque, quando finalmente aparece, Sam é mostrada como se estivesse atrás de grades. 

Como se estivesse atrás de grades. (Imagem: Grindstone Entertainment Group)

E é a partir dessa complexidade que algumas escolhas narrativas podem desandar.

Atenção! Esta crítica contém spoilers sobre o filme!

Enfeites ou utilidades

Rogue, sem muita demora, começa a se transformar em um filme de gênero híbrido. O início um tanto pesado que denuncia os horrores realizados com os animais enjaulados logo dá espaço para uma ação aparentemente militar. Se antes os planos são fechados e as ações parecem acontecer muito mais fora das imagens do que naquilo que é mostrado, na sequência, a diretora abre e revela o todo, a ação de resgate liderada pela personagem de Fox.

As jaulas, a esse ponto, não guardam leões, mas meninas, sendo uma delas (Asilia — Jessica Sutton) a filha do governador. Sam e os demais, enfim, revelam-se mercenários que estão ali para resgatar a moça. A dinâmica é praticamente imparável. Não existe sossego ou descanso. Quando Bassett opta por closes, tudo parece estremecer; quando ela escolhe um plano geral, um tiroteio é revelado.

A ação é praticamente ininterrupta. (Imagem: Grindstone Entertainment Group)

Essa falta de descanso em Rogue pode desviar a atenção da história, o que é uma atitude interessante da diretora junto ao roteiro dela própria e de sua filha Isabel Bassett (que interpreta a Tessa). Em alguns momentos, é como se ela (a diretora) desprezasse os acontecimentos e estivesse focada totalmente na forma, no estilo e em como causar sensações.

Por essa perspectiva, parece não importar que existem, pelo menos, três carros na fazenda na qual o grupo de mercenários chegam para o segundo ato do filme. Não há, sequer, a verbalização da possibilidade de tentar ligar um deles para saírem dali o quanto antes. Se dizem que morrerão caso passem a noite naquele lugar, os carros são simples enfeites, supérfluos preparados e regidos por um desenho de produção (de Waldemar Coetsee) que gosta mais das bandeirinhas de São João do que das comidas de milho: ele parece preferir os enfeites e desprezar as utilidades dentro de sua linguagem.

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A ação fica

Dito isso, Rogue é mais do que um filme híbrido, é um filme multigênero, que parte do terror ecológico, passa pela ação de guerra, pelo thriller, pelo drama, até retornar ao terror ecológico — sem sair da ação. A leoa maltratada que mais parece Cujo, nome do cachorro assassino e do filme de Lewis Teague (1983), faz de tudo uma caçada vingativa. Ela é, na prática, como John Wick: um bicho-papão imparável, insaciável e que quer a morte de seus alvos. Melhor: se é o ser humano que tem posto tantas espécies à beira da extinção, ela (a leoa) surge como uma heroína. Assim, o terror ecológico, regido com competência por Bassett demonstra ter algum foco.

Acontece que, por mais que as cenas sejam bem construídas pela direção, existe um ar de filme B que parte tanto dos efeitos visuais toscos quanto do roteiro. Este, se dava ares de ser híbrido e abraçar temas diferentes com alguma coragem louca, acaba por se encaminhar por caminhos expositivos e didáticos demais em sua resolução. Os diálogos, que felizmente são poucos durante boa parte dos 105 minutos, afundam-se em constrangimentos e obviedades que as imagens já diziam. E a leoa-Cujo, que pode parecer uma metáfora da natureza se vingando do homem, revela-se somente como uma mãe que cuida dos filhotes.

Sam e seus subordinados. (Imagem: Grindstone Entertainment Group)

Não que isso não seja válido ou até bonito. É uma resolução interessante e pode até ser satisfatória, mas, sem querer, pode por em xeque muito do que foi erguido anteriormente. Até mesmo o feminismo guiado por Sam — que é duvidada em sua liderança por subordinados homens — termina sem muito impacto. A vingança da leoa, o mercenarismo do grupo, a força das mulheres... tudo fica aterrado em um filme que funciona, mas, ao mesmo tempo, quer falar de muito mais do que consegue e pode acabar falando pouco ou nada. Resta a ação e, nisto, Bassett acerta.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

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