Crítica | GDLK tem como tema os games, mas, na verdade, é sobre pessoas

Por Wagner Wakka | 17 de Outubro de 2020 às 15h00
Divulgação/Netflix
Tudo sobre

Netflix

Saiba tudo sobre Netflix

Ver mais

France Costrel é uma documentarista que fez um trabalho interessante de resgatar a história dos jogos antigos. Ela produziu 8-bit Legacy, uma série indicada ao Emmy com foco nos primeiros títulos da indústria dos games. Foi esse sucesso que chamou a atenção da Netflix para o lançamento de High Score, lançada aqui no Brasil como GDLK.

Vale uns parênteses infelizes para a escolha desse nome. A sigla vem de “Godlike”, algo que pode ser traduzido como “divino”, “divindade”, ou remetendo a alguém que é tão habilidoso que pode ser chamado de “deus dos games”. A questão é que os tradutores trocaram uma expressão em inglês para outra, ainda em inglês, só que menos conhecida. Isso torna bem difícil de mostrar, de cara, do que se trata a série.

GDLK propõe contar a história dos games pela perspectiva não só de quem os inventou, mas também das pessoas mais apaixonadas por eles. Por isso, usa como fio condutor a narrativa daqueles que venceram campeonatos mundiais de títulos como Tetris, Mario e Sonic. Isso é muito inteligente e explico mais adiante o motivo.

A questão é que o foco nas pessoas também joga os holofotes em temas muito importantes para Costrel, e constantemente negados por parte vocal da comunidade gamer. A série da Netflix traz relatos de jogadores trans, gays, negros e reforça as mulheres deliberadamente, o que traz outra camada para o documentário.

Veja bem, não estamos aqui dizendo que GDLK é o primeiro material a destacar representatividade na mídia. Aliás, fica a dica para leitura da obra de Adrienne Shaw, principalmente no livro Gaming at the Edge, para aprofundar no tema.

O ponto é que GDLK toca em temas necessários, com um envelope capaz de ser entregue fora da bolha dos gamers. Afinal, de cara, ele é só um documentário sobre a história dos videogames. Sem exatamente aprofundar o tema, dá uma visão importante para histórias que não aparecem regularmente no mainstream.

Aspecto histórico

GDLK é uma obra que pretende dar voz a pessoas da indústria dos games, além daquelas figurinhas carimbadas da indústria. Claro que Costrel conversa com nomes como Nolan Bushnel (o fundador da Atari), Tom Kalinske (responsável pelo sucesso da SEGA e Sonic) e John Romero (criador de Doom). Contudo, permite que outras pessoas da indústria também contem suas versões de tudo isso.

Em seis episódios, a série passa da gênese dos games, fala sobre a crise dos arcades, o nascimento dos consoles, a batalha Nintendo e Sega, o início do pânico moral com Mortal Kombat e o surgimento dos eSports.

Por exemplo, ao falar sobre a experimentação do 3D pela Nintendo em Star Fox, conversa com Ben Cheese e Rob Macaulay, que desenvolveram o SuperFX, chip capaz de colocar os gráficos no console. A principal cabeça do projeto era Shigeru Miyamoto, pai de Mario, mas sua narrativa já é bem conhecida.

Outra figura interessante do documentário é John Kirby. O advogado da Nintendo ganhou o processo mais importante da história da empresa em cima da Universal por conta de direitos de King Kong em Donkey Kong. Em GDLK, é ele quem conta essa história. Um registro raro e importante do personagem central do sucesso da Nintendo e que faleceu no ano passado.

Com isso, GDLK consegue trazer muito material até mesmo para quem já leu os livros mais importantes da indústria. Você até pode reconhecer a maioria dos rostos ali, mas será apresentado a vários outros.

Envelope do entretenimento

A série não pretende ser um relato meramente histórico do passado dos games, mas trazer uma forma leve e didática de entender alguns pontos que trouxeram a indústria até aqui. Veja bem, estamos falando do passado de uma mídia reconhecidamente nerd, com entrevistas de engenheiros, desenvolvedores e tiozões e tiazonas da indústria falando do passado. Era preciso deixar isso mais abrangente.

Aqui entra uma das genialidades de GDLK: também contar a história dos vencedores de campeonatos dos jogos mais importantes do passado. Por si só, isso quebra a motonidade das entrevistas, tecnicismos e relatos de mercado do desenvolvimento de jogos. Mas vai além: oferece uma ferramenta fácil de narrativa centrada no pessoal.

Toda história de vencedores de campeonatos é uma narrativa de superação e, claro, vitória. Ao trazer um personagem deste por episódio, Costrel tem nas mãos um ápice de trama na manga para intercalar com entrevistas com executivos. Esses jogadores lembram de forma emocionada como foi difícil treinar, alguns não foram vitoriosos da primeira vez, relatam as etapas das competições, criam bons clímax e entregam o episódio sempre com o astral lá em cima.

Com isso, Costrel consegue colocar aquilo que mais lhe importa em documentários: o tema pode até ser os games; mas, no final, GDLK é sobre as pessoas.

Uma delas é Rebecca Heineman que hoje é desenvolvedora de jogo e atualmente CEO da Olde Sküül. Contudo, antes disso ela foi campeã mundial de Space Invaders e GDLK quer contar essa história. Heineman é trans, um detalhe que embora seja apenas tangenciado na série, muito importa para a narrativa.

Rebecca Heineman (Foto: Reprodução/ Netflix)

No mesmo episódio, também contam a história Jerry Lawson, um dos poucos negros da indústria e que, na década de 1970, foi quem desenvolveu a tecnologia para os cartuchos de videogame. Só foi reconhecido disso depois de sua morte.

Costrel trabalha muito bem essas histórias, porque sabe que é ali que vive a indústria de jogos. Afinal, ela não seria nada se não fossem as pessoas que a desenvolveram e consumiram por tantos anos.

Visualmente impressionante

Outra técnica muito bem empregada em GDLK são os recursos visuais. A série trabalha com estética em pixel art e recheia as cenas com animações misturadas às entrevistas. Chega a ser impressionante a quantidade de cortes que são explicados simplesmente com animações em pixel art.

Por exemplo, quando Ben Cheese e Rob Macaulay relatam sua reunião com a Nintendo para explicar como fazer 3D em um Game Boy, todo aporte visual é feito em uma cena animada em pixel art.

Isso é um recurso caro e que deve ter dado muito trabalho aos produtores. Contudo, é um dos pontos cruciais para o bom ritmo de GDLK, principalmente porque quebra a sequência de entrevistas técnicas com os desenvolvedores.

Parte da história é contada por animações em pixel art (Foto: reprodução/Netflix)

Além disso, a indústria de games é extremamente fechada, principalmente quando se fala em Nintendo. Logo, a utilização das cenas em pixel art ajudam a fechar lacunas de imagens que os documentaristas não tinham.

É para quem? 

Diante das mecânicas que a série utiliza, GDLK é uma série de amplo público e que pode alcançar até mesmo aqueles que nada ou pouco sabem sobre a indústria dos games. Aos que gostam do meio, é um prato cheio para aprofundar no passado e dar voz a pessoas que até então estavam nas sobras das entrevistas.

Com bom ritmo e poucos episódios, é bastante didática, com uma boa dose de emoção e beleza visual. Contudo, vá para a série lembrando que se trata de entretenimento. Ou seja, não espere se aprofundar muito nos temas que o documentário traz.

A beleza dele é poder dar voz a pessoas como Heineman, Lawson e outros que, embora conhecidos já de quem estuda o tema a fundo, são pouco destacados na mídia mainstream.

Assim, GDLK aparece como um bom ponto de partida para iniciar uma fagulha de interesse em mergulhar mais profundamente nos problemas e belezas da indústria dos jogos.

Lançado em 19 de agosto, GDLK tem seis episódios, todos disponíveis exclusivamente na Netflix.

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.