Crítica Eternos │ Novo filme da Marvel pisa no freio e só tem a ganhar com isso

Crítica Eternos │ Novo filme da Marvel pisa no freio e só tem a ganhar com isso

Por Durval Ramos | Editado por Jones Oliveira | 02 de Novembro de 2021 às 19h00
Divulgação/Marvel Studios

Acompanhar os últimos anos de Universo Cinematográfico da Marvel (MCU, na sigla em inglês) acostumou mal os fãs. A grandiosidade de filmes-evento como Guerra Infinita e Ultimato criou a sensação de que a próxima história tem que ser ainda mais grandiosa, criando uma sombra que parece atingir a todos os lançamentos dessa Fase 4. Toda essa empolgação nos faz esquecer que, às vezes, uma história precisa diminuir seu ritmo para que ela possa avançar novamente — e é por isso que Eternos pode soar estranho para muita gente.

Não que o novo filme do Marvel Studios seja ruim — muito longe disso. O longa traz uma história convincente, ótimas cenas de ação, uma direção bem diferente daquela que nos habituamos a ver no MCU e personagens muito apaixonantes. Só que, para tudo isso funcionar, ele precisa de tempo para explorar e desenvolver esses elementos — um tempo que nos desacostumamos a ver em filmes de super-herói.

É por isso que muita gente pode estranhar o ritmo de Eternos, ainda mais em comparação ao frenesi dos últimos filmes da Saga do Infinito. Mais do que se preocupar em criar conexões com o restante do universo MCU, o foco aqui está em apresentar e desenvolver cada um de seus personagens e explorar a mitologia desse canto tão peculiar da Marvel.

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Para que essa mistura de deuses astronautas, gnosticismo e super-heróis funcione, a diretora Chloé Zhao optou por pisar no freio na ação para que a gente conhecesse a fundo cada um dos novos protagonistas, como eles se relacionam e como veem o mundo em que vivem — o que é fundamental para que a gente se conecte à história. Só que isso requer uma paciência que o MCU nunca exigiu de seu público.

E o grande ponto é que as lutas a cada 10 minutos ou aquela correria desenfreada não fazem falta por aqui. Trata-se de uma história sobre relacionamentos e sobre o quanto isso é o que há de mais humano em nós — ainda que isso venha de seres quase divinos. Por mais que o ritmo mais lento destoe muito da fórmula que a Marvel nos apresentou por quase uma década, o resultado é uma das histórias mais interessantes desse universo.

Questão de família

A coisa mais importante em Eternos são seus personagens. Esqueça toda a ladainha de Deviantes que os trailers apresentaram, pois eles estão ali só para render algumas cenas de ação aqui e ali. Aquilo que torna o filme verdadeiramente cativante é a dinâmica dos deuses da Marvel.

Os personagens e sua dinâmica é a melhor coisa de Eternos (Imagem: Divulgação/Marvel Studios)

Montar uma história de origem com diversos protagonistas não é tarefa fácil, ainda mais quando nenhum personagem é realmente conhecido do público. E o grande mérito de Eternos é conseguir apresentar e desenvolver cada um desses seres imortais, dedicando uma boa parte do roteiro para que a gente conheça, se afeiçoe e entenda cada membro do grupo, sua personalidade e sua forma de ver o mundo.

É assim que vemos a paixão pela humanidade de Sersi (Gemma Chan), o narcisismo de Kingo (Kumail Nanjiani) e a frustração da Duende (Lia McHugh) com a sua própria natureza. Cada um dos novos heróis é retratado com uma personalidade única que o difere dos demais e todos são igualmente interessantes e cativantes. Todos têm seu momento de destaque, mesclando bem o humor típico da Marvel com as particularidades de cada um. Todos eles funcionam bem isoladamente e se tornam ainda melhores quando estão em conjunto. Até mesmo o Ikaris de Richard Madden é um ótimo personagem, apesar do desempenho limitado do ator.

Mesmo atuando feito uma batata, Richard Madden entrega um Ikaris basntante interessante (Imagem: ~Divulgação/Marvel Studios)

E essas dinâmicas são fundamentais para que a história toda funcione. A verdadeira tensão do roteiro não está no modo como o grupo vai derrotar os Deviantes ou salvar o mundo, mas como as suas diferentes formas de encarar a humanidade e a missão que foi dada a eles se chocam — e para que esses conflitos funcionem, a gente precisa se importar com todos os dez eternos, o que o filme faz muito bem.

Só que, como dito, é preciso tempo para que todas essas relações sejam exploradas — e é aí que Eternos pisa no freio em relação àquilo que nos acostumamos a ver no MCU. Assim, ao invés de termos diversas sequências de ação que dão à trama uma celeridade e um senso de urgência, o filme se dedica a mostrar a relação de Ikaris e Sersi, a justificar a admiração mútua de Gilgamesh (Don Lee) e Thena (Angelina Jolie) e explicar por que Druig (Barry Keoghan) discorda dos métodos de seus irmãos.

Eternos não tem medo de diminuir ritmo para desenvolver personagens e suas relações — algo raro em filme de herói (Imagem: Divulgação/Marvel Studios)

Não por acaso, o longa trabalha com muitos flashbacks. Há um vai e vem constante entre passado e presente que, em alguns momentos, realmente atrapalha o ritmo da história, mas que se faz necessário tanto para vermos o desenvolvimento dessas relações como para entendermos como esses deuses se relacionam com a humanidade desde a Antiguidade. E, levando em conta que ver o lado humano dos protagonistas é a melhor coisa por aqui, isso está longe de ser um grande problema.

A Liga da Justiça da Marvel

Embora estejamos falando sobre um ritmo mais lento, isso não faz de Eternos um filme parado. Há diversas cenas de ação, no passado e no presente, e ver o grupo usando seus poderes é uma das coisas mais empolgantes do longa.

As coreografias de luta e o uso dos poderes nos faz lembrar por que a gente sempre se empolga no MCU (Imagem: Divulgação/Marvel Studios)

Cada membro do grupo possui habilidades bem distintas. Enquanto Gilgamesh é um brutamontes que resolve tudo na base do soco, Thena e Kingo são bem mais táticos e acrobáticos em suas investidas contra os Deviantes. Já Phastos (Brian Tyree Henry) é o típico inventor, criando diversas geringonças para usar em combate e ver tudo isso em ação é bem divertido.

E, sem exagero, a Marvel conseguiu com esse bando de desconhecidos fazer uma Liga da Justiça tão convincente quanto a verdadeira. A forma como Makkari (Lauren Ridloff) usa sua velocidade para desviar de disparos e acertar inimigos é algo que não vimos nem o Flash fazer até hoje — seja quando esfrega a cara do adversário na parede por alguns quilômetros ou quando usado seu impulso para socar o oponente. Até mesmo o Superman genérico que é o Ikaris empolga enquanto voa disparando raio pelos olhos, assim como a Thena de Jolie mostra que é tão poderosa e incrível quanto a Mulher-Maravilha. E quando todos começam a se enfrentar, é um daqueles momentos para ficar empolgado na ponta da poltrona do cinema.

Thena é tão poderosa e intimidadora quanto uma Mulher Maravilha (Imagem: Divulgação/Marvel Studios)

Todas as coreografias de combate são muito bem feitas, aproveitando bem tanto as habilidades de cada um dos eternos como o impacto visual que elas oferecem para compor cenas que são realmente impactantes. A diretora Chloé Zhao usou cenários reais para criar a ambientação de todo o filme, então ver essas lutas em ambientes abertos que não soam falsos é um ganho enorme e que combinam muito bem com a identidade visual retirada dos quadrinhos, inspirada nos traços de Jack Kirby. E até mesmo personagens que são mais táticos, como a Duende e Druig, conseguem ter seus momentos, o que mostra mais uma vez como Eternos consegue fazer uso de cada membro de seu elenco.

DNA Marvel

Depois de tanto tempo no ritmo acelerado do MCU, é fácil estranhar o tempo que Eternos toma para contar sua história. Só que um filme não se faz apenas pulando de cena de ação em cena de ação, ainda mais diante de personagens tão desconhecidos do público e com conceitos que são confusos até para quem lê quadrinhos. Em um filme em que se discute o valor da humanidade, nos conectar às motivações e às visões de mundo desses heróis é fundamental.

Apesar de destoar bastante do ritmo acelerado dos demais filmes, Eternos deixa claro o DNA Marvel (Imagem: Divulgação/Marvel Studios)

Apesar de Eternos ainda ter vários deslizes, ele entrega uma história sólida e que funciona muito bem por fazer com que a gente se importe com aqueles ilustres desconhecidos. Toda a dinâmica desses deuses é o que sustenta a trama e que faz com que as reviravoltas e conflitos tenham o peso necessário tanto para nos impactar quanto para desenhar o que está por vir no futuro do universo cinematográfico.

A sombra criada por Vingadores: Ultimato ainda é um problema para essa Fase 4. A expectativa e a ansiedade do público por algo tão grandioso quanto é um monstro que a própria Marvel criou e que agora parece sofrer para domar. Contudo, quem conseguir segurar a fera do hype vai encontrar em Eternos uma das coisas mais interessantes que o MCU já ofereceu em muito tempo.

Eternos entra em cartaz nos cinemas de todo o Brasil nesta quinta-feira (4); os ingressos já estão à venda — garanta o seu na Ingresso.com.

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