Crítica | Passageiro Acidental parece precisar de uma alma

Crítica | Passageiro Acidental parece precisar de uma alma

Por Sihan Felix | Editado por Jones Oliveira | 28 de Abril de 2021 às 11h52
Netflix

Depois de episódios de séries nas décadas de 1950, 1960 e 1980, foi lançado, em 1996, um filme para TV chamado The Cold Equations (de Peter Geiger). Naquele filme, um homem é enviado em uma missão especial e, por acidente, descobre uma clandestina na nave quando já é tarde demais. Em 2011, uma produção com o mesmo título e a mesma história estreou nos cinemas, mas sem créditos oficiais à anterior (ou às outras). Mais 10 anos e surge Passageiro Acidental, com uma nova roupagem, mais personagens, mas ideia semelhante. Novamente sem menção ao que veio antes.

É verdade que o filme não chega a ser um plágio. Existe uma máquina interna guiada por diálogos que separam a produção atual das anteriores. Por outro lado, pode não ser justo pensar no todo como sendo original. Nada de errado, claro, em adaptar histórias, trazer uma nova roupagem. O problema, nesse caso, é quando os maiores elogios são, justamente, para a ideia central: de alguém que é descoberto dentro de uma nave que partiu em uma missão especial... quando já é tarde demais.

Atenção! Esta crítica pode conter spoilers sobre o filme!

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Aperto nenhum

Acontece que Passageiro Acidental é dirigido com tentativas iniciais de inserir o espectador dentro da nave. Isso, ao menos inconscientemente, pode ficar claro quando, ao entrar em contato com a Terra, somente a comandante e a dupla de tripulantes escutam o que é dito. Quem assiste fica completamente à mercê. Narrativamente, é um conceito interessante, mas que não encontra força nas imagens.

Somente eles escutam. (Imagem: Reprodução/Netflix)

Isso porque, em se falando do visual, existe um distanciamento de tudo o que é visto. O olhar da direção de Joe Penna é quase burocrático, exercendo uma função oposta à narrativa. Tudo é distante para o público. Não há nem mesmo planos detalhes na construção de qualquer proximidade. Os closes nos rostos do elenco nunca são para a construção de empatia, mas acontecem para reforçar os sentimentos de cada um — sem força para que eles (os sentimentos) alimentem quem assiste.

Por essa perspectiva, o trabalho de Penna parece ir na contramão até do que é dito pelos personagens. Ao mesmo tempo em que se comenta sobre o tamanho da nave, que é pequena e feita para somente duas pessoas, o diretor escolhe planos que mostram corredores compridos, salas razoáveis... Há um momento, inclusive, que ele utiliza um movimento de câmera vertical (pedestal) que mostra o distanciamento entre as camas de Zoe (Anna Kendrick) e David (Daniel Dae Kim) — visualmente, em comparação a um compartimento apertado, daria para mais uma pessoa pelo menos.

O pedestal entre a camas. (Imagem: Reprodução/Netflix)

Ainda, o grau de previsibilidade de Passageiro Acidental é quase estranho demais. Cada adversidade é anunciada de algum modo: seja a tempestade solar — que é mencionada antes por Marina (Toni Collette) —; seja a entrega final de Zoe — que é justificada pela fraqueza aos giros de David —; seja o próprio título, que já indica o que será o motor de tudo — e que não é fruto da versão brasileira, visto que originalmente o filme se chama Stowaway (Clandestino em tradição livre).

A rápida poesia

Felizmente, nem tudo é complicado em Passageiro Acidental. O elenco, comandado por Collette, é competente o suficiente para camuflar muitas das escolhas de Penna. O menos conhecido Shamier Anderson (o Michael) é uma grata surpresa e não tem problema algum em contracenar intensamente com os colegas. Pelo contrário: é de sua atuação que surgem as melhores dualidades — algo que, aparentemente, não foi construído pela direção.

As melhores dualidades surgem do Michael. (Imagem: Reprodução/Netflix)

Enquanto isso, apesar de parecer impossível alguém embarcar clandestinamente — por acidente ou não — em uma missão tão minuciosa quanto a que é acompanhada, talvez fique clara a riqueza de especificidades técnicas do filme. Nesse caso, a consciência científica da produção parece estar em dia, o que poderia ajudar a inserir o espectador naquele universo.

Mas não... Infelizmente, pouco é dito sobre os quatro personagens para além de Yale, Harvard e a vida de estudos dedicados. Talvez Michael seja o mais capaz de criar ligações com o público, tanto pela interpretação de Anderson quanto por ser quem tem a história anterior aos minutos do filme mais explorada em camadas humanas. Essa ligação é a mais emotiva em meio à boa ciência exata de Passageiro Acidental. Uma pena, portanto, que tudo acabe com um ritmo descompassado, abrupto, incoerente com a tentativa poética do sacrifício de Zoe.

Passageiro Acidental está disponível no catálogo da Netflix.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

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