Crítica | Little Fires Everywhere tem como combustível racismo e elitismo

Por Natalie Rosa | 09 de Agosto de 2020 às 15h15
Amazon Studios

Há alguns meses, o Amazon Prime Video incluiu em seu catálogo uma nova série que, na verdade, é produzida pelo Hulu, plataforma de streaming que ainda não existe no Brasil. A trama se chama Little Fires Everywhere e, desde o lançamento, muito tem se falado dela, sendo até mesmo indicada ao Emmy, a maior premiação da televisão.

A série é baseada em um livro de mesmo nome, que no Brasil é conhecido como Pequenos Incêndios por Toda a Parte, de Celeste Ng, e a história é baseada na cidade onde a própria autora cresceu, Shaker Heights, em Ohio. A adaptação para a TV ficou por conta de Liz Tigelaar, que já trabalhou em séries como Once Upon a Time e Life UneXpected.

Atenção: esta crítica pode conter spoilers de Little Fires Everywhere

Imagem: Divulgação/Hulu

Little Fires Everywhere começa mostrando um incêndio na casa da protagonista Elena Richardson, interpretada por Reese Whiterspoon, e ao longo da trama acompanhamos como foram os meses até chegar a este trágico dia. A trama pode passar uma primeira impressão de um drama vazio, sobre rivalidade feminina, famílias ignorantes e muito ricas e uma mensagem sem muita importância. Porém, a série é completamente o oposto disso. O foco principal da história é tratar na diferença de classes e no racismo, principalmente na ideia que é conhecida como “white savior”, ou “branco salvador” na tradução literal.

São diversas as vezes em que Elena diz não ser racista, tentando provar isso a todo o custo, mas se acha na obrigação de “salvar os negros” abusando de seus privilégios. Isso acontece quando Mia Warren, interpretada por Kerry Washington, aparece em sua vida. Mia é uma personagem misteriosa, que não gosta muito de falar sobre o seu passado, nem mesmo para a sua filha Pearl (Lexi Underwood).

Imagem: Divulgação/Hulu

Mia e Pearl são nômades e, inicialmente, isso é justificado pela carreira de Mia como artista. Mas como um bom drama, o motivo principal dessa vida é revelado com interferência de Elena. As duas famílias acabam se relacionando quando Elena aluga uma casa para mãe e filha a um preço bastante em conta, e pelo desejo de Pearl de ter uma família “normal”. Isso faz com que a jovem acabe fazendo parte da rotina dos filhos de Elena, o que acaba incomodando Mia e gerando muitos conflitos.

A produção aborda não só a questão racial, como faz críticas ao mito da família perfeita que é constantemente o foco de Elena. Mas quanto mais ela tenta atingir essa perfeição, mais disfuncional a família acaba se tornando. A personagem de Reese Whiterspoon tenta construir a filha mais velha como uma versão ainda mais perfeita dela mesma que, na verdade, também nunca chegou a alcançar essa meta.

Imagem: Divulgação/Hulu

Somos apresentados aos conflitos familiares, raciais e de classes que acontecem na série sendo embalados com a estética dos anos 1990, enquanto os mistérios de desenrolam com flashbacks e muitas decisões maternais erradas. É impossível não relacionar a trama com questões se política social, uma vez que elas são criadas perfeitamente adaptadas para gerar debates.

Elena consegue se tornar uma das personagens mais arrogantes dos últimos tempos, deixando a sua hipocrisia a levar ao que ela acredita que seja a solução para todos os problemas. Isso acontece desde a falsa intenção de achar saber o que é melhor para Mia e Pearl, chegando a investigar o passado dela sem a devida permissão e usar isso como uma arma, desde não ouvir às necessidades dos filhos de maneira real, pensando apenas em aparências.

Imagem: Divulgação/Hulu

A superproteção dos filhos, a projeção da perfeição e o fato de tentar fingir que as durezas da vida não existem foram o combustível que levaram às cenas finais, com o incêndio na casa de Elena. Pequenas atitudes se acumulam a ponto de explodir, ao mesmo tempo em que adultos subestimam a inteligência dos filhos como indivíduos. Se eles estão inclusos na sociedade, são capazes de conversar e tomar decisões, mesmo que impulsivas, e precisam receber a atenção devida sem a ocultação do mundo perverso e cruel no qual vivemos para que se tornem adultos completos.

Little Fires Everywhere está disponível em oito episódios no Amazon Prime Video.

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