Crítica Morte no Nilo │ Um ator para carregar um clássico nas costas

Crítica Morte no Nilo │ Um ator para carregar um clássico nas costas

Por Durval Ramos | Editado por Jones Oliveira | 10 de Fevereiro de 2022 às 11h00
20th Century Studios

Kenneth Branagh é alguém muito diferenciado dentro do cinema. Vindo de uma escola shakespeariana de atuação, ele é aquele ator que se destaca em qualquer papel que faz, seja ele em Harry Potter ou em um épico de guerra como Dunkirk. Sempre muito intenso, ele entrega uma força a seus personagens que é sempre muito magnética. E o que acontece quando isso é colocado em um personagem tão clássico e icônico quanto Hercule Poirot?

O detetive criado nos livros de Agatha Christie já ganhou diversas versões na grande tela, mas a interpretação vivida por Branagh realmente salta aos olhos graças à potência que ele dá ao papel. E isso fica evidente em Morte no Nilo, em que não apenas toda a trama e as relações desenvolvidas orbitam ao seu redor como ele próprio é capaz de ofuscar tudo à sua volta.

É algo que a gente já tinha visto anteriormente em Assassinato no Expresso Oriente, mas que fica ainda mais marcante aqui. A história que vai para além do livro original reforça esse lado mais humano de Poirot — e que o ator explora muito bem — ao mesmo tempo que um elenco de apoio não tão inspirado assim acaba sendo apagado pelo ótimo trabalho de Branagh e seu inconfundível bigode.

Cinquenta tons de Poirot

Para quem assistiu a Assassinato no Expresso Oriente, Morte no Nilo soa bastante familiar. Assim como no livro mais famoso de Agatha Christie, o novo filme também coloca o detetive em uma viagem em que acontece um assassinato e que todos que estão ali presos com ele são suspeitos e com boas razões para terem cometido o crime.

A diferença é que, desta vez, todos estão dentro de um navio nas águas do Rio Nilo, em pleno Egito. Ainda assim, a dinâmica é a mesma — o que não diminui o mistério e nem o torna menos interessante. Até porque, na verdade, toda a tensão em torno de quem matou e por que razão é apenas um pano de fundo para aprofundar o próprio Poirot.

Branagh entrega muito mais do que um bigode estiloso com seu Hercule Poirot (Imagem: Divulgação/20th Century Studios)

Essa é a grande diferença desta nova versão de Morte no Nilo do filme de 1978, por exemplo. O longa ousa alguns passos para fora da obra original para falar mais sobre o passado do detetive, do porquê de seu característico bigode e principalmente das relações que teve antes de se tornar o investigador mais famoso do mundo.

E por mais que isso possa incomodar os fãs mais puristas que esperam ver uma adaptação bastante literal da obra, o charme desta nova versão está justamente na intensidade que Branagh dá ao protagonista. Da mesma forma que ele consegue passar muito bem essa figura do detetive inteligente e perspicaz que é capaz de perceber detalhes e reconstruir a cena do crime em segundos em sua mente, ele também é alguém marcado pela dor da perda e que se ressente das loucuras que o amor é capaz de fazer — e isso dialoga diretamente com o crime que ele tenta resolver.

E o ator entrega muito bem todas essas variações do personagem. Em um primeiro momento, ele é apenas aquele idoso quase folclórico e com um jeito desengonçado e sem muito traquejo social, mas rapidamente se transforma em alguém de língua afiada com um tom inquisidor e bastante efusivo em suas acusações — mas que não é alguém completamente sem emoção, muito pelo contrário.

Ator consegue saltar muito facilmente do descompromissado para o intenso e entrega um Poirot bastante complexo e intrigante (Imagem: Divulgação/20th Century Studios)

Por muito tempo a literatura incentivou rivalidades e paralelos entre Hercule Poirot e Sherlock Holmes, mas Kenneth Branagh consegue deixar claro o quanto o detetive de Agatha Christie se difere do morador da Baker Street. Afinal, apesar de todas as peripécias mentais para chegar à resposta, ele ainda é alguém humano com suas dores e seus traumas.

E Morte no Nilo usa isso para fazer com que seu Poirot cresça e brilhe a cada cena. De diálogos importantes durante um interrogatório a conversas triviais sobre relacionamentos, tudo é muito bem explorado pelo ator no seu jeito de falar, nas expressões e nas pausas que faz para apresentar essas camadas que tornam a sua versão do detetive tão interessante.

Assim, da mesma forma que você se envolve com o mistério apresentado e tenta a todo o instante desvendar o crime, é muito fácil se afeiçoar ao herói e compreender o porquê de ele ser tão desagradável às vezes, da mesma forma que simpatiza com seu constante desconforto em meio aos demais personagens.

Uma luz que ofusca as demais

Só que esse protagonismo quase magnético que Kenneth Branagh estabelece para seu Hercule Poirot também se torna um problema. Ao se destacar tanto, ele evidencia o quanto alguns de seus colegas de cena são limitados.

Não que o gerente da empresa ou a tia comunista precisassem de grandes holofotes, mas alguns dos rostos que estampam o pôster de Morte no Nilo parecem se apequenar quando dividem a tela com Poirot. É o caso de Gal Gadot, que confirma ser muito mais simpática do que realmente talentosa.

Gal Gadot segue repetindo o mesmo papel de seus outros filmes — que é justamente o de Gal Gadot (Imagem: Divulgação/20th Century Studios)

A crítica pode até soar pesada, mas a verdade é Linnet Ridgeway em nada difere de qualquer outra personagem que a atriz viveu nos últimos anos e é fundamentada apenas em um belo sorriso, uma pose sedutora e alguns carões. Assim, toda vez que a pobre garota rica precisa interagir com Poirot, fica clara a diferença entre os atores.

E vale destacar que Gadot é apresentada como uma das personagens centrais do filme, tendo um destaque maior do que todos os demais no material promocional do longa.

Isso se repete com outros nomes do elenco, como o Simon Doyle de Armie Hammer. Como se não bastasse as polêmicas do ator terem atrasado a estreia de Morte no Nilo — ele foi acusado de estupro e canibalismo no início de 2021 —, ele traz uma interpretação tão genérica do galã dos anos 1930 que, ao longo de boa parte do filme, você simplesmente esquece de sua existência. Isso sem falar de Russell Brand, que está terrível como Windlesham.

Por outro lado, temos algumas boas surpresas. Ainda que apareça pouco, a atriz Rose Leslie mostra que consegue ser bem mais do que a selvagem de Game of Thrones e faz a criada Louise Bourget de forma bem convincente. Além de ter incorporado muito bem um sotaque de época, ela consegue brincar bastante com as expressões e reações, confundindo o público sobre as intenções de sua personagem, ora sendo claramente culpada, ora vítima.

Apesar do seu jeito bobo e do arco irrelevante, o retorno de Bouc oferece uma ótima dinâmica junto a Poirot (Imagem: Divulgação/20th Century Studios)

Quem também chama a atenção é Tom Bateman. Ele é um dos poucos nomes que retornam de Assassinato no Expresso Oriente e uma das novidades desta versão de Morte no Nilo, já que seu Bouc não existe no livro original. E apesar de todo o arco do jovem inconsequente que é sustentado pela mãe e quer se casar com alguém sem a sua bênção não levar a história para lugar nenhum, a dinâmica do ator com Branagh funciona muito bem.

O grande palco

Como dito, tudo em Morte no Nilo converge para a figura de Hercule Poirot, seja para destacar sua mente aguçada na hora de resolver o crime ou de explorar o passado trágico do detetive. E isso funciona muito bem porque, além de protagonizar o longa, Kenneth Branagh também é o diretor da película, o que facilita a direcionar o filme nesse sentido.

É interessante ver alguns ângulos de câmera, enquadramentos e até mesmo a iluminação que ele adota para compor determinadas cenas. Tudo é muito bem pensado justamente para explorar essas diferentes facetas de Poirot, trazendo uma pegada quase intimista e que faz com que o personagem se torne muito mais intrigante do que o próprio crime em si.

Morte no Nilo traz visuais muito bonitos e que se aproveitam de uma bela fotografia para realçar as paisagens egípcias (Imagem: Divulgação/20th Century Studios)

E é isso o que mais chama a atenção em Morte no Nilo. É claro que o mistério em torno do assassinato prende o espectador, mas o que realmente dá peso ao filme é o modo como o incidente criminoso serve para explorar as marcas do protagonista — e é por isso que cada interrogatório é uma delícia de acompanhar, pois nos permite olhar um pouco mais para aquilo que o personagem às vezes quer esconder.

Isso tudo dá à adaptação um tom teatral que combina muito bem com a proposta do filme. A ideia de a maior parte da trama se passar dentro de um barco — da mesma forma que o trem em Assassinato no Expresso Oriente — aproxima os dois formatos e Branagh usa isso muito bem com a sua experiência no teatro para fazer com que as duas histórias corram em paralelo de forma muito orgânica.

Adicione a essa equação a bela fotografia. Embora caia no velho orientalismo de sempre, o uso de cores quentes para criar esse Egito exótico é algo que combina com o imaginário da época e que está presente na obra original. E isso fica muito bonito na tela, com as cores vibrantes em um cenário bastante limpo que também remetem muito a um grande palco.

E, assim como em uma boa peça, Morte no Nilo se sustenta sobretudo pela figura de seu protagonista. Mesmo com um elenco que nem sempre ajuda e com algumas decisões de roteiro questionáveis, é impossível acompanhar essa história e ficar indiferente ao charme de seu herói.

Assim como nos livros de Agatha Christie, o Poirot de Branagh é essa figura magnética que atrai todas as atenções para si e que carrega todo o filme nas costas — para o bem ou para o mal.

Morte no Nilo está em cartaz nos cinemas do Brasil; garanta seu ingresso na Ingresso.com.

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