Crítica | Irresistível resiste graças a Steve Carell

Por Sihan Felix | 13 de Julho de 2020 às 12h56
Focus Features

Irresistível parece ser dois filmes em um, com duas funções diferentes. Em um primeiro momento, uma sátira direta – não muito profunda – sobre a política bipartidária dos Estados Unidos; em seguida, parece existir uma metamorfose que direciona tudo para comentários sobre o processo eleitoral em si. E estaria tudo bem se essa transformação fosse orgânica e com o intuito de aprofundar cada vez mais as questões, mas existe alguma apatia no trabalho escrito e dirigido por Jon Stewart (de 188 Dias – filme de 2014), que tem a sorte de contar com Steve Carell para fundamentar um protagonista que é mais envolvente por motivos de competência própria do que específico do filme.

Stewart, que marcou época com o programa The Daily Show (no ar de 1999 a 2015), sempre com um humor ácido e direto, aqui parece estar, de algum modo, adestrado. O roteiro, aliás, pende para um tom expositivo que se apoia totalmente em Carell para ter validade para além de qualquer polarização. Existe uma certa indulgência no texto capaz de relativizar justamente muito do que o próprio Stewart já satirizou. Não que seja uma comparação válida; é claro que um programa praticamente diário e cinema não têm tanto em comum. A questão é que Irresistible (como ainda vem sendo chamado no Brasil), em alguns momentos, pode ser visto como um trabalho sem muito gosto, um chuchu cozido sem sal e sem tempero.

Cuidado! A partir daqui o texto pode conter spoilers.

Causa e efeito

Na história, Gary (Carrell) é um conselheiro democrata que descobre o Coronel Jack Hastings (Chris Cooper) por meio de um vídeo no YouTube. Defendendo imigrantes em pleno debate da prefeitura, o Coronel fica na mira da personagem de Carell, que tem o intuito de ampliar a base democrata e demonstrar que, mesmo em um reduto republicano, existe esperança e salvação. É um começo interessante e, para um texto claramente antitrumpista, pode parecer promissor. Stewart, inclusive, pouco faz na escolha dos planos, fundamentando sua decupagem quase que somente na ilustração do que está escrito. Há, nesse sentido, um jogo de causa e efeito realizado pela direção a partir da decupagem que é quase nulo.

Essa guia imagética pouco criativa, por outro lado, cede espaço para Carell demonstrar o quanto pode ser carismático. Estão exatamente nele os poucos planos mais efetivos para a relevância estética de Irresistível. Todos (ou perto disso), porém, pouco conduzem a experiência, servindo quase que somente para ressaltar a habilidade cômica de um ator que nada mais tem a provar. Felizmente, as incursões do diretor pelos planos mais fechados e closes em seu protagonista rendem alguns dos melhores momentos do filme. De repente, irresistível pode ser uma característica metalinguística para ressaltar o trabalho de Carell.

Um dos closes em Carell. (Imagem: Universal Studios)

Perecível

A partir do momento em que tem o seu discurso sobre a política bipartidária direcionado para as questões eleitorais, o filme parece perder a força. Por mais que Stewart dê a entender um certo posicionamento em cima do muro desde quando demonstra o ativismo dentro do partido democrata com deboche, suas colocações podem ser tão rasas quanto a adaptação de Gary em Deerlaken. Nesse ponto, existem momentos que podem ser realmente engraçados e relevantes, com o democrata de Carell servindo ao esterótipo do homem de classe média que chega da capital para interior. É na desconstrução de Gary que Irresistible tem seus melhores momentos – e, novamente, muito graças à escalação de Carell.

Mas não existe um contraponto relevante. Este, que poderia ser Faith (Rose Byrne), acaba soterrado por uma intromissão frágil – apesar de válida – em questões orçamentárias relativas à obtenção de investimento privado para as campanhas eleitorais. É claro que, independentemente do posicionamento político, o ponto tocado pode ser visto como válido e até necessário. Em contrapartida, chegar ao plot twist que finaliza essas questões com um aparente medo – ou com o desejo de agradar a gregos e troianos – talvez dê uma sobrevida bem perecível ao filme.

Gary (democrata) e Faith (republicana). (Imagem: Universal Studios)

Ao conhecer o roteirista e diretor, ainda mais o seu único trabalho anterior para o cinema (o citado 118 Dias), pode ficar a sensação de frustração. Não de decepção, porque um filme não tem culpa das expectativas que criamos, mas é um sentimento que pode estar ligado ao tema tão atual e pulsante e a um elenco tão competente e, de fato, irresistível.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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