Crítica | O Dilema das Redes é bem produzido, mas falha em apontar dedos

Por Rui Maciel | 15 de Setembro de 2020 às 08h48
Divulgação/Netflix
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Antes de mais nada, é bom deixar claro: O Dilema das Redes, lançado recentemente pela Netflix, é um documentário obrigatório para os mais leigos entenderem melhor a ascensão das redes sociais nas nossas vidas. Bem produzida, a obra mistura os depoimentos de especialistas de diversas áreas, ex-funcionários de gigantes da tecnologia e ainda uma família fictícia que se esfacela com a manipulação e vício gerados pelos algoritmos das plataformas. Bastante didático, o filme é uma boa porta de entrada para entender a complexidade do assunto.

E é justamente a complexidade do assunto que escancara os pontos fortes e fracos de O Dilema das Redes. Tecnicamente falando, o documentário é coeso, amarrando bem a história da família fictícia citada acima, com as questões levantadas pelos especialistas sobre os efeitos deletérios das redes sociais em nossas vidas.

Todas as explicações são feitas de forma simples de entender e é possível perceber que os especialistas entrevistados sabem sobre o que estão falando - com destaque para Tristan Harris, ex-funcionário do Google, um dos maiores nomes da chamada Tecnologia Persuasiva e que funciona como um dos fios condutores da obra. Além disso, os dados apresentados têm origem sólida, ainda que a inserção de mais informações e estatísticas não faria mal. Por fim, a "humanização" dos algoritmos também dá um panorama didático de como eles funcionam, bem como as técnicas para manter eu e você com a cara presa na tela de um smartphone. Tudo muito bem explicado.

Chupetas digitais

Dito isso, O Dilema das Redes acerta em diversos pontos fundamentais para entender a dinâmica das redes e seus efeitos. Um deles diz respeito à questão de como as redes sociais afetam a autoestima. E, nesse tema, Tristan Harris faz uma análise certeira. Para ele, "nós evoluímos para nos importarmos com que outras pessoas 'da tribo' pensam de nós, porque é importante. Mas será que evoluímos para saber o que 10 mil pessoas pensam de nós?". O questionamento vem seguido de um complemento: "Não evoluímos para receber uma dose de aprovação social a cada cinco minutos. Não fomos feitos para esse tipo de experiência".

Harris foca em outro ponto, que é bem abordado durante boa parte do documentário: nossa incapacidade de lidar com aquilo que não nos agrada. Segundo ele, "estamos treinando e condicionando uma geração inteira de pessoas que, quando se sentem desconfortáveis, solitárias ou com medo, usam 'chupetas digitais' para se acalmar e isso vai atrofiando nossa habilidade de lidar com as coisas".

O Dilema das Redes também vai bem ao mirar sua artilharia contra as big techs em alguns pontos. Um deles, por exemplo, é a negligência de algumas plataformas em regimes ditatoriais. O Facebook é o alvo mais frequente, quando é citado, por exemplo, como o único meio de comunicação em Mianmar, no sudeste asiático. Lá, o governo controla totalmente a forma como a rede social de Mark Zuckerberg é usada, permitindo uma ampla variedade de fake news que incitam o massacre às minorias, como aconteceu recentemente com os Rohingyas, grupo étnico muçulmano que foi obrigado a se refugir em nações vizinhas depois de ter dezenas de milhares de homens, mulheres e crianças assassinados por outras etnias - tudo por causa de rumores espalhados pelas autoridades via Facebook.

Tristan Harris: para o especialista em Tecnologia Persuasiva, smartphones e redes sociais estão sendo usados como "chupetas digitais" (Foto: Divulgação / Netflix)

Outro ponto bem abordado é a responsabilidade das big techs para com os conteúdos. Nessa questão, o documentário acerta o alvo em cheio: se as redes sociais topam ganhar dinheiro com, por exemplo, propaganda política, elas precisam ser responsáveis por proteger as eleições, mantendo as fake news longe do processo. Logo, elas precisam criar ferramentas REALMENTE efetivas para barrar notícias falsas, conteúdos de ódio e afins. O raciocínio vale para outros setores, como conteúdos para crianças/publicidade infantil, discursos raciais, antivacina, terraplanismo etc.

O problema é que as soluções sugeridas pelas empresas não funcionam. Pelo menos é o que diz a Dra. Cathy O´Neil, cientista de dados: "as empresas falam como se a Inteligência Artificial pudesse distinguir a verdade. A IA não vai resolver esses problemas, incluindo as fake news. Ela não tem um padrão do que é verdade, já que se baseiam em cliques".

Por fim, O Dilema das Redes vai bem ao apontar o dedo para uma questão que vem sendo debatida pelo mundo, ainda que de forma tímida: a (falta de) regulação das big techs. Os especialistas entrevistados para o documentário afirmam que elas estão presas em um modelo de negócios que só foca o lucro trimestral, aliado a pressão dos acionistas. Com isso, não há espaço para fazer algo diferente. Junte isso à ausência de regulamentação, concorrência e regras, e as big techs se transformam em monstros difíceis de parar, agindo como se fossem governos.

Logo, uma das principais soluções desse problema precisa atingir o bolso, a parte do "corpo" que mais dói nas empresas. Uma sugestão interessante proposta pelos especialistas entrevistados é impor taxas sobre obtenção e processamento de dados, da mesma forma que pagamos, por exemplo, uma conta de água ou luz. Uma lei que cobre impostos das empresas sobre a quantidade de dados que elas coletam criaria um motivo fiscal para que as big techs não precisem capturar dados de forma indiscriminada.

Cordeirinhos indefesos

Mas, se O Dilema das Redes acerta e se mostra necessário em muitos pontos, ele também erra mão em outros temas. O documentário se esforça demais em apontar um único vilão e acaba por tratar o espectador como um cordeiro indefeso.

Talvez o principal ponto em que a produção da Netflix se mostra equivocada é na hora de tratar a manipulação dos usuários como se fosse algo criado no mês passado. Desde sempre, veículos de mídia, empresas de todos os setores, agências de publicidade e relações públicas estudam formas e mais formas em manter a atenção do usuário ao seu produto. Assim como as big techs, todos fazem uso de ferramentas tecnológicas que acompanham e coletam dados de seus consumidores para entender seu comportamento.

E essa prática sequer é algo que começou com a explosão da internet. Redes de TV usam plataformas como o Ibope para entender sua audiência; a Disney constrói minilojas na saída de cada um dos brinquedos em seus parques temáticos para que você se sinta impelido a comprar uma "lembrancinha" de cada um deles; empresas de doces pagam fortunas para as redes de supermercados para deixar seus produtos na boca dos caixas, para que você compre por impulso; conglomerados de fast food e de cinema usam cheiros artificiais para você achar que está com fome, quando, na verdade, não está.

Cena de O Dilema das Redes: somos tão indefesos assim diante das redes sociais? (Foto: Divulgação / Netflix)

Enfim, o marketing e a publicidade já estudam e usam técnicas de manipulação para vender mais há décadas. A diferença é que hoje tais ferramentas estão muito mais precisas e captam muito mais dados. E são utilizadas, inclusive, por todas as empresas. Logo, colocar tudo na conta de Google, Facebook, Twitter ou Amazon parece um tanto injusto.

Outra questão que O Dilema das Redes também se equivoca é colocar toda a responsabilidade dos efeitos colaterais causados pelas redes sociais apenas nas big techs e pintar outros setores da sociedade apenas como vítimas. O controle do número de horas que uma criança ou adolescente usa a internet e as redes sociais (e o que eles acessam) deve partir dos pais e da escola, não do Facebook, por exemplo. Inclusive, dentro do próprio documentário há um episódio que ilustra essa falta de controle por parte da família. Isso vale também na hora de trabalhar a autoestima e a forma como os filhos lidam com eventuais frustrações. É um trabalho que exige supervisão e diálogo constantes dos responsáveis. Delegar isso ao Instagram é tirar o corpo fora.

Outro fato está no consumo de fake news. Claro que as redes sociais têm sua parcela de culpa no processo, ao falhar na hora de bloquear notícias falsas ou permitir o uso de mecanismos que as propaguem. Por outro lado, o crescimento da internet gerou dezenas de milhões de leitores mimados, que se acostumaram a consumir conteúdo de graça aos montes pela web. Com essa facilidade, passaram a julgar que tudo que não está de acordo com a sua visão de mundo está errado. Logo, se o veículo X fala algo que lhe desagrade, é mais fácil buscar outro site que fale o que ele quer ouvir, do que analisar um ponto de vista diferente. E esse ambiente é um terreno dos mais férteis para que as notícias falsas e os discursos de ódio e intolerância se propaguem.

O Dilema das Redes vale a pena?

Sem dúvida. O documentário pode não trazer grandes novidades para quem já acompanha o mercado e as redes sociais de perto, mas é essencial para quem quer começar a se aprofundar no tema, como dissemos no começo desta crítica. Todos os entrevistados têm algo a contribuir dentro da sua expertise e envolver um trecho ficcional foi uma boa sacada de seus produtores.

No entanto, na ânsia de apontar quem são os "grandes caras maus", o filme simplifica questões, jogando toda a culpa para as big techs - que, claro, têm uma boa parcela de responsabilidade. Com isso, o filme "esquece" que pais, governos, sistemas educacionais e a sociedade como um todo também precisam colaborar e dividir a conta da bagunça em que o mundo virtual se transformou. E, acima de tudo, as partes envolvidas precisam propor soluções, escutando umas às outras. E é aí que, talvez, esteja a parte mais difícil do processo: ouvir.

Afinal, como diz o próprio Tristan Harris:

"Não é que a tecnologia em si seja uma ameaça existencial. É a capacidade da tecnologia de trazer à tona o pior da sociedade. E o pior da sociedade é uma ameaça existencial".

O Dilema das Redes pode ser assistido no catálogo da Netflix.

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